Sofrimento e glória de um artista maldito

Um dos principais artistas visuais da história da humanidade, Vincent Van Gogh foi desumanizado tanto em vida, quanto em morte Por Carolina de MendonçaArte por Adrian Albuquerque De que vale um poeta? – Um pobre louco  Que leva os dias a sonhar? – Insano Amante de utopias e virtudes E n’um tempo sem Deus ainda crente (Cadáver de um Poeta – Álvares de Azevedo) O trecho da poesia de Álvares de Azevedo (1831 – 1852), considerado um dos poetas malditos do romantismo brasileiro, descreve uma visão do senso comum do artista: insano e utópico. Ter uma vida breve, infeliz, comportamentos excêntricos, dificuldades financeiras e com dom divino, é tido comum entre os trabalhadores da arte. Histórias de tragédias e reforço de uma “genialidade inata” levam muitos a se afastar da arte, que se mantém como área restrita a uma elite. Aqueles que permanecem, encontram contextos majoritariamente hostis e deixam seu sofrimento fetichizado à venda. O caso emblemático e mais popular desta situação é do pintor neerlandês Vincent Van Gogh (1853 – 1890). Nascido em Zundert, pequena cidade no sul dos Países Baixos, o segundo filho tem mesmo nome do avô e irmão mais velho (natimorto), em uma família com tradição de atividades voltadas para a vendas de arte e trabalhos religiosos. Vincent tenta um dos ramos, mas não é bom comerciante. Seu irmão caçula, Theo Van Gogh (1857 – 1891), se destacou na área, sendo, inclusive, importante para a popularização de artistas impressionistas, como Claude Monet (1840 – 1926). O pintor também arrisca atuar como pastor calvinista, como seu pai, mas não é bem aceito no ofício – seus superiores consideravam exagerado seu envolvimento com os grupos com os quais trabalhava. Considerava absurda a miséria vivida pelos trabalhadores com quem convivia. Em seus trabalhos artísticos, passa a usar de sua criação para denunciar o horror causado pelo capitalismo. Resolve então se dedicar exclusivamente à pintura como atividade laboral, mesmo sem ter retorno comercial e artístico,  também como forma de denúncia da realidade que testemunhava. Os Comedores de Batata (1885) – Acervo: Museu Van Gogh Morando a maior parte de sua vida adulta na França, ao começar a pintar resolve assinar apenas com seu primeiro nome, pois se aborrecia com o erro na pronúncia de seu sobrenome – algo frequente, sobretudo após sua morte.  O pintor confessa, ao irmão caçula e mecenas, angústias e sonhos fantásticos, de uma lógica social solidária. Ao conhecer a costureira Sien (1850 – 1904), uma jovem mãe, grávida do segundo filho e que foi abandonada pelo companheiro, Vincent oferece a ela a possibilidade de trabalhar como sua modelo. Ambos estabelecem um companheirismo para além do envolvimento romântico, que, como a maior parte das relações do artista, foi fugaz. Outro importante vínculo de Van Gogh foi o pintor francês Paul Gauguin (1848 – 1903), com quem morou junto. O neerlandês desejava construir uma grande comunidade de artistas plásticos – todos morariam juntos e dividiriam ideias e materiais. Além disso, ele planejava a criação de um sindicato para fortalecer a classe, a partir da parceria com Gauguin. Uma tendência socialista forte, muitas vezes apagada em suas representações. Assim como a relação com a costureira Sien, o vínculo entre Vincent e Paul Gauguin foi efêmero e febril. As dificuldades cotidianas, o temperamento complicado de ambos e as diferentes formas como se relacionavam com a arte, causavam brigas gigantescas,  chegando por vezes à agressão física – como comentado por ambos em cartas.  