É menino ou menina?

Festas para revelar sexo de bebês reforçam estereótipos de gênero Por Carolina de Mendonça Da descoberta de uma gestação até o nascimento, tende-se a passar um tempo considerável de alguns meses, contados por semanas. Esse período é marcado por diversas mudanças para a pessoa gestante, sejam físicas, sociais ou psicológicas, como também por eventos comumente conhecidos como “chás”. Na última década, entre grávidas e pessoas próximas, popularizou-se o Chá Revelação. Transformando em um mistério o resultado do exame de ultrassom, cria-se um momento compartilhado de descoberta. Logo, construiu-se uma indústria em volta da temática e a prática acabou por sair do controle. Iniciado como um momento de intimidade Em 2008 a jovem Jenna Karvunidis tinha acabado de se tornar tia e estava em sua terceira gestação. Pela primeira vez, a gravidez havia avançado a ponto de conseguir identificar o genital do feto. Sentindo a família distante e pouco animada com a chegada da nova criança, Jenna decidiu contar (e descobrir) de forma diferente sobre o sexo do bebê. A futura mãe fez dois bolos com diferentes recheios: um azul e um rosa. Ela os entregou à cunhada, junto ao resultado que indicava o genital do bebê. Jenna pediu à cunhada que levasse os bolos para um momento junto à família, para que, de forma lúdica, descobrissem simultaneamente se a mais nova criança da família seria menino ou menina. A situação foi relatada no blog que Jenna mantinha na época e em um fórum online, tomando certa repercussão e chegando a uma jornalista da revista “The Bump”, que decidiu fazer uma entrevista com a blogueira sobre a gravidez. Boa parte da conversa foi dedicada ao “chá revelação”. A revista, popular em consultórios ginecológicos, popularizou a descoberta do sexo de bebês em meio a uma comemoração, o que se tornou uma convenção esperada durante as gestações. Tomando proporções extravagantes Com a popularidade do Chá Revelação, muitos artistas e influenciadores digitais criaram verdadeiros espetáculos registrados e compartilhados durante a descoberta do sexo de seus filhos. Em fevereiro de 2021, ainda durante a pandemia de Covid-19, a empresária Bianca Andrade (conhecida como Boca Rosa) e o ex-jogador de futsal Fred alugaram o Estádio do Maracanã para o anúncio. Os futuros pais, naquela data, optaram pela cor roxa para os elementos, por ser a mistura de rosa e azul, e utilizaram o telão do estádio para anunciar o nome escolhido para o bebê de acordo com o sexo. Também durante a pandemia, a cantora Simone Mendes e o empresário Kaká Diniz realizaram uma live de mais de três horas de duração, transmitida pelo Youtube, para compartilhar o gênero do segundo filho do casal. Também foi comemorada a marca de dois milhões de inscritos que a cantora alcançou em seu canal. O casal utilizou da divisão rosa (menina) e azul (menino). O cantor Léo Santana e a dançarina Lore Improta, em maio de 2021, também anunciaram em uma live sobre o bebê que esperavam. A festa teve presença de pessoas próximas aos artistas e patrocínio da marca de chocolates Lacta. Os influenciadores Viih Tube e Eliezer do Carmo, em outubro de 2022, também fizeram uma live para transmitir a festa para revelação do sexo de seu bebê. O evento teve a temática do reality Big Brother Brasil, do qual ambos participaram em 2021 e 2022, respectivamente, e foi assistido simultaneamente por mais de 400 mil pessoas. O uso das cores rosa e azul para marcar o sexo do bebê também ocorreu nessa ocasião. O que se iniciou como uma comemoração reservada tomou proporções gigantescas. Eventos cada vez maiores e mais observados por terceiros têm sido produzidos. Ultrapassando o limite da natureza Com a busca de celebrações cada vez maiores, alguns acidentes têm ocorrido durante ou em decorrência dos Chás de Revelação. Em junho de 2019, na Austrália, um carro pegou fogo e explodiu, após ter seu escapamento utilizado