Ai que saudade d’ocê: as festas juninas no Nordeste

Festejos juninos são uma bela expressão da identidade de uma região lembrada, muitas vezes, por suas mazelas. Perdê-la temporariamente, é perder um pouco de quem somos Por Carolina de Mendonça Os festejos do mês de junho ocorrem para comemorar o dia de três santos católicos: Santo Antônio, no dia 13; São João, no 24; e São Pedro, no dia 29. Esse grande festival tem origem na Idade Média em comemorações pagãs, sem diminuir a sua popularidade, a Igreja Católica aderiu às festas. Durante a colonização do Brasil, a festa é trazida pelos portugueses e se mistura com as tradições dos diversos povos indígenas e africanos, tendo características específicas em cada lugar onde se manifesta. Em relação à região Nordeste, do litoral ao sertão, milhares de pessoas se reuniam, muitas vezes debaixo de fortes chuvas ao som de forró, com comidas a base de milho e outras delícias típicas, em volta de fogueiras, soltando fogos e dançando quadrilha. E todo tempo enquanto houver para dançar ainda é pouco. Em junho, a região brasileira estereotipada pelos seus problemas, ainda presentes, de fome e de sede, se mostra pulsante, contagiante e bela. Através de incentivos privados e governamentais, através da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), as festas do mês de junho na região se tornaram parte do calendário turístico nacional. A comemoração de origem sagrada é majoritariamente profana e, nas últimas décadas, tem sua tradição visitada, misturada, e por vezes roubada, pela cultura de massa. Com o atual cenário pandêmico as comemorações foram bruscamente modificadas. Oh, chuva! Eu peço que caia devagar, só molhe esse povo de alegria, para nunca mais chorar As festas que acontecem em junho no Brasil foram trazidas pelos colonizadores portugueses. No hemisfério norte, tratava-se das celebrações do solstício de verão para populações pagãs, como celtas e germânicos, que comemoravam as colheitas. A igreja católica se apropriou dessas comemorações e passou a dedicá-las a São João Batista, santo primo de Jesus Cristo, que, de acordo com a bíblia, uma fogueira anunciou seu nascimento. Por volta do século XIII, Santo Antônio e São Pedro passaram a ser homenageados no mesmo mês. No hemisfério sul, solstício de inverno se inicia em junho, no agreste e no sertão do Nordeste os mandacarus irão florescer e logo a caatinga estará verde por conta das chuvas. A fartura do meio rural ressoa até o litoral e toda região comemora a chegada do inverno e homenageia os santos católicos. Com milhos assados e cozidos, canjica, pamonha, munguzá, amendoim cozido e muito licor dos mais diversos sabores. Com passos bem-marcados de quadrilha. Fogueiras acessas nas portas das casas na véspera da festa do dia de cada santo. Diversas superstições que vão de casamento até a morte. A festa católica exala uma alegria profana. Assim como no carnaval, as festas juninas são um momento de extravasar e fantasiar. Nas quadrilhas os integrantes podem ser rainhas do milho, padres, noivas, Maria Bonita e Lampião e outros personagens do imaginário popular. Com roupas coloridíssimas e feitas com muito esmero as quadrilhas enfeitam os salões e dão um especial brilho as festas de São João. De acordo com Artigo 42 da Lei de Crimes Ambientais, balões são proibidos, não sendo possível mais acompanhar a subida e sumiço desses no céu por risco de incêndios, para além de corações. Porém, a beleza e alegria dos fogos de São João permanecem com traques de massa, traques de salão, espadas de fogo, vulcão, barco de fogo e outros artefatos que com muita pólvora e tradição encantam os olhos e arrancam sorrisos. Nas trincheiras da alegria só explodia amor. Quando chega mês de junho na rua de São João o forró vai começar Em meados de maio, por vezes ainda no final de abril, as cidades onde aconteciam festas juninas começam a se arrumar. Bandeirolas coloridas são penduradas nas ruas, estabelecimentos privados, casas e quaisquer outro espaço que anuncia a chegada do período junino. Quadrilhas