Em um momento, Paul chegou a avisar ao companheiro que se afastaria, por considerar o ambiente hostil e limitante. A Cadeira de Gauguin (1888) – Acervo: Museu Van Gogh Vincent queixava-se ao irmão, Theo, de seu humor instável e intenso – ora não conseguia fazer nada, e levantar da cama era uma tarefa árdua, ora tinha energia para pintar por dias seguidos sem pausa. Percebia influência direta do uso de álcool nessas oscilações, mas não sentia ter controle para dosar o uso da substância. Separado do amigo, que decidiu partir, o neerlandês ficou drasticamente abalado, culminando no trágico episódio em que se automutila, retirando um pedaço da orelha e o entregando em um bordel. As pessoas ao redor não sabem, ao certo, o que houve. A história se espalhou como fofoca, recebendo uma série de outras interpretações e até mentiras. Mesmo após a recuperação, o pintor afirmou ao irmão, em carta, não lembrar daquela noite – era esperado, pois suas emoções eram intensas e havia perdido muito sangue. Não há certeza do que aconteceu, por conta dos poucos registros que permanecem sobre a situação.  Uma das testemunhas foi Paul Gauguin, que após a morte de seu amigo, escreveu de forma dura e dolorosa o mais detalhado relato sobre o episódio. O francês contou que, na noite anterior, Van Gogh atirou um copo com bebida contra o amigo, mas não lembrou do ocorrido ao acordar. À noite, Gauguin decidiu passear e percebeu passos o acompanhando. Ao virar-se, Paul viu o amigo com uma navalha aberta na mão e parecia ameaçar um golpe. A troca de olhares entre ambos foi suficiente para que Vincent retornasse correndo para casa. Na manhã seguinte, os amigos se encontraram pela última vez. Vincent havia se mutilado, seu corpo era inanimado e pela casa estavam espalhadas muitas toalhas com sangue. A Casa Amarela (1888) – Acervo: Museu Van Gogh O artista foi internado após a automutilação. Estava frágil física e psicologicamente, precisava de cuidados profissionais e de uma rede de apoio forte que o ajudasse nesse período. Contudo, seus vizinhos endereçaram um abaixo-assinado, com aproximadamente 80 assinaturas, ao então prefeito de Arles, cidade no sul da França em que morou, descrevendo que o pintor não poderia viver em liberdade e assim tornou o episódio um caso de polícia. Em carta endereçada a Theo Van Gogh, em 19 de março de 1889, comentou sobre o ocorrido:  “Assim você pode imaginar que duro golpe em pleno peito foi saber que havia aqui tantas pessoas covardes o bastante para se unirem em tão grande número contra um

Sujeitos precarizados e ética tênue: profissionais de saúde e redes sociais

Mão com uma luva usada em cirurgia segura um celular, com a tela chuviscada.

Divulgações de serviços de saúde em plataformas online tem mostrado falhas éticas de profissionais da área, fruto da precarização do trabalho dos mesmos Por Carolina de MendonçaArte por Guilherme Correia Com o avanço do neoliberalismo, a ideologia do self-made man (em tradução livre: homem que se constrói sozinho) criou um trabalhador ideal ao novo momento do capital: o autônomo, que acumula funções para além de suas aptidões. As profissões de saúde historicamente têm um viés elitista e individual, e os profissionais que trabalham na modalidade liberal tendem a ter maiores remunerações – como por exemplo, os que atuam em contexto de clínicas privadas. No entanto, as atividades são realizadas sem um vínculo empregatício e com negociação direta com aquele que contrata o serviço prestado, o paciente, e é preciso se tornar conhecido enquanto profissional. Desta forma, as redes sociais têm sido uma forma de promover seus trabalhos. Muitos que prestam esse tipo de serviço utilizam perfis nas mídias sociais como ação de marketing. Em sites e aplicativos, para conseguir ser visto, é preciso muito esforço para produção constante de conteúdo que seja de fácil consumo e que gere bastante engajamento.  