Como o novo fenômeno musical argentino nos ajuda a pensar o Brasil

Ao colocar a Argentina diante do espelho, Milo J nos provoca a fazer questionamentos semelhantes Por Norberto Liberatôr Clique nas imagens para ativar modo slide Clique aqui para receber nossos materiais impressos! Instagram Twitter Youtube Tiktok
Memória e justiça: María del Cármen Artero (1935-1978)

Regime de exceção no país vizinho matou mais de 30 mil pessoas das quais não se sabe o paradeiro Por César AgiteTradução: Norberto Liberatôr/Revista Badaró Instagram Twitter Youtube Tiktok
A goleada de Riquelme contra o neoliberalismo

Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes.
Muito obrigado, Lionel Messi!

Em uma cobertura jornalística, nunca fui tão bem recebido; muito obrigado, Lionel Messi; graças a você, me senti em família Texto por Gabriel Neri Arte por Norberto Liberator O silêncio antes do pênalti de Gonzalo Montiel que se espalhou nas ruas de Buenos Aires tiveram como som seguinte o maior grito em 36 anos na Argentina. Finalmente, acabou o jejum de Mundiais, que começou na Itália em 1990. A Seleção Argentina, comandada por dois ‘Lionéis’, o Messi e o Scaloni, saiu campeã. A final não tinha como ser mais dramática e melhor. Quando o destino pareceria ser albiceleste, os azuis franceses empatavam. E salimos campeones. Eu não poderia estar em um lugar melhor. Morando em Campo Grande, vivi as três horas da partida na casa de um argentino. Sofri com eles, cantei com eles, chorei com eles. Argentinos, brasileiros, paraguaios e venezuelanos. Todos juntos. Nunca imaginei que o sentido de assistir à Copa em família viria com quem não é parente de sangue, mas de alma. Estava em um ‘paraíso’ no bairro Buriti. Bandeiras para todo lado, muitas pessoas uniformizadas, mística, fumaça, cantoria, cerveja, churrasco e o coração. Uma recompensa, para quem sempre foi do contra, foi ser campeão do mundo com quem realmente torcia comigo. No final, um tal de Ramón Galeano me abraçou e disse: “você deu sorte”. Comecei a ter um sentimento pela Seleção Argentina por causa das cores. Cruzeirense, o azul e branco sempre fez parte da minha vida. O verde e amarelo, não. Em 2014, o plantel argentino chegou a final da Copa do Brasil perdeu para a Alemanha. Em 2015 e 2016, mais duas finais. Ambas perdidas para a melhor geração chilena da história. Messi se despediu da Seleção e voltou. O tempo passou e “las finales que perdimos cuántos años las lloré. Pero eso se terminó, porque em Maracaná…”. Foi o que cantaram os argentinos no Catar nas sete partidas até o título mundial. Antes, dois eventos marcam e forjam a força de guerreiro deste time. O primeiro é a morte de Diego Maradona em novembro de 2020. Com 60 anos, o pibe de Fiorito nos deixou. Dali em diante, do céu, ele guiou o time. A primeira competição póstuma foi a Copa América. Argentina e Colômbia, sedes iniciais, não quiseram sediar. O Brasil ‘adotou’ a competição mais antiga de seleções em meio à pandemia e com todas as controvérsias possíveis. No Maracanazo argentino, Messi saiu campeão. Jogaram por Lionel, que jogou pelos demais. O grito de alívio veio para quem sempre foi tão cobrado. Para além da conquista, impediu o uso oportunista, por parte de Jair Bolsonaro, de um eventual título brasileiro. O argumento de que ele não tinha título com a Argentina caiu por terra. Veio a Finalíssima – competição entre os vencedores da Copa América e Eurocopa – e baile para cima da Itália. Faltava um título para coroar a maior carreira de um jogador argentino, a Copa do Mundo. E foi o melhor Mundial de Messi. O camisa 10 fez gol em todas as fases: sete nos sete jogos. Marcou na derrota histórica para Arábia Saudita, vitória contra México, Austrália, Holanda, Croácia e França. Só a Polônia não foi vazada pelo 10. Tudo isso o credenciou para ser novamente o melhor da Copa. ‘Ojalá’ que diferente de 2014, agora campeão. Em uma cobertura jornalística, nunca fui tão bem recebido. Muito obrigado, Lionel Messi; graças a você, me senti em família. Na final da Copa América, eu comemorei sozinho. Desta vez, estava com o coração cheio. Fui com a mesma camisa alusiva à azul de 1986. Também tinha a braçadeira de capitão. Senti que seria campeão em 2021 e agora em 2022. Ao longo da Copa, em especial nos primeiros momentos, eu me senti sozinho. Parecia que era só eu o “errado em torcer pela Argentina”. O Brasil caiu e o time de Messi seguiu. Na final, eu me senti acolhido como nunca estive com esta camisa. Salimos campeones. Copamos. Gabriel Neri Estudante de jornalismo, amante de futebol sul-americano e da América Latina. Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Twitter Youtube Facebook Instagram
35 anos do renascimento de Diego Maradona