profissionais ou de crianças e adolescentes ensaiam continuamente seus passos. Entre xote, xaxado e baião e fazem caracóis, quebram caranguejos, pula de cobras e esconde da chuva. Em todos os espaços se ouve forró, sejam seus clássicos ou os mais modernos, que faz pessoas das mais diversas classes sociais e idades cantarolam e imploram: Meu baião! Coração! Arranca essa dor do meu peito pra eu não chorar. Ao chegar junho se intensifica um clima de festa. Chegam turistas, comércios contratam trios pé-de-serra, se reencontram amigos e parentes, se planejam viagens… É um deleite! Pessoas do mundo inteiro invadem as cidades nordestinas. São montados arraiás com aspecto que lembram as pequenas cidades do sertão e palcos imensos para grandes atrações. E, comumente, debaixo de muita chuva milhares de pessoas dançam coladinhas dois pra lá e dois pra cá, podendo por algumas noites esquecer os problemas do cotidiano. O São João no Nordeste, apesar de ser visto apenas como uma comemoração local nas outras regiões do país, é gigantesco. Cidades como Caruaru (Pernambuco), Campina Grande (Paraíba) e Mossoró (Rio Grande do Norte) receberam por volta dos milhões de turistas na última edição, realizada em 2019. Pelo potencial lucrativo da festa, a indústria cultural buscou se apoderar dessas comemorações. E com isso, ritmos tradicionais e bandas locais disputam, de forma desigual, espaço com artistas da cultura de massa. O forró eletrônico com seus shows gigantescos, com muito músicos, iluminação e apelo midiático, predomina sobre o forró pé de serra tocado apenas por um trio formado por um sanfoneiro, um zabumbeiro e um triangulista. As festas se tornam um híbrido entre a cultura de massa e a tradição. Não apenas novos artistas de forró da região tornam estrelas dos shows, ritmos como calipso (da região Norte) e o sertanejo (da região Centro-Oeste) fazem parte dessa caracterização capitalista do São João. O Sertanejo Universitário dominou esse espaço nas últimas edições, com justificativa de apelo ao público. As festas populares se afastam de seu aspecto tradicional e se tornam produtos de consumo adaptados ao mercado. Essa capitalização dos festejos juninos tem como consequência
Normal e moral: olhares e opressões sobre a loucura na cultura ocidental

Pensar uma sociedade que respeite a loucura é pensar em uma lógica de vida radicalmente diferente Por Carolina de Mendonça Capa por Fábio Faria A loucura, hoje associada à Medicina, tem sua história iniciada muito antes da psiquiatria, sendo inerente ao ser humano. A tragédia de uma alma (no grego clássico psiquê) que exacerba simultaneamente paixão e sofrimento (pathos também no grego clássico) é registrada desde fosseis pré-históricos com crânios perfurados em possíveis rituais religiosos. Estudos em fósseis de crânios humanos do período Neolítico, ou Idade da Pedra Polida, apontam da possibilidade de psicocirurgias realizadas em contextos religiosos, forma que esses povos lidavam com a loucura. Apesar de intrínseca à humanidade, as psicopatologias se modificam de acordo com o contexto social e histórico. Até os dias atuais, não se é possível definir uma causa única para as diversas formas de loucura, sendo, ao menos, a combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, se modificando no tempo e espaço e se manifesta muitas vezes de acordo com classe social, gênero e cor. As manifestações e interpretações de sofrimento psíquico são diversas, o mesmo tempo que as paixões exacerbadas são inerentes a condição humana. As associações da psicopatologia aos saberes médicos e às lógicas de exclusão social não são inerentes a essa condição, mas uma construção histórica e social. Antiguidade clássica: protociência dos fluídos Na antiguidade greco-romana, os que eram considerados cidadãos poderiam receber tratamentos baseados nos fundamentos de Hipócrates, pai da medicina ocidental, que concebia as diferentes formas de sofrimento psíquico como desequilíbrios dos fluidos corporais. Sendo, portanto, uma questão fisiológica que poderia