A necessidade em ser simples e chamativo pode fazer com que o profissional crie conteúdo não tão adequado ao debate científico, que contrarie a ética da profissão que exerce, o que leva a questões problemáticas a curto, médio e longo prazo, nos discursos sobre saúde mental, em tempos de algoritmo – reforçando a lógica neoliberal que adoece sujeitos. Se você sente… Ao promover produtos ou serviços, não é incomum o formato de criar um desejo, ou necessidade, para incentivar o consumo. Na área de saúde, esse tipo de promoção acaba sendo mais embaçada – afinal, para consumir remédios ou buscar tratamentos, é preciso, na maioria dos casos, estar em estado de adoecimento. Há uma anedota interessante na medicina (ou talvez seja fala de uma série que acompanhei há uns anos) que falava que um mesmo adoecimento terá suposições diagnósticas muito distintas de acordo com cada especialista.  Exemplificando: uma mulher de 35 anos vai a diferentes médicos queixando dor de cabeça. O primeiro é um ortopedista, que suspeita de um trauma – uma lesão externa que gera ferimento. Investigando a história de vida da paciente, ele encontra situações que podem ter gerado este trauma. Já ao buscar um psiquiatra, a suspeita será um outro tipo de trauma – um evento que leve a afetos intensos e tem repercussão em outros aspectos da vida. Ambos aguardam resultado de exames solicitados para confirmar as hipóteses e iniciar o tratamento adequado. Ambos estavam equivocados e a paciente em questão não estava doente, mas gestante. Dor de cabeça é um sintoma comum, presente em muitos casos, além dos quais descrevi. E suas causas podem confundir e intrigar especialistas mais diversos. Mesmo associando a outros sintomas, ainda é preciso de diagnósticos físicos e investigação da vida do paciente – a anamnese.  Em contrapartida, a complexidade de um diagnóstico em saúde se tornou popular em publicações, com listas de sintomas, em imagens ou vídeo, que podem gerar um adoecimento, além da necessidade da busca de profissional especializado e, logo abaixo, a indicação de que o criador do conteúdo pode oferecer este trabalho. Além disso,  esta relação pode estimular autodiagnósticos que levam a conclusões ainda mais precipitadas, arriscando especialmente o uso de medicamentos sem indicação médica, comum em três a cada quatro moradores do Brasil. Em saúde mental, é ainda mais complexo. Sintomas físicos, como dor, coceira ou febre, significam que algo acontece, necessariamente, e requer atenção. Mudanças psíquicas – como emoções consideradas negativas, variações de humor ou pensamento acelerado, não indicam que algo está fora do esperado ou adoecido, mas podem significar diversas coisas, inclusive uma forma salutar de existência. Vale ressaltar que, dentro da lógica capitalista, é muito difícil estar no mundo de modo saudável. A relação com trabalho, cada vez mais precária, cria sofrimento e adoecimentos, para além do psíquico. A intensa cobrança por produtividade leva os sujeitos a reprimir afetos, tais como luto, saudades ou paixão, para que esses não atrapalhem a rotina. A classe trabalhadora é composta majoritariamente por grupos marginalizados, alvos de constantes violências, que levam muitos destes a se moldarem como forma de evitar serem reprimidos – uma forma de violência, que também fragmenta a subjetividade. O sofrimento de uma pessoa não cabe em um manual de diagnósticos. Tampouco em uma publicação de rede social com menos de um minuto. Informar sobre adoecimentos e suas formas de cuidado não deve ter viés puramente mercadológico, já que vender uma suposta saúde, também pode gerar adoecimento. Hoje atendi um paciente que…  Não é incomum ler ou ouvir um relato de profissional de saúde sobre algum paciente. Seja alguma forma de cuidado equivocada e sem assistência que levou a um quadro de adoecimento grave, alguma situação jocosa ou triste que impactou o trabalhador que acompanhou o caso, ou até mesmo um comparativo de antes e depois do tratamento. Há diversas problemáticas nessas abordagens. A primeira, e óbvia, é a exposição do atendido, que pode gerar problemas ao sujeito e torna público informações muito sensíveis. Mesmo que soem engraçadas ou pareçam ensinar algo, tendem a descontextualizar e explanar sobre intimidades que foram confiadas em sigilo profissional. Além