para dissipar fumaça colorida anunciando o sexo do bebê. Nos Estados Unidos, um dispositivo pirotécnico utilizado nesses eventos causou um incêndio florestal de aproximadamente 30 km, atingindo centenas de pessoas. Entre elas, 13 ficaram feridas e um bombeiro foi morto. O desastre se iniciou em setembro de 2020, momento crítico da pandemia de Covid-19. As águas não são poupadas em tragédias ambientais, criadas na busca do evento mais excêntrico. Em 2022, em Tangará da Serra (MT), uma cachoeira localizada em uma propriedade privada foi colorida para revelar o sexo da criança aguardada pelo casal e convidados. Multado, o homem responsável pelo evento disse em entrevista ao “Fantástico”, da Rede Globo, que se sentia “perseguido por ‘ecochatos’”. Também é frequente, nesses eventos, o uso de animais. Por simbolizar a chegada de um novo membro da família, os animais domésticos são chamados a participar. Contudo, buscando algo singular, algumas famílias optam por bichos menos comuns. Foram os casos de eventos ocorridos em 2018 e 2019, nos Estados Unidos, que utilizaram melancia “recheada” com corante e, respectivamente, um jacaré e um hipopótamo. As imagens levantaram debates sobre os riscos do consumo de corantes alimentícios por animais. Reforçando a norma As diferenças de gênero não se dão de forma natural. Apesar da diferença no sistema reprodutor entre os diversos corpos, a divisão que se dá na posição que esses sujeitos ocupam na sociedade a partir de órgãos e genitais foi socialmente construída e reforçada pela divisão de trabalho, doutrinas religiosas, legislação, formas de vestuário e, até mesmo, cores. Há pouco mais de um século, uma revista americana de moda infantil publicava sobre a força inerente à cor rosa e delicadeza da cor azul, determinando-as como cores ideais para menino e para menina, respectivamente. Naquele momento, crianças usavam majoritariamente vestidos brancos, em diversas partes do mundo, pois era a cor com maior facilidade para se perceber sujeiras e lavar com água fervente. Em países católicos, o azul era bastante usado por meninas, pois remete a imagens do véu da Virgem Maria. A mudança que leva a associar as cores azul à masculinidade e rosa à feminilidade ocorre após a Segunda Guerra Mundial.
Muros de Maceió retratam memórias destruídas pela Braskem

Atuação de empresa petroquímica foi apontada por relatório como responsável por destruição em bairros de Maceió; vítimas relatam falta de responsabilização sobre atuação da multinacional Por Carolina de Mendonça Há cerca de cinco anos, Maceió (AL), cidade litorânea que está aproximadamente a nível do mar, sofre um desastre ambiental por conta da empresa petroquímica Braskem. Em 2018, houve um tremor de terra sentido em alguns bairros por conta da ação da multinacional. Após isso, os bairros atingidos, aproximadamente cinco, começaram a ser evacuados, pois estavam “afundando”. As problemáticas ambientais não são novidade no Brasil e carregam diversas características em comuns. Nos casos mais latentes, são provocadas pela ação predatória do capitalismo — grandes empresas são os principais agentes causadores da destruição — e quase sempre acabam sem a responsabilização dos culpados. Há oito anos, por exemplo, em novembro de 2015, Mariana (MG) sofria um dos maiores crimes ambientais do mundo, com o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, controlada pelas empresas Vale e BHP Billiton. O episódio resultou em 19 mortes, um aborto, deixou 350 famílias sem casas e atingiu mais de um milhão de pessoas em 46 municípios de Minas Gerais e Espírito Santo. Em 2020, o bioma do Pantanal sofria com o maior índice de queimadas já registrados por diferentes órgãos, incluindo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), provocados comprovadamente pelo agronegócio, conforme relatório do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). O mesmo setor agropecuário