ser resolvida através de mudanças comportamentais como dietas e práticas de atividades físicas. Os tratamentos baseados na teoria de Hipócrates eram exclusivos do pequeno grupo daqueles que eram considerados cidadãos, ou seja, homens proprietários de terra. A maior parte da população tinha interpretação de seu sofrimento baseado em preceitos religiosos. A coexistência da leitura protocientífica e religiosa das patologias não é tão distante do que ocorre atualmente no Brasil. A popularização de doutrinas neopentecostais em relação à concepção de adoecimento psíquico como “encosto”, comum nas classes populares que têm dificuldade de acesso aos cuidados em saúde. A Idade Média e seus demônios A compreensão religiosa da loucura também se fez presente na Idade Média. Nesse período, o sujeito em sofrimento psíquico representava a manifestação do mal e era a prova da existência do demônio. Com o clero tendo forte influência política e social, os cuidados de saúde também eram realizados por essa classe. No período medieval, por conta das problemáticas sociais como guerras, pestes e rebeliões houve um aumento de casos de insanidade. Com o clero no controle da saúde e a interpretação vigente de “possessão demoníaca”, a prática de exorcismo se torna comum para salvar as almas dos causavam desordem à conjuntura, entre eles os loucos. Contudo, é importante ressaltar que em menor proporção havia espaços de cuidados médicos voltados aos loucos naquela época. Eram leitos, muito similares a jaulas, e que buscavam a cura de algumas enfermidades, como acessos de melancolia e ataques de violência. A loucura ao ar livre durante o Renascimento A visão de loucura se modifica no renascimento cultural e científico. No período, algumas regiões da Europa retomam os valores das civilizações greco-romana e passam a se adaptar aos novos avanços das regiões onde se desenvolviam os burgos na Europa e saberes advindos do contato junto às populações do norte da África e Ásia. Devido à complexidade desse período em diversos pontos da Europa, as formas de lidar com a insanidade são múltiplas. A compreensão do sofrimento psíquico a partir da demonologia cristã – o estudo sistemático dos demônios – permanecia com bastante força. Nessa época, foram criados os primeiros espaços no Ocidente destinados aos cuidados da saúde com a loucura. Porém, se tratava de práticas pontuais, o aprisionamento literal da loucura pelos saberes médicos se data da Revolução Francesa, no século XVIII. Houve também a experimentação da loucura em seu estado livre, circulando pelos ambientes comuns, sem dominação do pathos, este visto como uma manifestação natural do ser humano. Situação similar ao proposto atualmente pelo grupo Ouvidores de Vozes, que traz a vivência, comumente associada a diagnósticos psicopatológicos, como uma experiência mais livre, sem os estigmas impostos à essa condição. O desvio moral como inaceitável durante a Idade ModernaApós o renascimento, a burguesia ascende socialmente e a moral desta classe passa a ser dominante, apesar de não possuir o poder político. Com a nova ideologia vigente, a loucura passa a ser interpretada de forma diferente. A partir do século XVII, a loucura que era experimentada em liberdade passa a ser excluída socialmente. Nessa época, todos desviantes da moral burguesa eram mandados para espaços voltados à internação. Nesses espaços, eram excluídos da vida social libertinos, loucos, mendigos, inválidos, pessoas com doenças venéreas. Os que não estão aptos ao trabalho, não tornando parte da produção, circulação e acúmulo de riqueza, não podem viver livremente em sociedade. Em um híbrido com a moral cristão, a ociosidade se torna o pior dos pecados no sistema capitalista, sendo punida durante a vida terrena. Com a ideia filosófica descarteana do “Penso, logo existo” os loucos eram tidos como seres sem humanidade por sua desrazão. Afogados em suas paixões os insanos eram destratados, torturados e viviam acorrentados. Afinal, não contribuíam com o crescimento do sistema econômico “racional”, que