Tempestades na região de Campo Grande são indício de formação de evento extremo sobre o bioma
Norberto Liberator e Patrícia Kalil
Originalmente para Árvore Água
Em setembro, um temporal atingiu Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. Nas áreas urbanas impermeabilizadas, a chuva encontrou menos espaço para infiltrar e sobrecarregou a drenagem. Vieram também os ventos fortes. Moradores ficaram sem energia, perderam alimentos, equipamentos públicos foram danificados.
O temporal lançou o alerta: as cidades do Cerrado precisam se preparar para as mudanças climáticas. O negacionismo e a defesa do desmatamento por setores reacionários do agro dificultam o enfrentamento do problema. É preciso despertar! Para enfrentar os impactos do El Niño, o governo Lula anunciou um planejamento nacional de R$ 1,335 bilhão para preparação e resposta, incluindo alimentos, saúde, monitoramento dos rios e combate a incêndios. Que a proteção chegue às comunidades.
Estamos na passagem do período seco para o chuvoso, sob influência do El Niño, que altera a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas. Menos chuva no conjunto da estação não impede a ocorrência de temporais. E você sabe como as árvores do Cerrado atravessam meses com pouca chuva?
Muitas espécies reduzem a abertura dos estômatos, pequenos poros nas folhas, para controlar a perda de água. Algumas perdem folhas e usam água guardada no tronco, complementando a absorvida pelas raízes. Economia de água. Ajustes que ajudam a manter a planta viva durante o período seco.
Quando a chuva chega, parte da água escorre pelas folhas, depois pelo caule, chegando ao solo. Penetra devagarinho. Uma parcela abastece reservas subterrâneas que ajudam a manter os rios correndo. O Cerrado abriga áreas de recarga de aquíferos e nascentes que alimentam oito das doze regiões hidrográficas brasileiras.
Por isso, é chamado de caixa-d’água do Brasil. Infelizmente, pela ação de quem desmata e avança sobre a vegetação nativa e os territórios dos povos do Cerrado, estamos comprometendo esse abastecimento e deixando a região mais vulnerável aos eventos extremos do El Niño.
Uma análise da Ambiental Media identificou queda de 27% na vazão de segurança dos rios de seis bacias, comparando 1970–1979 com 2012–2021. É menos água disponível. Proteger o Cerrado é uma escolha política.