é apontado como o causador da seca histórica e queimadas que têm afetado a qualidade do ar no bioma da Amazônia — com a culpa sendo jogada lado a lado pelos governos do Pará e Amazonas. Em todos os casos, é sabido quem são os responsáveis, mas a justiça nunca é feita. Em Mariana, por exemplo, mais de 250 reuniões foram feitas com as famílias, conforme o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), mas as negociações entre governos de Minas Gerais e Espírito Santo, além do Ministério Público, foram encerradas ano passado indenização, já que Samarco, Vale e a BHP Billiton se recusaram a pagar valores requeridos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). No caso de Maceió, mais de quatro anos depois de relatório que atribui de forma conclusiva a determinação da mineração da Braskem sobre os danos nos bairros, a responsabilização criminal é uma lacuna que ainda permanece. Investigações da Polícia Federal (PF), iniciadas ainda em 2019 , após requisição do Ministério Público Federal (MPF), ainda não foram finalizadas e seguem sob sigilo. A tragédia ambiental que abalou o bairro Pinheiro, um dos mais tradicionais da capital alagoana, ganhou destaque após tremores de terra e danos estruturais devastadores, sentidos por moradores em março de 2018. A região deparou-se com rachaduras em edifícios, ruas esburacadas, afundamento do solo e crateras. Inicialmente, forte temporal em fevereiro de 2018 reforçou danos estruturais já existentes. Nas semanas seguintes, os residentes sentiram os tremores, com suspeita de afundamento de solo ou até mesmo a antiga infraestrutura de esgotamento sanitário como possíveis causas subjacentes. Os efeitos não se limitaram ao Pinheiro, já que bairros vizinhos, como Mutange e Bebedouro, também começaram a sofrer efeitos similares. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) liderou estudos para descobrir as origens do episódio e, à medida que as pesquisas avançavam, o caso ficou cada vez mais complexo e evidente que não se tratava de um fenômeno geológico natural. Um ano após o primeiro tremor, após análises minuciosas e envolvimento de 52 pesquisadores, o órgão concluiu que a extração mineral de sal-gema pela petroquímica Braskem era a principal culpada pelos danos. O fenômeno foi identificado como “subsidência”, um afundamento da superfície devido a mudanças no suporte subterrâneo. O processo contou com a participação da Defesa Civil Municipal e, posteriormente, da Defesa Civil Nacional em cooperação com o SGB. Juntos, identificaram edifícios com danos graves, exigindo evacuação imediata, começando pelo bairro Pinheiro e se estendendo a outros. A mineração de sal-gema na região da Lagoa Mundaú, em Maceió, remonta à década de 1970. Antes da divulgação do relatório do Serviço Geológico do Brasil, antiga Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), havia 35 poços de extração na área urbana. A instabilidade dessas crateras pressurizadas e seladas resultou nos danos visíveis na superfície. Cientistas envolvidos afirmaram que o tremor de março de 2018 resultou do colapso de uma dessas minas. Além disso, os relatórios destacam a existência de outras minas deformadas e desmoronadas, indicando a possibilidade de mais tremores. Desde o incidente inicial, o MPF em Alagoas assumiu a liderança na investigação, buscando identificar as causas subjacentes e, principalmente, garantir a segurança da população afetada. Uma das diversas consequências do caso foi o aumento de preços do mercado imobiliário em território maceioense, conforme reportagem publicada pela Agência Tatu. Entre de 2019 e 2022, o valor por metro quadrado saltou de R$ 4.992 para R$ 6.494, um aumento superior a 30%, em média. O crescimento colocou Maceió como a segunda capital brasileira, e a primeira no Nordeste, a experienciar o maior aumento imobiliário neste período. Vale destacar que houve deslocamento de mais de 50 mil