disso, com certa frequência, tais aprendizados têm embasamentos morais e não científicos. O uso de imagens comparativas ou respostas sobre o trabalho é comumente incentivado em cursos sobre marketing digital, mas não deve ser utilizado por profissionais de saúde. Além de expor um sujeito – o que não é permitido pela maioria dos códigos mesmo com suposto consentimento, há uma problema na previsão de resultados na divulgação, visto que as consequências do tratamento só podem ser prognosticadas após avaliação do sujeito atendido. No artigo 9 do Código de Ética Profissional do Psicólogo, é possível encontrar como dever do mesmo, o respeito ao sigilo profissional. Artigos similares são encontrados nos demais códigos de ética de outras categorias de trabalhadores em saúde, a fim de assegurar direitos básicos às

MTST: ocupar, resistir e criar o poder popular

Coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Ramon Andrade falou sobre militância, direito à moradia e conjuntura política Entrevista por Carolina de Mendonça Arte por Norberto Liberator Art. 6o São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” (NR) Constituição Federal Moradia é um direito humano universal, garantido pela Constituição Brasileira desde 2000, por meio de uma emenda constitucional. Contudo, por conta da lógica capitalista, há uma omissão do Estado na consolidação desta garantia, que assegura lucros para a burguesia através da especulação imobiliária. Tal direito é alienado a uma parcela vulnerável e expressiva da população do Brasil. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) revelam que em março de 2020, ao menos 200 mil pessoas se encontravam em situação de rua no país. Além de ter um teto, é preciso ter dignidade para morar. Casas confortáveis e adequadas à necessidade de seus moradores, com energia elétrica, acesso a redes de internet e saneamento básico, são algumas das condições fundamentais para uma vida minimamente saudável e adequada. Externo à moradia, é necessário ter direito à cidade, bairros com acesso ao transporte público, escolas, creches, Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e proximidade a hospitais, órgãos culturais, espaços com natureza, dentre outras garantias. A pandemia de Covid-19 denunciou as dificuldades do acesso à habitação de qualidade e direito aos espaços urbanos como elementares para a mortalidade – afinal, para muitos, não se era possível ficar em casa ou lavar as mãos adequadamente, além de retrocessos como aumento do abandono escolar ou a diminuição da presença feminina no mercado de trabalho. Tudo isso num contexto em que a fome retorna como um grande problema no país. Frente ao caos escancarado do projeto neoliberal, movimentos sociais se organizam para garantir, à população, dignidade e fortalecimento da luta pelo poder popular. É o caso do Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), que atua em territórios urbanos em diversos estados brasileiros. A Revista Badaró conversou com Ramon Andrade, mestre em Direitos Humanos e coordenador nacional do movimento, com atuações territoriais no estado de Sergipe, que falou a respeito da atuação do grupo, além de dificuldades e possibilidades de avanço em meio a atual conjuntura. Badaró: Como surge o MTST e como ele se organiza atualmente? Ramon Andrade: O MTST surge do entendimento de que os trabalhadores urbanos precisam da luta organizada para garantir uma cidade que seja digna para todos. Partimos do pressuposto de que a cidade precisa assegurar para as pessoas que moram nela: teto, comida, trabalho, educação, saúde. Nós surgimos contrários à concepção de que esse direito está consolidado a partir de um espaço que produz muito concreto e, não necessariamente, muita dignidade para seus habitantes. Entendemos que só a luta organizada é capaz de mudar isso, a partir da compreensão de direito à cidade, viver no espaço onde nós sejamos capazes de manifestar