ascende destruindo o meio-ambiente, escravizando povos, causando genocídios e causando aculturação dos sujeitos remanescentes. Durante a revolução francesa a loucura saí das correntes para os diagnósticosAs terríveis correntes que prendiam os loucos na idade moderna são quebradas durante a revolução francesa por Philippe Pinel – diretor do Asilo Bicêtre em Paris. O médico assim cria o alienismo (especialidade médica que lidaria com o pathos, hoje conhecida como psiquiatria). Pinel e seus discípulos, como o também alienista Esquirol, são os primeiros a observar, descrever e classificar aquilo que era estranho ao padrão moral vigente. É o primeiro olhar científico da loucura. Em tese, livre de influências socioculturais era determinado o que
Despolitização a um compartilhamento: a política do território na internet
As redes sociais estruturam-se sob o controle de interesses privados, porém podem ser utilizadas para difusão de ideias, valores e concepções de mundo progressistas Por Carolina de Mendonça Nas últimas décadas, uma nova plataforma de comunicação modificou a humanidade nos mais diversos sentidos. A internet trouxe diferentes formas de se expressar, relacionar, trabalhar, estar no mundo; assim como novas percepções de temporalidade e de espacialidade. As transformações também se deram no contexto político, a internet se tornou um significativo espaço de disputa de narrativas e mobilizações políticas a partir da década de 2010. Na década passada, percebe-se um crescimento os usuários da internet no uso das redes sociais. Estas, criadas com o intuito de aproximar virtualmente sujeitos que tenham contextos e/ou interesses em comum, permitindo com que os usuários criem os conteúdos que desejam compartilhar. Logo, essas redes se tornaram espaços para se discutir política em vieses diferentes da mídia hegemônica. Das insatisfações nas redes sociais para as ruas No final do ano de 2010, o jovem tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo contra si pelo desespero em que estava no seu contexto de trabalho, um descaso estrutural que afetava parte da população de sua região. Seu ato foi o estopim para uma série de revoltas resultantes da Primavera Árabe – conjunto de manifestações populares de nível continental que ocorreram em países do Oriente Médio e norte da África. As revoltas foram possíveis graças às redes sociais, espaços onde foi possível debater as reivindicações políticas e articular as manifestações públicas. No entanto, as alas progressistas dos movimentos acabaram sufocadas e regimes fundamentalistas apoiados pelos Estados Unidos acabaram por se apropriar do poder, piorando a situação. No Brasil, a “primavera” chegou em meados de 2013, após aproximadamente duas décadas de uma aparente calmaria política desde os “caras pintadas” – movimento pelo impeachment de Fernando Collor de Melo. Nas vésperas da Copa das Confederações e iniciada contra o aumento nas tarifas de transporte público, as ruas se tornaram palco para os mais diversos sujeitos com suas mais diversas pautas – contra o aumento nas passagens de transportes públicos, pela educação, por mais investimentos em saúde, contra corrupção, contra os gastos da Copa do Mundo de Futebol, pelos direitos da população LGBT+, pela legalização da maconha e até pela intervenção militar. As emblemáticas frases que tomavam conta dos protestos eram das mais diversas em interesses e origens. “Não vai ter copa” se referia aos exorbitantes investimentos públicos nos eventos esportivos; “Vem pra rua” inicialmente presente em uma propaganda de carros se tornou convite para mais manifestantes somarem forças ao movimento; “O gigante acordou” se referindo a força do povo quando toma as ruas; “Não é só pelos 20 centavos”, com referência ao aumento no valor da passagem do transporte público na grande São Paulo que deu estopim as manifestações e a indignação da população ser maior que os problemas com transportes públicos; “Isso a Globo não mostra” referindo as escolhas narrativas do Grupo Globo e dos conglomerados