pessoas dos bairros impactados pela mineração irregular de sal-gema pela Braskem. Em carta aberta, lideranças de movimentos de vítimas da petroquímica – que seguem sem justiça – reivindicam devida responsabilização da empresa, calculando pagamento de, ao menos, R$ 200 mil em indenização para cada morador, trabalhador ou empreendedor dos bairros atingidos diretamente pela atuação da empresa, de acordo com o jornal Mídia Caeté. “Há evidências que comprovam que a deformação nas cavernas da mineração teve papel predominante na origem dos fenômenos que estão causando danos na região estudada”, diz a conclusão do estudo elaborado pelo SGB, que é vinculado ao Ministério de Minas e Energia. A Braskem tem se colocado como “colaboradora” de toda a situação, ao tempo em que coleciona acordos com órgãos públicos que já lhe renderam a compra dos terrenos dos quatro bairros afetados pela mineração que ela mesma proporcionou. Em julho, a petroquímica assinou um acordo com a prefeitura de Maceió
Diário poético sobre vazios abundantes na vida e obra de José Leonilson

Nascido em Fortaleza, José Leonilson Bezerra da Silva produziu milhares de obras que o firmaram com um dos grande nomes da arte contemporânea brasileira Por Carolina de Mendonça Era uma sexta-feira, 1º de março de 1957, na cidade de Fortaleza, capital cearense, onde nasceu José Leonilson Bezerra Dias. Morreu, precocemente, pouco mais de 36 anos depois, na capital paulista. Chamado de Zé ou Leo, pelos íntimos, foi conhecido no meio artístico como Leonilson e produziu milhares de trabalhos que o firmaram como um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira. Na infância, experimentou brevemente uma vida quase nômade- após sair de Fortaleza (CE), morou em Manaus (AM), Porto Velho (RO), até se fixar em São Paulo (SP). Anos depois, já adulto, foi à Europa, com uma mala e uma pasta com seus desenhos, onde passou por Milão (Itália), Munique (Alemanha) e Amsterdã (Países Baixos). Depois, retornou a São Paulo e nunca parou de viajar, seu grande prazer. Em solo europeu teve sua primeira exposição individual e conheceu o trabalho no mercado das artes. Repudiou a forma como o ramo comercial se organiza. Afirmou que não se envolveria nisso, não queria ser rico, mas desejava que sua obra tivesse coerência consigo e que estaria feliz se tivesse condições para conhecer outros lugares. Vida pessoal e trabalhos artísticos se misturaram. Suas telas, esculturas e gravações relatavam seu cotidiano, coleções de objetos, páginas de diário e bordados. Tudo faz parte de uma cartografia autobiográfica. Poética, contínua, íntima e melancólica. José – Leonilson (1991) Como vai você, José Leonilson? Apesar de sua mãe cogitar que se tornaria um engenheiro ou arquiteto, Leonilson sempre teve tendência à pintura. Desenhou desde a adolescência, mas muitos dos primeiros trabalhos foram destruídos pelo próprio artista. Sua família teve certeza de que ele trabalharia apenas como artista visual quando o jovem viaja à Europa e lá tem sua primeira exposição individual, na Galeria Casa do Brasil (Madrid – Espanha), em 1981. O artista já havia exposto de forma coletiva anteriormente, na exposição “Desenho Jovem” no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, em 1979. Apesar da conquista, no ano seguinte abandona o curso de artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Ainda em 1980, participa da exposição Panorama da Arte Atual Brasileira/Desenho e Gravura no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM – SP). Sob o peso dos meus amores – Leonilson (1990) Em 1984, esteve entre os 123 artistas brasileiros (a maioria do eixo Rio-São Paulo) a participar da exposição “Como vai você, Geração 80?” realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Parque Lage), no Rio de Janeiro (RJ). O grupo colocado de forma genérica traz um anseio artístico mais hedonista e presentificado, em jovens que criam