Cultura da música cover e a nostalgia

Tradição de reprodução de canções consagradas no passado em detrimento da música autoral é sintoma de ideologia reacionária Por Jorge Aluvaiá Todos têm o direito à cultura, arte e lazer – e também têm o direito de criar e promovê-los. No entanto, também é direito do público e de agentes culturais questionar o que se produz. Assim, meu questionamento começa do seguinte ponto: O que é gerado quando tanto os agentes das artes quanto seu público estão presos a uma forte nostalgia, conectados com passado – mesmo que, às vezes, um passado recente – artisticamente idealizado? Primeiramente, precisamos reconhecer que qualquer produção artística tem sim seu valor e pode ser fonte de renda dos trabalhadores e trabalhadoras que as produzem. Quero neste momento abordar as intersecções existentes nesse movimento, sejam essas intersecções geradas de forma proposital, acidental ou estrutural, com um recorte de na nossa realidade artística brasileira. É evidente, para o leitor ou a leitora, que nosso país passou e vem passando por um processo de terra arrasada, decorrente das articulações de golpe que culminaram na destituição da então presidenta Dilma Rousseff, em 2016, até a eleição de Jair Messias Bolsonaro, em 2018, e seu posterior governo. O reacionarismo usado como ferramenta de controle de massas deixou, na boca do povo brasileiro, um sabor agridoce, reforçando uma nota de saudosismo por um passado que sempre nos foi vendido como um lugar melhor. De fato esse saudosismo não é fruto do dos governos Temer e Bolsonaro, mas foi neles que esse traço se acentuou. Não à toa o carro chefe desse movimento é a música sertaneja, assim como no governo Collor de Mello. O sertanejo, além de ser trilha sonora do agronegócio predador, também tem uma enorme importância na formação da cultura brasileira e isso é indiscutível. Mas uma das facetas que sempre foram presentes no sertanejo é a saudade de uma vida bucólica, de uma vida campestre, simples e pacífica, e vivendo no Mato Grosso do Sul, sabemos que isso é uma falácia. Nossa história está repleta de casos de violência contra todos que se opuseram aos senhores do campo, os autointitulados donos de terras, ou seja, um passado idealizado, vendido. Também vale lembrar que os ponteados, pagodes de viola, rasqueados e lamentos, eram majoritariamente tocados e cantados pelos trabalhadores da terra, que cantavam as agruras de uma vida simples, porém dura. Outro exemplo é o sertanejo nordestino, quando canta saudades da sua terra por ter precisado se retirar, para tentar a vida na cidade grande ou nas fazendas do interior de São Paulo. Percebam como não é à toa o sertanejo ser carro-chefe de um movimento cultural que visa retroceder para um lugar que nunca existiu. Mas o que fazer música cover tem a ver com tudo isso? Caso o leitor queira fazer o teste, vá a uma apresentação sertaneja, e pode ser mais da simples à mais pomposa; os shows desses artistas estão repletos de canções que não são de sua autoria. Não estou tratando dos cantores que são intérpretes de outros compositores, pois essa é uma outra discussão sobre indústria do entretenimento. A referência é à cultura do cover, que mostra seu lado mais feio em outros gêneros musicais em círculos menores. Artistas independentes de música pop, pop/rock, rock, forró, MPB etc. Aqui entra um fator onde artistas têm que dar o braço a torcer, caso queiram continuar trabalhando: o fator donos de casas de show. Nesse âmbito, entendemos que os proprietários e proprietárias desses estabelecimentos, além de ter compromisso com o lucro, raramente são artistas e têm pouco conhecimento do mercado artístico, porém são ótimos comerciantes de bebidas alcoólicas. Façamos um exercício para entender as características supracitadas. Compromisso com o Lucro. Espero que não seja uma surpresa, para o leitor ou a leitora, que um empresário visa primeiramente a manutenção e a rentabilidade dos seus negócios – e não há nada de errado com isso. Sabendo que a casa deve estar cheia para se obter lucros, adivinhem só quem atrai esse público? Sim, artistas. Esses artistas têm como trabalho proporcionar um bom espetáculo para público, afinal, quanto mais tempo eles passarem dentro das casas de show e bares, mais as pessoas irão consumir. E os donos da casa querem ter certeza de que isso irá acontecer. Sendo assim, eles passam a fazer parte da escolha de repertório do artista. No processo de contratação, é comum o gerente da casa, quando não o proprietário, aprovar o repertório pré-selecionado do artista, para garantir que ele ou ela toque apenas sucessos das últimas décadas ou de um passado recente. Para além disso, deixa-se bem claro que músicas autorais são potencialmente problemáticas, pois estamos tratando de círculos menores da indústria, e tais artistas talvez nunca tenham algum trabalho com alcance o suficiente para ter autonomia em escolher seu próprio repertório. A consequência disso é um show majoritariamente composto por sucessos de outros artistas, deixando para o público a errônea impressão de não se fazer mais músicas boas como antigamente, que o rock de verdade morreu nos anos 90, essas besteiras que se dizem por aí. Mas o pior desdobramento disso tudo acontece quando o artista vê que o público tem uma enorme rejeição ao que é novo, matando assim uma cadeia inteira de processos criativos e produção de novas obras, tudo isso em nome do deus lucro. Raramente são artistas. Este é o ponto mais delicado, pois é aqui que os gostos e preferências musicais dos donos desses espaços se misturam com seu tino empresarial. Este que vos escreve já teve a oportunidade de frequentar, tocar e até trabalhar como funcionário em algumas casas de show. E uma coisa é fato: quanto maior e mais profunda tiver sido a vivência artística pregressa dessa pessoa, mais bem definida será a temática do estabelecimento e mais liberdade artística os artífices que prestam serviço à casa terão. No meu ponto de vista, existe uma vontade, nesse tipo de proprietário, de fazer da sua casa um espaço legítimo de produção de arte,
A sanfona iluminada de Dominguinhos

