Em Tacuru, áudios envolvendo servidores municipais sugerem envenenar a água das comunidades
Arte e roteiro: Marina Duarte
Texto complementar: Patrícia Kalil
Originalmente para Árvore Água
No Mato Grosso do Sul, indígenas denunciam ameaças de envenenamento, perseguição e retaliação depois das eleições. Água, transporte e segurança não podem ser usados como punição política.
Quem ameaça pessoas porque não votaram no seu candidato recusa o próprio direito de escolher. Em Tacuru, áudios envolvendo servidores municipais sugerem envenenar a água das comunidades. O prefeito anunciou o afastamento de um servidor e a abertura de processo administrativo.
O Ministério dos Povos Indígenas encaminhou o caso à Polícia Federal. A violência não começou nas urnas. O relatório “Conflitos no Campo Brasil 2024”, da Comissão Pastoral da Terra, registrou 99 conflitos por terra no estado, atingindo mais de 13 mil famílias camponesas e indígenas. Mais de 260 pessoas sofreram violências, sobretudo em territórios Guarani e Kaiowá: agressões, ameaças, contaminação por agrotóxicos e tentativas de assassinato.
Em Panambi–Lagoa Rica, em Douradina, famílias denunciaram peixes mortos e água esbranquiçada no rio em 2024. Segundo o Cimi, adultos e crianças adoeceram após o contato com a água, sob suspeita de despejo de substâncias tóxicas. Em publicação de 1966, Adorno propõe enfrentar os mecanismos que tornam a barbárie possível.
Chamar indígenas de “pragas”, como no áudio denunciado em Tacuru, é uma forma de desumanizar pessoas para justificar a violência. A luta pela terra e pela água é pelo direito de plantar, viver, cuidar, amar, celebrar e transmitir saberes. Guarani, Kaiowá e Terena têm suas próprias organizações e projetos de futuro. Cabe ao Estado garantir seus direitos e respeitar sua autonomia.
Exigimos proteção, investigação, responsabilização e demarcação. Dos governos municipal, estadual e federal, cobramos ação contra a violência e o racismo. A atenção pública não pode terminar quando o áudio desaparece do feed.