pinturas pelo “prazer” em um país que se reabriu politicamente após dura censura. As obras de Leonilson não se limitam à pintura, mas fazem uso de elementos de coleção pessoal e material de bordado. É uma produção artística aprofundada na dimensão subjetiva que explora os desejos de si e a relação desses desejos com o outro. José também gostava das relações de poder dedicar algo ao outro – muitas de suas obras se tornaram presentes para seus amigos e amantes. Afetos costurados sem acabamento O pai do artista era vendedor de tecidos e a mãe bordava. Quando criança, aprendeu o ofício em uma escola de freiras que estudou. Tecidos, pedrarias, botões, novelos e outros objetos cotidianos eram guardados por Leonilson e usados em sua obra. No uso de materiais de bordado, o artista é diverso – varia em panos de diversas texturas, tamanhos e cores que dão peculiaridades e interpretações particulares a cada obra e mantém uma síntese de seu estilo. São constantes as aproximações do fazer de José Leonilson com o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário. Apesar de propósitos distintos com suas obras – Bispo produzia por pretensões religiosas, Leonilson como retratos autobiográficos de sua existência – se aproximam na utilização de objetos corriqueiros e uso constante do bordado, que ambos tiveram contato ainda na infância. José Leonilson nutria grande admiração por Bispo do Rosário. Conheceu as obras no final dos anos 1980 e acompanhou até 1993, ano de seu falecimento, em exposições organizadas por Frederico Morais. Tal como o sergipano, Leonilson tinha uma forte influência do catolicismo em sua vida. Voilà mon coeur – Leonilson (1989) Leonilson via a costura como arte perfeita, mas aceitou que não chegaria a tal excelência, o que aproveitou em sua criação. Sua mãe e irmã brincam em entrevista para a série O Mundo das Artes (SESC TV) que ele bordava mal. De fato, sua criação com linha tem um misto de infantilidade e confusão. Para o artista, o conceito da obra se materializou no suporte, a ideia por trás da obra era o mais importante. Nesse caso, seus ideais eram ligados aos sentimentos. Bordar é um ato solitário, íntimo e, majoritariamente, feminino. Uma atividade doméstica feita com destreza e cuidado. Para alguns teóricos, a produção é colocada como uma arte menor, ou algo que não chegaria ao status de arte, apenas um artesanato, pois supõe não existir na criação um aspecto intelectual, mas apenas manual. Um equívoco preconceituoso que busca diminuir arte produzida por povos tradicionais e por mulheres de forma cotidiana. Ninguém – Leonilson (1988) Leonilson era um homem branco. Não era visto em primeiro momento como alguém que pertencia ao universo do bordado, era intruso nesse mundo. Sua transgressão no uso dessa técnica o coloca em uma posição marginal quanto a arte. Não desejava ultrapassar as normas em sua vida pessoal. Mas transpôs. José Leonilson era um homem gay. Em diário comentou não desejar ser uma bicha, uma ideia estereotipada de homem afeminado, até se atraia por algumas mulheres, porém desejava os homens. Queria ser visto como um homem forte, um peixe com o oceano inteiro para nadar. E em paralelo utilizava de técnicas tidas como femininas e delicadas para falar de sentimentos. Cotidiano confessional de mapas internos Em janeiro de 1990, ele
Votos sem cabrestos