Músico pernambucano, cuja morte completa 10 anos em 2023, foi um dos mais importantes compositores da América Latina Por Norberto Liberator Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Instagram Twitter Youtube Tiktok
Rita Lee, a padroeira da liberdade

MARINA DUARTE Ilustradora e quadrinista pantaneira. Feminista antiproibicionista interessada na profunda mudança social. Twitter Youtube Instagram Tiktok
Uma conversa sobre K-pop

Quebra de recordes musicais é só um dos diferentes impactos sociais e culturais provocados pelo K-pop Por Carolina de Mendonça Nos últimos 10 anos, foi praticamente impossível não se deparar com a “onda coreana”. Também conhecida pelo termo, não tão lisonjeiro, invasão coreana, surge do neologismo Hallyu, junção das palavras “Han” (Coreia ou coreano) e “Ryu” (corrente ou tendência), e foi criada por jornalistas de Pequim (China) em 1997, buscando explicar a ascensão da importação cultural sul-coreana. Em meio à Crise dos Tigres Asiáticos, a Coreia do Sul, através de iniciativas estatais e privadas, investiu em sua indústria do entretenimento, buscando levar para o exterior commodities que exerceriam influência para que os consumidores tivessem uma determinada visão sobre o país. No primeiro momento, a importação se concentrou em outros territórios do leste asiático como China, Japão e Hong Kong. Quinze anos após a criação do termo “Hallyu”, já era possível afirmar que a cultura pop coreana conquistou o mundo. No final de 2012, o artista PSY atingiu a marca do vídeo mais visto no YouTube, a qual permaneceu por pouco mais de quatro anos, com o videoclipe de Gangnam Style, que faz referência a um distrito de Seul, capital da Coreia do Sul. A música se tornou mania mundial – no Brasil, era comum nos ambientes e na televisão se ver reproduzida a coreografia entre gritos de “êêê sexy lady”. A música chegou a ser sensação no carnaval soteropolitano em 2013. Mais recentemente, o audiovisual sul-coreano também se mostrou inescapável. O filme “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, venceu a Palma de Ouro, principal prêmio no Festival de Cannes e foi o grande premiado do Oscar de 2020, recebendo quatro estatuetas, entre elas a de “Melhor filme”. Entre séries, Round 6 se tornou a obra original mais vista na Netflix. Como consequência, as subjetividades têm sido constituídas e moldadas com valores advindos dessas indústrias. Aumentou o interesse em aprender coreano, no turismo na península e a busca pelo padrão de beleza sul-coreano, que assim como o estadunidense e europeu, é bastante nocivo. A onda coreana tem atingido de forma mais intensa meninas e mulheres jovens, e possui repercussões diretas na política. Grupos de fãs (conhecidos como fandoms), que se organizam para apoiar seus ídolos, têm sistematizado ações e campanhas de caráter progressista em vários países. Para conhecer mais sobre música pop produzida nas últimas décadas na Coreia do Sul, a Revista Badaró convidou o jornalista cultural e repórter no Omelete Caio Coletti, e a funcionária pública e estudante de Publicidade e Propaganda Sâmela Silva. Ambos fazem parte da equipe do podcast K-Pop Top. Descoberta: Você já ouviu K-pop? O K-pop, em si, não é um gênero, mas um termo que engloba a produção musical mainstream sul-coreana desde meados