Com a ajuda divina, Argentina conquistava há 35 anos seu segundo título na Copa do Mundo, comandada pelo mais humano dos deuses: Diego Maradona Por Gabriel Neri, Norberto Liberator e Adrian Albuquerque https://www.youtube.com/watch?v=S_Atd8MUu4c Todos os deuses do Olimpo cometiam erros. Todos eles possuíam características humanas, demasiado humanas. Mas uma coisa os diferenciava das pessoas comuns: os deuses possuem habilidades sobre-humanas e são imortais. E naquele ano de 1986, todo o panteão do Olimpo certamente se orgulhou de ver um par conquistar e assombrar o mundo. Diego Armando Maradona estava longe de ser um santo. E nem era esta sua pretensão. O camisa 10 da seleção albiceleste era deus. Não o deus cristão, comparação blasfema para o católico que era. Maradona era um deus do olimpo. Trazia consigo os defeitos de sua personalidade divinamente humana. Por vezes ciumento, por vezes prepotente, por vezes infiel. Ao mesmo tempo, também tinha em si a liderança e a imponência do rei dos deuses. Ahí la tiene maradona, lo marcan dos, pisa la pelota maradona, arranca por la derecha el genio del fútbol mundial, deja el tendal y va a tocar para burruchaga… ¡siempre maradona! ¡genio! ¡genio! ¡genio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta… Gooooool… Gooooool… ¡quiero llorar! ¡dios santo, viva el fútbol! ¡golaaazooo! ¡diegoooool! ¡maradona! Es para llorar, perdónenme… Maradona, en recorrida memorable, en la jugada de todos los tiempos… Barrilete cósmico ¿de qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés, para que el país sea un puño apretado gritando por argentina? Argentina 2, inglaterra 0. Diegol, diegol, diego armando maradona… Gracias, dios, por el fútbol, por maradona, por estas lágrimas, por este argentina 2, inglaterra 0. Foi assim que o narrador e jornalista nascido no Uruguai – e que viveu a vida na Argentina – Victor Hugo Morales relatou naquela tarde de 22 de junho de 1986 o maior gol da história das copas. A partida era argentina contra a Inglaterra pelas quartas de final do mundial de 86 no México. Foi a primeira batalha entre argentinos e ingleses após a guerra das Malvinas (que são argentinas). Representando 40 milhões ou quem sabe os mais de 900 milhões de pessoas da América Latina, um loco diez bajito, nos trouxe um pouco de alegria com o punho cerrado e driblando a todos os ingleses. Antes daquelas quartas de final, a argentina tinha passado por Coreia do Sul, Itália e Bulgária na fase de grupos. Na sequência pegou o Uruguai nas oitavas. Das quartas para a frente, três europeus caíram para o plantel de Carlos Salvador Bilardo: Inglaterra, Bélgica e Alemanha. A histórica partida contra os ingleses converteu Diego em deus. A data de 22 de junho é a páscoa maradoniana, assim como a páscoa cristã, foi ali que Pelusa (um dos tantos apelidos de Maradona) renasceu, diante de 110 mil pessoas no estádio Azteca na Cidade do México. Judas não jogou naquela tarde; os argentinos consultaram o Senhor para saber do plano de jogo. E Jesus disse que não falaria de táticas, só deixou o conselho: “la pelota siempre al diez que ocurrirá otro milagro”. Importante lembrar que, um dia antes do jogo, o capitão pediu aos argentinos que rezassem, porque eles precisavam. A fé funcionou e ela não costuma falhar. Em cinco minutos, dos 5 aos 10 do segundo tempo, o céu desceu na terra. O primeiro tento veio com a sorte e talvez o maior pulo da história de Diego Maradona. O baixinho de 1,65 m dividiu a bola no alto com o goleiro inglês Peter Shilton, de 1,83 m. Y ya lo ve, y ya lo ve, el que no salta es un inglés. O grito de 1 a 0 foi com la mano de Dios. De punho esquerdo cerrado e de longe parecendo que foi com a cabeça, abriu o caminho para seu passeio de logo mais. A partida parecia ficar tranquila e a Inglaterra tentava sair para o jogo. O argentino Héctor Enrique faz a ‘assistência’ para o gol del siglo de Maradona antes da linha de meio-campo. Diego driblou os dois primeiros, arrancou pela direita, veio o terceiro, o quarto, o goleiro e a meta se abriu. De canhota, empurrava para as redes enquanto sofria um carrinho que o derrubou. Não seria errado dizer que esse jogo contou a história de Diego Maradona. Do gol de ladrón contestado, acima das regras, com a mão, ao tento do século. Equilibrando o lado mundano com o seu dom, cada qual em uma mão. Na comemoração, ainda cambaleando, se levantou outra vez com o punho esquerdo cerrado. O milagre se sacramentou. O jogo terminou Argentina 2, Inglaterra 1, mas ninguém se lembra do gol inglês. Na fase seguinte, em semifinal contra a Bélgica, abriu o placar com uma cavadinha na saída do goleiro. Tal qual ante a Inglaterra, driblou toda a defesa belga e fez o 2 a 0. A final parecia ser tranquila. Até os 28 do segundo tempo, a argentina tinha um 2 a 0 a favor, mas tomou o empate. Nada é fácil para quem nasce nas bandas latino-americanas. O gol de Jorge Burruchaga nos minutos finais nasceu do pé canhoto do 10. Um toque apenas desmontou todo o time alemão. Argentina 3, Alemanha 2. Os dois sonhos do pibe de oro foram realizados. O primeiro era jogar um mundial e o segundo era sair campeão. Há 35 anos, esta é a história da copa de 1986 e do renascimento de Diego Armando Maradona – o mais humano dos deuses.