Diferente de discursos xenofóbicos ou mesmo de simplificações rasas, maior adesão por candidatos petistas à presidência no Nordeste não ocorre por votos de cabresto, mas por fatores diversos de uma dinâmica complexa Por Carolina de MendonçaArte por Iara Cardoso A cada quatro anos, durante o mês de outubro, já é de praxe. Seja nas redes sociais, nos espaços públicos na região centro-sul ou em colunas e comentários nos jornais, a xenofobia contra nordestinos costuma ser intensificada. Historicamente, a região Nordeste é conhecida por votar majoritariamente nos candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT) para a presidência da República. Um clássico xingamento, disfarçado de análise política usada pelos críticos, é que o Nordeste seria “Brasil profundo” dominado por coronéis. Não restam dúvidas de que, nos nove estados da região, há famílias que por décadas comandam a política local. É o caso da conhecida nacionalmente família Sarney no Maranhão, cujo patriarca José Sarney (PMDB) chegou à presidência do Senado Federal e do país, ou da família Magalhães, recém derrotada para o governo da Bahia por Jerônimo Rodrigues (PT), o primeiro indígena a ser eleito governador no Brasil, em um pleito marcado por fraude racial do adversário ACM Neto (União), que chegou a se declarar negro. No entanto, pequenos grupos dominarem uma enorme região não é uma problemática nordestina, mas do capitalismo, em especial pela colonização iniciada em capitanias hereditárias, onde hoje estão principalmente os estados do Nordeste. No estado de São Paulo, o mais populoso do país, há décadas a família Covas tem participação direta na política — em 2020, mesmo com o candidato Bruno Covas (PSDB) apresentando estado avançado de câncer, que o levaria a óbito em maio de 2021, ele foi eleito prefeito da capital paulista, derrotando Guilherme Boulos (PSOL) nas urnas. Ou a família Tebet no Mato Grosso do Sul, como já mostrado em reportagem da Revista Badaró, que domina a política local e teve com Simone Tebet (MDB), senadora de destaque durante a CPI da Covid e candidata à presidência da República, maior visibilidade nacional. Ainda que os votos à esquerda na região Nordeste sejam fortes para a presidência, não são homogêneos nas eleições locais. No último pleito, Sergipe teve, em todos os municípios, vitória de Lula desde o primeiro turno, porém elegeu majoritariamente deputados federais e estaduais de direita, como o bolsonarista Laercio Oliveira (Progressistas), eleito ao Senado Federal, e o também bolsonarista Fábio Mitidieri (PSD) ao governo estadual, que venceu o senador petista Rogério Carvalho. Uma outra justificativa usada para menosprezar as escolhas eleitorais da população nordestina é a pobreza da região, traduzida pelo argumento de que esta “votaria pelo estômago”. A terrível analogia coloca o sujeito que passa fome como incapaz de ter um pensamento crítico e sugere que o impacto direto nas necessidades básicas para sobrevivência não seria um motivo razoável para suas decisões políticas. Os comentários ofensivos ou especulações sobre o voto da região são, acima de tudo, ignorantes, não demonstram uma compreensão da complexidade da política dos nove estados e não pensam o país de forma ampla. O veículo independente Marco Zero Conteúdo, situado em Pernambuco, buscou, junto a professores de universidades nordestinas, quais seriam os motivos que levam essa população a votar. As motivações são amplas e é possível traçar análises diversas. Uma região não é capaz, e nem deveria ser, de carregar o país nas costas, mas os votos têm sido importantes para neutralizar o avanço da direita no Brasil. Desde 2002, os candidatos petistas à presidência da República venceram no Nordeste, inclusive na dolorosa eleição de 2018, que levou ao poder o fascista Jair Bolsonaro, na época pelo PSL. Naquele ano, nos nove estados, o professor Fernando Haddad (PT) venceu no segundo turno, mesmo não sendo uma figura tão conhecida em território nordestino. Apesar de o voto dar o cargo a Bolsonaro, não se pode dizer que as eleições ocorreram de forma democrática. A incitação ao ódio, o disparo de mensagens com informações falsas, o pânico moral, a prisão de seu principal opositor e até a alegação de fraude das urnas eletrônicas – mesmo após a vitória – estiveram presentes na disputa de 2018. Naquele ano, o cadastramento de biometria também fez com que milhões de títulos de eleitor fossem cancelados no Brasil, a maior parte no Nordeste. O medo de que a