da década de 1990, passando por influências diversas como Rap, dance music, rock, R&B e muito mais. Por ser tão diverso, se torna quase impossível não gostar de K-pop e mais provável ainda, não conhecer algum grupo ou artista de agrado. Com isso, a forma de ter um primeiro contato com esta cultura até se tornar um fã, tende a ser bastante diversa. Quando perguntei à Sâmela Silva sobre qual foi o primeiro contato, ela lembra que se deu ainda na adolescência, em 2010, quando colegas de escola a apresentaram ao Super Junior. “E realmente era muito legal, eu ouvia as músicas direto. Obviamente, tinha que baixar de formas absurdas”, disse se referindo à dificuldade de acesso a obras culturais antes da ascensão dos streamings. Apesar da paixão em primeiro momento, Sâmela descreve que sua relação com K-pop teve diversos momentos. A partir de 2013, ela passa a conhecer mais a fundo os grupos e discografias. Em 2017, ela começa a escrever uma coluna sobre o tema, que em dois anos se tornou um podcast junto com duas amigas. Já com Caio Coletti, a relação com K-pop se deu de forma bem diferente, apesar de acompanhar e escrever sobre cultura ocidental há mais de dez anos, teve contato mais direto com a música pop coreana em 2021, quando foi encarregado de cobrir, pelo Uol, o lançamento do MTV Unplugged do BTS. “Existia influências nas minhas redes sociais que postavam e falavam sempre para ouvir K-pop. Sâmela era uma delas, talvez a principal. Achei as músicas legais, resolvi ouvir o disco mais recente do BTS e achei bacana. Fui indo atrás de mais coisas, comecei a seguir o podcast, que hoje participo, e daí vinha mais conteúdo para mim na timeline, fui clicando, fui ouvindo. ” Em meio à pandemia de Covid-19 e o isolamento social como estratégia para contenção das infecções, todos tiveram suas rotinas drasticamente modificadas. Nesse período o entretenimento foi uma forma de olhar para si, lidar com a solidão, escapar da realidade e ter esperança por dias melhores. Com os dias de confinamento, Caio, que trabalhava em uma redação jornalística no centro de São Paulo (SP), passou a trabalhar de forma remota e retornou à cidade natal, no interior do estado. “Na pandemia, a gente tinha muito tempo. E os conteúdos lançados são desenhados para você se envolver cada vez mais, não só com a música, mas com a história de cada grupo, com as personalidades de cada membro. Acho que há um elemento de escapismo, mas uma conexão também.” Já Sâmela, que trabalha com educação, o retorno ao trabalho presencial se deu antes de iniciar seu ciclo vacinal, o que gerou uma série de angústias. “Eu estava com muito medo de andar de ônibus, de ver pessoas de novo. E uma das coisas que me ajudou não a esquecer, mas abstrair, foi o K-pop.” Caio conclui que a música pop tem essa capacidade de mostrar o mundo de forma menos perigosa, algo essencial para manter a sanidade em um momento tão árduo. “Para mim, era muito uma questão de eu querer ouvir música pop, pois eu tinha saudades de música pop. E eles continuam fazendo o tempo inteiro, de forma volumosa. O que é sempre bom e satisfatório.” Onda
BadaNoise: Carlos Miranda ft. Gabriel Thomaz (Autoramas)

Fábio Faria Diretor de arte Estudante de jornalismo e ilustrador. Interessado em artes, cultura e assuntos do espectro político.