midiáticos, a qual população começou a perceber que condizia com os interesses de um pequeno grupo. As mobilizações ganharam força ao se organizarem, também, pela internet. Os atos após hora e local definidos se tornavam eventos no Facebook, onde os usuários dessa rede poderiam marcar, compartilhar com os amigos e ser notificados no momento da manifestação. O microblog Twitter tinha narrações ao vivo dos protestos em até 140 caracteres. A internet se consolidava enquanto território a ser conquistado na política brasileira. O movimento era orgânico, funcionou como uma catarse das insatisfações políticas daquele momento que o Brasil ainda engatinhava para consolidação de sua democracia que acabava de renascer após uma ditadura militar. A internet se deu como território chave para disputa política e assim se inicia uma guerra de narrativas para conquista do espaço virtual. Definição de territórios a ser conquistados Não há dúvidas que a direita no Brasil saiu à frente da conquista dessas trincheiras virtuais. Alguns sujeitos mais radicais à direita iniciaram a utilização do Youtube para compartilhar vídeos com as “verdades que te escondem” – todos mentem: seja escola, mídia, família, políticos, apenas aquele sujeito diria a verdade. Assim, conquistaram uma massa principalmente composta por jovens insatisfeitos com a situação do país e que passaram a se sentir pertencentes a um seleto grupo que finalmente sabe da “verdade”. Uma estratégia de despolitizar a população, espalhar informações falsas, fragilizar a realidade e inflar uma política com princípios de extermínio do diferente. Esses produtores de conteúdo obtiveram grande espaço, influenciados pelos algoritmos, devido ao fato de que as redes sociais se ancoram em plataformas digitais controladas por interesses advindos de grandes corporações. As esquerdas brasileiras, apesar de não terem o auxílio da plataforma das redes sociais a seu favor, também eclodiram nos meios digitais, em novos formatos de comunicação alternativos à aos meios de comunicação tradicionais. Novos veículos de mídia, comunicadores políticos, movimentos sociais passaram a emergir no espaço da internet para lutar. As pautas progressistas ganham força nas redes sociais, apesar da dificuldade sobredita com o golpe da direita na política institucional, em 2016, e a posterior ascensão do fascismo nas eleições de 2018. Os acirramentos políticos trouxeram uma emergência de posicionamento dos indivíduos. Porém, é preciso tomar cuidado, pois diferente da direita, que busca manter o status quo, as pautas progressistas não podem ser comunicadas de forma imediata e pouco aprofundada. A extrema fluidez de tópicos nas redes sociais é contrária a um viés educativo que a comunicação progressista, em especial da esquerda radical, necessita. É preciso de atenção para datas de luta, situações infortunas e até mesmo contextos políticos não se tornem frases de efeito que contribuem a despolitização. Frases impactantes não devem resumir temas complexos O dia 18 de maio é importante para as lutas anti-opressão no Brasil, pois em 1987, na cidade de Bauru (São Paulo), grupos favoráveis às políticas antimanicomiais tiveram um encontro no qual surgiu a proposta de reforma do sistema de saúde mental do país. Desde o ano de 1988, a data simboliza um momento de luta e de
O corpo como poética e política: a presença de Ana Mendieta
Breves apontamentos sobre trajetória da artista que questionou fronteiras étnicas, categorizações de gênero e usou o corpo como ferramenta política [Alerta de gatilho]: o texto contém discussões sobre violência sexual e estupro Por Carolina Mendonça Colaboraram Guilherme Correia e Leopoldo Neto A subjetividade entre a objetividade, um relato da autora Encontrei a artista pela primeira vez em meio a outras artistas latinas na exposição Mulheres Radicais na Pinacoteca de São Paulo, pouco após o fascismo se ascender ao poder no Brasil por meio do voto popular. A intensidade de sua presença não me permitiu lembrar seu nome, mas manteve viva na minha mente