nossas individualidades com respeito, com dignidade e que só será alcançado a partir da luta coletiva. O MTST hoje se organiza principalmente em ocupações, mas no ano de 2021 passamos a desenvolver o trabalho territorial das cozinhas solidárias. Estamos presentes em 14 estados e em processo de consolidação nos demais territórios desse Brasilzão. Como se dão as ocupações e como o MTST, a partir dessas, cobra ao Estado estruturação de políticas públicas de saúde, educação, transporte, entre outras, na região? Quando há um processo de ocupação, sempre há um processo de luta organizado anteriormente. A gente desenvolve trabalhos nos territórios com as pessoas mostrando que é possível viver de uma outra forma e que a gente precisa estar juntos para isso. Consolidamos esse trabalho e a partir disso fazemos as ocupações para lutar por moradia e por outros direitos que são básicos. Quando há uma ocupação no bairro, há necessariamente, a partir da formação do movimento, o entendimento de que é preciso ter ali uma UBS  que funcione, de que ali é possível ter uma escola para nossas crianças. A ocupação surge com famílias organizadas para lutar por moradia, mas disseminando sempre que o entendimento de moradia é importante, mas que só ela não vai trazer a dignidade. A gente não quer, por exemplo, conquistar casa e continuar passando fome ou conquistar a casa e continuar não tendo saúde, educação. Nós lutamos por tudo isso. A presença de uma ocupação organizada, como são as do MTST, faz com que naturalmente as lutas para que os demais direitos nos bairros também sejam conquistados. Como se dão estratégias de saúde nas ocupações do movimento? Dentro do movimento, nós temos setores, que são militantes que ajudam na organização a partir da sua especialidade técnica, ou seja, a partir daquilo com que eles trabalham. Nós temos o setor de comunicação, de arquitetura e em alguns estados e estados nós conseguimos consolidar o setor de saúde, nos quais temos alguns trabalhadores da área que acompanham os acampados, os militantes do MTST, proporcionando a eles acesso a esse direito que é básico. Foi muito fundamental durante a pandemia para reforçar todos os cuidados que eram necessários tomar para se proteger do vírus. Essa pandemia mostrou que ter um teto, ainda que precário, poderia ser o diferencial pra gente se infectar ou não, ou seja, pra gente ter a possibilidade de morrer ou continuar vivo. Foi fundamental a presença desses militantes que também são profissionais de saúde no contato com o povo, para falar da importância do uso da máscara, de higienizar as mãos. Todo esse processo foi fundamental para que a gente chegasse vivo até aqui após essa pandemia. Há um forte movimento de tentativa de criminalização de movimentos sociais no país. Como o MTST tem sofrido com isso?  Criminalizar os movimentos sociais é criminalizar a luta do povo contra os abusos de poder. O que a gente faz, é lutar por nossos direitos. E em uma democracia, isso não deveria ser nem de longe motivo para represália. A

Cajueira colhe frutos do jornalismo independente nos estados nordestinos

Colagem mistura fotos de jornais velhos cortados, com rabiscos, e o logotipo da newsletter Cajueira

Veículo jornalístico baseado em mais de um estado da região Nordeste do Brasil conversou com a Badaró sobre sua produção e dificuldades Por Carolina de Mendonça Arte por Adrian Albuquerque No início da década de 1960, o diretor de cinema Nelson Pereira dos Santos se deslocou do Rio de Janeiro, estado que se organizava o movimento do Cinema Novo, para o sertão nordestino, onde gravaria a adaptação do livro modernista Vidas Secas de Graciliano Ramos. Era preciso um cenário com cactos pontualmente espalhados na paisagem, solo bastante seco e rachado, sol escaldante centralizado em um céu sem nuvens e casas de barro sem condições básicas. No entanto, a equipe do longa encontrou uma paisagem bem diferente do “deserto” apresentado