Microplásticos: eu consumo, tu consomes, nós consumimos

Uma pesquisa da USP com o Instituto Voz dos Oceanos encontrou plástico em 70% das amostras de mexilhões, ostras e sururus analisadas

Por Norberto Liberator e Patrícia Kalil
Colaboração com Árvore Água

Já está até chovendo microplástico! Até quando a indústria vai continuar embalando nosso dia a dia em plástico feito para usar uma vez e jogar fora?

O plástico tem usos importantes. Uma seringa descartável ajuda a prevenir infecções. Mas por que o copo do café na lanchonete, o talher do almoço e a sacola que carrega duas compras precisam ser descartáveis? Como isso virou normal? São poucos minutos de uso e um lixo que deixamos para muitas gerações.

Quanto plástico você usou hoje? Quanto poderia ter evitado? E quanto veio junto com a compra, sem que você tivesse escolha?

O caminhão leva o lixo, mas o plástico continua no mundo. Sob o sol e com o desgaste, uma garrafa pode se fragmentar em milhares de pedacinhos. Roupas sintéticas soltam fibras a cada lavagem. Pneus deixam partículas pelo asfalto. O vento carrega, a chuva arrasta, o rio leva para o mar. Quando menores que 5 milímetros, esses fragmentos de plástico são chamados de microplásticos.

Em 2020, um estudo publicado na Science encontrou microplásticos em 98% das amostras de deposição pela chuva e pelo ar coletadas em 11 áreas protegidas do oeste dos Estados Unidos. Mesmo longe das cidades, o plástico caía do céu.

Aqui no Brasil, uma pesquisa da USP com o Instituto Voz dos Oceanos encontrou plástico em 70% das amostras de mexilhões, ostras e sururus analisadas. Havia animais contaminados em todas as localidades pesquisadas, em 14 estados costeiros. A poluição chega ao alimento servido no prato.

A Fundação Ellen MacArthur alerta em seus relatórios: a reciclagem, sozinha, não resolve. É preciso eliminar embalagens desnecessárias e ampliar o uso das retornáveis. Escrever “reciclável” no rótulo não garante que aquela embalagem será recolhida e reciclada.

Podemos levar nossa sacola, recusar descartáveis, usar muitas vezes o pote e a garrafa que já temos. Mas precisamos também cobrar leis que proíbam a produção de descartáveis e obriguem os fabricantes a assumir os custos das embalagens que colocam no mercado. Quem compra não decide sozinho o que chega às prateleiras. Por que vender uma embalagem que usamos uma vez e deixar para tantas gerações o trabalho de lidar com ela?

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