as imagens de suas obras. Um ano depois encontrei de forma aleatória a artista visceral que tanto busquei em meio a uma série de vídeos sobre arte e feminismo e a Ana das minhas memórias estava inconfundível. Pude aprender seu nome e assim pesquisar mais sobre ela. Mendieta está onde se permite discutir poesia, política e corporeidade. Ana Mendieta está aqui! Da subjetividade à construção de um perfil: a vida e os percalços de Ana Mendieta Cubana oriunda da capital Havana, Ana Mendieta nasceu no dia 18 de novembro de 1948. Na época, a ilha caribenha vivia um período de instabilidade e indícios de uma grande efervescência social – que culminou na Revolução Cubana, em 1959. Em um primeiro momento, Ignácio Mendieta, pai de Ana, apoia a derrubada do ditador Fulgencio Batista; mas, ao perceber o caráter socialista pós-revolução, se torna um inimigo do regime castrista. Ignácio se opõe ao governo pelo caráter “anticatólico” e se envolve em atividades contrárias à Revolução. O pânico causado por setores da sociedade contrários ao regime socialista liderado por Fidel Castro fez a família Mendieta enviar suas filhas Raquel, na época com 15 anos, e Ana, 11 anos, para os Estados Unidos na Operação Peter Pan – ação que se caracterizava pelo êxodo de milhares de crianças e adolescentes cubanos para os Estados Unidos, com o apoio de grupos católicos anticomunistas. Dentro dos EUA, Ana sofre violências sob a tutela da igreja católica. Ao se fixar no estado norte-americano de Iowa, em meio à intensa resistência na luta pelos direitos civis numa cidade onde havia poucos cubanos, a jovem (na infância de família abastada) passa a se perceber diferente. Seu tom de pele é considerado muito escuro e sua nacionalidade é malvista, se iniciando os questionamentos da artista enquanto seu corpo e sua origem. Sua presença revelava uma ambiguidade insustentável e inumana entre o erótico e o violento. A fronteira, o gênero, a criação: as obras de Mendieta Durante a década de 1970, a jovem cubana estuda Artes Plásticas na Universidade de Iowa e lá tem contato próximo com a efervescência artística e política desse momento. Havia uma emersão de um novo fazer artístico que utilizava do corpo e de seus limites num fazer efêmero: a performance. Na política, mulheres, negros e pessoas LGBTs – grupos historicamente oprimidos – passam a ter grandes levantes que questionam sua abjeção. A obra de Ana é permeada e manifesta esse contexto no qual se insere. Figura 1: Sem Título (Facial Hair Transpalnte) – Ana Mendieta, 1972 Em Facial Hair Transplante, um homem, amigo de Mendieta, corta barba enquanto a artista coloca os pelos em seu rosto montando em si um bigode similar ao da obra “L.H.O.O.Q.” (Marcel Duchamp, 1919) que questiona o gênero inserindo um bigode na clássica obra Monalisa (Leonardo DaVinci, 1503). Com uma roupa que não marca as curvas tidas como femininas, cabelo completamente preso, mas com grandes brincos de argola, ao colocar um bigode Ana torna sua aparência andrógina. A artista questiona a distinção tênue dos gêneros binários a partir da performance arbitrária que classifica o sujeito de acordo com seu sexo biológico. Em suas representações, a artista se utiliza da nudez como ato político. O corpo de Mendieta é ambíguo, por ser mulher despi-lo algo pecaminoso, mas por ser considerada bonita era fonte de gozo, enquanto uma mulher latina seu corpo era desejado, mas não humanizado. A desumanização desse corpo se faz presente em obras que Ana Mendieta discute a violência sexual, como na série de fotografias que a artista se deita de bruços na grama e parcialmente coberta por grama e folhas. O corpo nu no ambiente bucólico demonstra uma sensualidade em um contexto de vulnerabilidade. Figura 2: Sem Título (Grass On Woman) – Ana Mendieta, 1972 Um ano após essa série de fotografias há um homicídio brutal nos dormitórios da Universidade de Iowa e a artista produz performances sobre a temática, uma delas em seu apartamento se torna sua obra mais conhecida. Alerta de gatilho: como enfatizado no subtítulo