na obra-prima do escritor alagoano. Por conta de uma chuva que caiu pouco antes da chegada dos profissionais, a caatinga (do Tupi: mata branca) estava  verde, tornando impossível a gravação do filme naquele ambiente. Para compensar o deslocamento, foi filmado Mandacaru Vermelho (1961), com estrutura similar aos faroestes estadunidenses, e considerado um nordestem. A equipe, anos depois, retornou ao sertão e encontrou o local ideal para o longa-metragem Vidas Secas, lançado em 1963. A anedota, não tão jocosa, do cineasta paulista, demonstra uma questão ainda problemática dos comunicadores e artistas, ao retratar o Nordeste – não compreendê-lo enquanto um espaço plural e complexo. Segundo levantamento do Atlas da Notícia, os estados da região são os que mais sofrem com desertos de notícias – cidades inteiras sem veículos jornalísticos. O investimento em comunicação no país ainda se concentra muito na região Sudeste, especialmente nas capitais do Rio de Janeiro e São Paulo, que permanecem a reproduzir narrativas generalistas e antiquadas que reforçam a xenofobia contra o Nordeste. Buscando combater os estereótipos e mostrar a abundância de narrativas presentes no território, em 25 de novembro de 2020, a Cajueira publica sua primeira edição, um manifesto. Mais que uma curadoria de conteúdos produzidos de forma independente nos nove estados, que brota quinzenalmente no e-mail dos inscritos, a newsletter deste veículo independente de jornalismo tem como proposta reinventar o Nordeste. “Falam de nós como se a região fosse uma massa homogênea carregada de estigmas: a fome, a seca, a pobreza. Não existe um Nordeste, mas vários. Temos grandes cidades, paisagens urbanas, centros de tecnologia e universidades de referência”, explicam as representantes da Cajueira à Revista Badaró. Frutos em meio ao deserto Escolhido como referência para o nome da newsletter, o cajueiro é uma árvore originária da região Nordeste, além de ser um símbolo de fartura e integração. A planta tem facilidade em criar raízes, ao encontrar solo propício e se multiplica sem fragmentar. O caule tortuoso entrelaça com outros galhos formando abraços. Sua copa se expande formando enorme sombra que viram um deleite e ajudam a lidar com o clima, majoritariamente quente, próximo a Linha do Equador. Entre junho e dezembro, nasce em meio aos ramos dessa vegetação, belas e perfumadas flores que podem ser usadas para produção de chás. O fruto do cajueiro é a castanha de caju. Dura e oleaginosa, é rica em substâncias benéficas à saúde humana. Após preparada, pode ser consumida junto aos mais diversos alimentos ou até mesmo pura. Seu pseudofruto, o caju, é carnoso e com sabor marcante é matéria-prima de várias receitas, como sucos, doces, licores, bolos, moqueca, entre outras delícias. A diversidade da planta se espalha pelos nove estados. Em Sergipe, o caju está no nome da capital – Aracaju, do Tupi, “cajueiro das araras”. Na cidade de Parnamirim, no Rio Grande do Norte, se encontra “Cajueiro de Pirangi”, o maior do mundo, ponto turístico na região. No Piauí, uma bebida feita a partir da fruta, Cajuína, é patrimônio cultural do estado e símbolo da capital, Teresina. A iguaria também dá título a uma música do baiano Caetano Veloso, onde conta sobre um encontro que teve com Heli da Rocha Nunes, o pai do poeta Torquato Neto. Com diversas raízes, diferentes formatos, perfumes, os cajueiros se espalham e se abraçam ao longo da região. As finalidades a partir de sua colheita também se mostram diversas em cada lugar que a árvore brota, mas sempre se entrelaçando. Da mesma forma como o jornalismo independente produzido nos estados nordestinos. Abraçando os mais diversos caules, experimentando e divulgando a diversidade da safra, a Cajueira foi fundada pelas jornalistas Joana Suarez, nascida e criada em Pernambuco, ainda que tenha  morado durante anos em Minas Gerais Mariana Ceci (Rio Grande do Norte), Mariama