esquerda moderada retomasse a presidência fez com que as instituições trabalhassem a favor do fascismo, limitando os direitos civis da população por uma questão burocrática. Não se deve entender o episódio como uma problemática pontual ou atribuir uma culpa à população pela desinformação, já que muitos municípios nordestinos ainda vivem desertos de notícias. O ocorrido em 2018 foi um golpe à democracia. Em 2019, o governo Bolsonaro teve um início nada bom para a região, que naquele ano sofreu com um derramamento de óleo no litoral que afetou os ecossistemas, em especial a restinga e o manguezal, além de comunidades ribeirinhas, pesca e turismo locais. Além do impacto pessoal para os moradores, que têm a praia e os rios que desaguam no mar como parte do cotidiano e identidade, os habitantes passaram por um enorme afastamento físico desses espaços, apesar de manterem a proximidade geográfica. Durante a pandemia de Covid-19, foi criado o Consórcio Nordeste, visando amenizar a negligência vinda do presidente que debochava das milhares de mortes no país. Alguns por táticas políticas, outros por posicionamento ideológico, uns de forma mais evidente, outros de forma bastante discreta, o certo é que todos os governantes da região se posicionaram contrários ao bolsonarismo. Mesmo aqueles que, dentro de seus estados, permaneceram com práticas similares ao então presidente. A população nordestina, em sua maioria, repudia Bolsonaro. O que fez em 2022 figuras como ACM Neto (BA) e Fábio Mitidieri (SE) esconderem suas afinidades e aproximações com o presidente, ignorando acenos e tentando criar associação à figura de Lula. Arte: Iara Cardoso Não apenas há um ódio a Bolsonaro, como um carinho por Lula – mas não um fanatismo –, uma identificação com esse retirante de Pernambuco, ex-metalúrgico que teve sua vida política
Uma conversa sobre K-pop

Quebra de recordes musicais é só um dos diferentes impactos sociais e culturais provocados pelo K-pop Por Carolina de Mendonça Nos últimos 10 anos, foi praticamente impossível não se deparar com a “onda coreana”. Também conhecida pelo termo, não tão lisonjeiro, invasão coreana, surge do neologismo Hallyu, junção das palavras “Han” (Coreia ou coreano) e “Ryu” (corrente ou tendência), e foi criada por jornalistas de Pequim (China) em 1997, buscando explicar a ascensão da importação cultural sul-coreana. Em meio à Crise dos Tigres Asiáticos, a Coreia do Sul, através de iniciativas estatais e privadas, investiu em sua indústria do entretenimento, buscando levar para o exterior commodities que exerceriam influência para que os consumidores tivessem uma determinada visão sobre o país. No primeiro momento, a importação se concentrou em outros territórios do leste asiático como China, Japão e Hong Kong. Quinze anos após a criação do termo “Hallyu”, já era possível afirmar que a cultura pop coreana conquistou o mundo. No final de 2012, o artista PSY atingiu a marca do vídeo mais visto no YouTube, a qual permaneceu por pouco mais de quatro anos, com o videoclipe de Gangnam Style, que faz referência a um distrito de Seul, capital da Coreia do Sul. A música se tornou mania mundial – no Brasil, era comum nos ambientes e na televisão se ver reproduzida a coreografia entre gritos de “êêê sexy lady”. A música chegou a ser sensação no carnaval soteropolitano em 2013. Mais recentemente, o audiovisual sul-coreano também se mostrou inescapável. O filme “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho, venceu a Palma de Ouro, principal prêmio no Festival de Cannes e foi o grande premiado do Oscar de 2020, recebendo quatro estatuetas, entre elas a de “Melhor filme”. Entre séries, Round 6 se tornou a obra original mais vista na Netflix. Como consequência, as subjetividades têm sido constituídas e moldadas com valores advindos dessas indústrias. Aumentou o interesse em aprender coreano, no turismo na península e a busca pelo padrão