da matéria, alguns trechos deste texto contêm descrições sobre obras de arte que criticam a violência simbólica e física que as mulheres sofrem e permeiam na discussão sobre estupro. Um mês após uma jovem ser estuprada e assassinada dentro do campus universitário, Ana convida amigos para sua casa e cria uma performance sem título, conhecida como Rape Scene – cena de estupro. A porta se encontrava entreaberta e ao entrar, os convidados se depararam com a casa bastante bagunçada, como se alguém tivesse brigado no ambiente. Havia sangue animal pela casa e a artista estava amarrada, seminua e imóvel na mesma posição que a universitária foi encontrada morta. Mendieta passa aproximadamente uma hora nessa posição gerando debate entre seus amigos. Após isso junta-se ao grupo para discutir o tema. A artista, mesmo anos depois da performance, a coloca como algo pessoal, uma resposta visceral a uma situação que mexeu profundamente com ela. Uma mulher discutir e mostrar o quão brutal e próximo é a violência sexual, mesmo que por motivos pessoais, se torna um ato político. Figura 3: Sem título (Série Silhuetas) – Ana Mendieta, 1973 a 1980 Conduzindo sua arte de forma biográfica, Ana Mendieta cria a série Silhuetas (1973 – 1980), na qual desenvolve olhares sobre o feminino, a fronteira, a vida, a morte e a natureza. A artista cria o termo earth-body sculpture (escultura
Do nascimento da psiquiatria ao “revogaço” na saúde mental
Iniciada na gestão de Mandetta, política de Bolsonaro para a saúde mental se baseia em ideias ultrapassadas que remontam ao início da psiquiatria Por Carolina de Mendonça Durante a Revolução Francesa, o médico Philippe Pinel tem um ato radical: quebra, literalmente, as correntes dos loucos. O ato devolveu humanidade à classe dos alienados. Foram criados tratamentos, pensados de modo cartesiano, para as dores das almas desses sujeitos e, para muitos, o ato marca o início da especialização que um século mais tarde foi nomeada “psiquiatria”. Após desacorrentados, os insanos são enclausurados em diagnósticos. O saber médico é colocado acima do indivíduo em sofrimento, causando uma alienação de suas próprias dores e um poder que diversas vezes se mostrou nefasto, como o caso da Teoria da Degeneração proposta por Bénédict-Augustin Morel, base cientifica do projeto político nazista. Na saúde mental, foi utilizada no Brasil, por décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, eugenia similar a usada pelo regime nazista alemão. Em todo território brasileiro, a justificativa de psicopatologias era utilizada para segregar indivíduos que causavam algum tipo de incômodo ao status quo. O maior dos hospícios brasileiros no século XX, o Hospital Colônia de Barbacena, chegou a ser comparado a um campo de concentração nazista pelo italiano Franco Basaglia, expoente da antipsiquiatria. Sendo inaceitável existir espaços no país comparáveis ao holocausto, os movimentos pela luta antimanicomial se intensificaram e, no final da ditadura civil-militar, somaram forças ao movimento de Reforma Sanitária, que levou à criação do Sistema Único de Saúde, e ao clamor social por democracia. Mais de uma década mais tarde, a reforma psiquiátrica brasileira se fez presente na Constituição a partir de 06 de abril de 2001 pela Lei 10.216, que garante direitos e proteção às pessoas acometidas com transtornos mentais. A partir da Lei, criaram-se portarias que instruíram a implementação do modelo substitutivo na saúde mental. A reforma conquistada com tanta luta se tornava uma realidade palpável sendo construída junto a legisladores, profissionais de saúde, usuários de serviços e egressos de hospícios. O modelo hospitalocêntrico, para além da estrutura arquitetônica, centrou-se nas relações hierárquicas que giravam em torno da autoridade médica, e na relação dos profissionais com pacientes e familiares, estes últimos mantidos ignorantes de seus sofrimentos. Em contraponto ao modelo hospitalar, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) foi criada com objetivo de substituir o