Correia (Pernambuco) e Nayara Felizardo (Ceará). Por ser um grupo totalmente feminino, as criadoras percebem um impacto na organização interna, também na forma de se apresentar às leitoras e aos leitores. “É muito simbólico que a primeira curadoria de conteúdos da mídia independente no Nordeste seja feita por mulheres nordestinas”, conta a a equipe. Jornalismo feito no território para diversificar narrativas É comum nos veículos de imprensa tradicionais ser reforçada a ideia de a população dos estados nordestinos fazerem parte de um “Brasil Profundo”, termo que demonstra a problemática da homogeneização das narrativas sobre o país gigantesco em território continental e diverso culturalmente. Em pautas políticas, a xenofobia contra a região costuma se mostrar evidente, ainda associada ao Coronelismo – fenômeno político histórico do Brasil, que manteve latifundiários no poder, por meio de coerção amparada por títulos militares, e que se tornou uma expressão usada para definir longas permanências de determinadas figuras políticas, ou suas famílias. É repetido o discurso preconceituoso  de que votos são comprados, com por meio de programas como o extinto  Bolsa Família, e até mesmo com água potável. “Pouco se critica os votos de outras regiões, que perpetuam o poder de grupos familiares e de partidos de direita, como é o caso de São Paulo, onde o PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] se mantém há mais de 20 anos no poder. Não há voto comprado no resto do país?” questionam as jornalistas da Cajueira. Ainda que, infelizmente, vitorioso nas últimas eleições, o candidato de discurso fascista foi derrotado nos nove estados da região.

Busca pelo acesso universal à cultura: experimentos artísticos de Victor Seroque

Por Carolina de Mendonça NOTA: Victor Seroque é uma pessoa não-binária – não correspondendo sua identificação aos gêneros feminino ou masculino. Por isso, ao longo do texto, são utilizados pronomes e adjetivos no feminino e masculino para referir à entrevistada. Fazia muito calor na capital paulista naquele janeiro de 2017. Com gigantescos prédios, por vezes espelhados, que substituem suas áreas verdes por concreto, longos quilômetros de asfalto, maior frota de veículos automotivos do Brasil e altos índices de poluição, a cidade concentra ilhas de calor. Nesse mesmo mês, o então prefeito da cidade, João Dória (PSDB), que teve a seu favor o sentimento “anti-esquerda”, inflamado pelo golpe contra a presidente Dilma Rousseff (PT) meses antes e pela derrota do rival petista pelo executivo municipal, traz como proposta a criação de um “Muro Verde” na avenida 23 de maio – uma das mais movimentadas da cidade; substituindo os grafites na região, para melhorar a poluição e diminuir o impacto desse fenômeno. João Dória vestiu um uniforme laranja dos funcionários da limpeza municipal de São Paulo, com direito à máscara de proteção, junto ao então vice-prefeito (Bruno Covas, também do PSDB). Orgulhosos, os tucanos  pintaram  de cinza as artes ao longo da avenida. A ação era parte do programa “Cidade Linda”, o qual não escondia repúdio às expressões artísticas, majoritariamente periféricas, que rompiam o padrão cinza e quadrado da metrópole. A proposta ambiental de Dória era falha, e falsa, desde a sua criação. A cidade continua quente e poluída, e o projeto se demonstrou caro aos cofres públicos. Obteve êxito apenas em criar uma guerra contra os artistas de rua que foram invalidados, marginalizados e, quase, criminalizados. Além de enlutar os que passam pela avenida, por conta da descaracterização do ambiente. Dentre as viúvas dos muros coloridos ao longo da Avenida 23 de Maio, está Victor Seroque, morador da zona leste de São Paulo. Artista visual, curador e arte-educador, o também apreciador do cachorro-quente com purê de batata conversou com a Revista Badaró sobre acesso à arte, seus processos de criação e, evidentemente, sobre a cidade de São