de beleza sul-coreano, que assim como o estadunidense e europeu, é bastante nocivo. A onda coreana tem atingido de forma mais intensa meninas e mulheres jovens, e possui repercussões diretas na política. Grupos de fãs (conhecidos como fandoms), que se organizam para apoiar seus ídolos, têm sistematizado ações e campanhas de caráter progressista em vários países. Para conhecer mais sobre música pop produzida nas últimas décadas na Coreia do Sul, a Revista Badaró convidou o jornalista cultural e repórter no Omelete Caio Coletti, e a funcionária pública e estudante de Publicidade e Propaganda Sâmela Silva. Ambos fazem parte da equipe do podcast K-Pop Top. Descoberta: Você já ouviu K-pop? O K-pop, em si, não é um gênero, mas um termo que engloba a produção musical mainstream sul-coreana desde meados da década de 1990, passando por influências diversas como Rap, dance music, rock, R&B e muito mais. Por ser tão diverso, se torna quase impossível não gostar de K-pop e mais provável ainda, não conhecer algum grupo ou artista de agrado. Com isso, a forma de ter um primeiro contato com esta cultura até se tornar um fã, tende a ser bastante diversa. Quando perguntei à Sâmela Silva sobre qual foi o primeiro contato, ela lembra que se deu ainda na adolescência, em 2010, quando colegas de escola a apresentaram ao Super Junior. “E realmente era muito legal, eu ouvia as músicas direto. Obviamente, tinha que baixar de formas absurdas”, disse se referindo à dificuldade de acesso a obras culturais antes da ascensão dos streamings. Apesar da paixão em primeiro momento, Sâmela descreve que sua relação com K-pop teve diversos momentos. A partir de 2013, ela passa a conhecer mais a fundo os grupos e discografias. Em 2017, ela começa a escrever uma coluna sobre o tema, que em dois anos se tornou um podcast junto com duas amigas. Já com Caio Coletti, a relação com K-pop se deu de forma bem diferente, apesar de acompanhar e escrever sobre cultura ocidental há mais de dez anos, teve contato mais direto com a música pop coreana em 2021, quando foi encarregado de cobrir, pelo Uol, o lançamento do MTV Unplugged do BTS. “Existia influências nas minhas redes sociais que postavam e falavam sempre para ouvir K-pop. Sâmela era uma delas, talvez a principal. Achei as músicas legais, resolvi ouvir o disco mais recente do BTS e achei bacana. Fui indo atrás de mais coisas, comecei a seguir o podcast, que hoje participo, e daí vinha mais conteúdo para mim na timeline, fui clicando, fui ouvindo. ” Em meio à pandemia de Covid-19 e o isolamento social como estratégia para contenção das infecções, todos tiveram suas rotinas drasticamente modificadas. Nesse período o entretenimento foi uma forma de olhar para si, lidar com a solidão, escapar da realidade e ter esperança por dias melhores. Com os dias de confinamento, Caio, que trabalhava em uma redação jornalística no centro de São Paulo (SP), passou a trabalhar de forma remota e retornou à cidade natal, no interior do estado. “Na pandemia, a gente tinha muito tempo. E os conteúdos lançados são desenhados para você se envolver cada vez mais, não só com a música, mas com a história de cada grupo, com as personalidades de cada membro. Acho que há um elemento de escapismo, mas uma conexão também.” Já Sâmela, que trabalha com educação, o retorno ao trabalho presencial se deu antes de iniciar seu ciclo vacinal, o que gerou uma série de angústias. “Eu estava com muito medo de andar de ônibus, de ver pessoas de novo. E uma das coisas que me ajudou não a esquecer, mas abstrair, foi o K-pop.” Caio conclui que a música pop tem essa capacidade de mostrar o mundo de forma menos perigosa, algo essencial para manter a sanidade em um momento tão árduo. “Para mim, era muito uma questão de eu querer ouvir música pop, pois eu tinha saudades de música pop. E eles continuam fazendo o tempo inteiro, de forma volumosa. O que é sempre bom e satisfatório.” Onda