modelo fracassado dos hospitais. No SUS, ela está presente nos diversos espaços, não mais sendo associada apenas ao hospital ou clínica individual. O modelo substitutivo considera o sujeito integralmente, sendo assim sua relação com saúde e doença é vista de forma ampla. Não há hierarquia dentro das equipes, tendo em vista que cada profissional presente detém um saber técnico que será útil para a compreensão da totalidade da pessoa atendida. O usuário do sistema é sujeito de si e agente ativo em seu tratamento. Uma utopia parecia ser traçada. Contudo, a lógica manicomial permaneceu no Brasil. Mesmo após a criação do SUS, há a possibilidade de os profissionais e grupos terem uma relação comercial com os pacientes. No contexto da saúde mercadológica, presente nas redes particulares e planos de saúde, os hospitais psiquiátricos continuaram a funcionar. E movimentar bastante capital. Dominar a saúde mental significa um acúmulo de poder econômico e político. Dessa forma, o fim da política pública que descentraliza esse poder é um interesse perverso das classes dominantes. Os governos de esquerda, que fizeram alianças com setores conservadores e empresariais, se mostraram ativos no desmonte do modelo substitutivo. Em 2011, a então presidente Dilma Rousseff assinou a Portaria Nº 3.088/2011 que insere as Comunidades Terapêuticas na RAPS. As Comunidades Terapêuticas são iniciativas privadas, com lógica manicomial e são, em maioria, de orientação cristã — desrespeitando a laicidade da política de saúde brasileira. Estas recebem, desde a Portaria, investimentos públicos que seriam direcionados ao SUS. Espaços de privação de liberdade, também revelam outras formas de tortura como atos LGBTfóbicos, imposição religiosa, sequestros, privação de sono, uso indiscriminado de medicamentos entre outros absurdos. O governo Bolsonaro, desde seu início, aproximou-se da lógica manicomial. O ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, assinou no início de seu mandato um documento que modifica as políticas de saúde mental no Brasil, permitindo a compra de aparelhos de eletroconvulsoterapia pelo SUS, retirando o protagonismo da Política de Redução de Danos com justificativas morais e abrindo possibilidade de internação de crianças e adolescentes, medida que fere o Estatuto da Criança e do Adolescente. Por divergências políticas na condução da pandemia da Covid-19, Mandetta saiu do Ministério da Saúde, mas a necropolítica implementada pelo neofascismo de Jair Bolsonaro na saúde mental continuou em curso. O ministro Eduardo Pazuello, que não tem formação na área de saúde, propôs a revogação de cerca de cem portarias sobre saúde mental. O Revogaço foi colocado em pauta próximo ao final do ano, nas vésperas ou início de recesso de diversos setores da sociedade. Além disso, o ano de 2020, especialmente, trouxe no seu final uma sensação coletiva de cansaço e luto, por conta da pandemia do Covid-19 e a condução genocida desta pela gestão federal. Apesar da exaustão e dor de forma rápida e orgânica, milhares de pessoas se uniram formando a Frente Ampliada em Defesa da Saúde Mental, da Reforma Psiquiátrica e Luta Antimanicomial, conjunto de lutas em oposição às involuções submetidas pelo Governo Federal. São entidades, movimentos antimanicomiais regionais e nacionais, ONGs, organizações políticas, profissionais de saúde, familiares e usuários, universitários, pesquisadores, profissionais de comunicação, artistas, políticos e membros da sociedade civil. São, acima de tudo, sujeitos espalhados por todo o país que acreditam em uma sociedade sem manicômios e lutam para que não seja dado nenhum passo atrás. Tamanho retrocesso proposto pela revogação em massa significa a morte. Propõe que profissões contrariem suas éticas e permitam que seus profissionais sejam omissos, e até ativos, em situações de opressão. Mortes sociais de pessoas que deixarão de ser vistas como sujeitos integrais para serem retiradas do convívio social e torturadas. Mortes literais. A morte de toda sociedade que não pode permitir