Paulo – suas, gigantescas, contradições e excêntrica beleza. Cultura logo ali, mas não para todos São Paulo concentra grande porcentagem dos estabelecimentos voltados à cultura do país. A arte também se faz presente nas ruas da cidade, com instrumentos, danças e performances. Entre festivais de cinema gratuitos, museus com entradas por menos de R$ 5, peças de teatros, shows ao ar livre, bibliotecas com acervo imenso, há sempre o que fazer na cidade da garoa. Ao menos, em teoria. Os bairros centrais monopolizam tais atividades, e num raio de poucos quilômetros, funcionam dezenas e até centenas de espaços culturais, simultaneamente. Outras regiões, como a de Victor, não têm essa possibilidade. “Moro em um dos únicos bairros de São Paulo, se não me engano são dois ou três, que não tem nenhum órgão cultural. Tem absolutamente nada assim! Uma biblioteca, uma casa de cultura, uma fábrica de cultura. Se alguém não fizer isso antes de mim, eu quero muito fazer um centro cultural e trazer mais pessoas pra cá”, diz a artista. E ir ao centro não é uma tarefa das mais fáceis para o paulistano. Pela sua extensão territorial e a falta de planejamento, aliada ao processo de gentrificação, a mobilidade urbana pode durar horas – em média, três por dia, geralmente percorridas por quem mora nas periferias da cidade. Além do tempo, o deslocamento também pode custar muito dinheiro, seja com gasolina e estacionamento, passagem de transporte público ou tarifa do aplicativo de transporte privado. Esse tipo de passeio costuma ser longo, então é importante se preparar para se alimentar, já no centro de São Paulo, os restaurantes e lanchonetes não costumam ter valor popular.  Victor Seroque só entrou no Museu de Arte de São Paulo (MASP) aos 18 anos, após iniciar uma graduação em Artes Visuais em um bairro central. Sempre que tinha tempo livre, e quando a entrada era gratuita (comumente em dias úteis, como terça-feira), ia aos espaços culturais na região da Avenida Paulista. Entretanto, a disponibilidade e a gratuidade não são suficientes para estar nesses lugares. Em certo ponto da entrevista, Victor se posiciona como entrevistador e pergunta: “já teve a experiência de andar por São Paulo de chinelo?”. Após uma resposta negativa, aconselha que em uma eventual visita à cidade, não se faça isso. De forma enfática repetia que “é insalubre”. O primeiro ponto, óbvio, é a (falta de) segurança em expor a pele em calçadas potencialmente contaminadas. O segundo, se dá pela segregação racial, de gênero e de classe. “Se você entra no museu de chinelo é aquele rolê de você ser analisado de cima a baixo o tempo todo. Falo com eufemismo. Se você for uma pessoa racializada e tiver ali dentro você vai ter esses olhares. Se você for uma pessoa que se veste de forma diferente, você vai ser olhado dessa forma.” relata a artista. Victor, no entanto, que usa barba (marcador tido como masculino socialmente) e tem pele clara, conta que pessoalmente nunca passou por situações que recebeu olhares hostis nesses ambientes. “Por ser uma pessoa lida como homem, por ser uma pessoa branca é muito fácil. Ninguém vai presumir que você é pobre e tá vindo da periferia”. Por ter começado a frequentar ambientes considerados voltados a uma elite intelectual, quando já cursava o ensino superior, a sensação de não se adequar a esses locais não durou muito. Victor compreendia a importância desse espaço e seus propósitos em estar nele. O sentimento de não pertencer muitas vezes é provocado, também, pela curadoria das exposições artísticas. Victor, que também trabalha nesse campo, relata que chega a fazer piadas com amigos sobre a complexidade de textos que acompanham as exposições. “Às vezes, aquela exposição é o primeiro contato que a pessoa tem. Aquele texto curatorial, já coloca ela numa posição de desconforto”. Apesar de não ser uma área de interesse em primeiro momento para a artista, ao longo da graduação, percebeu que é