Repressão tem sido obstáculo para cultura em Campo Grande
Por Cristiane Oliveira*
Arte: Norberto Liberator
21 de Setembro de 2026, Campo Grande/MS.
Vejo os fins de semana na capital do MS constantemente repletos de ótimas agendas culturais em diversas temáticas. Tem pra todo gosto até as 23h58 da noite. Neste mês de setembro, a gente pode relembrar o movimento hip hop da Batalha de Rima da Zona Sul, na Orla Morena (um salve!), feiras de economia criativa ocupando praças públicas de Campo Grande, eventos da comunidade LGBTQ+ promovendo Ballrooms (salve a Excelente Casa Sherman, celebrando 2 anos de história na cena).
Da cena alternativa underground e rock, vemos a resistência do corre independente do Holandês Voador Cultural em visita ao Pizza Pub (com bilheteria beneficente por LidyLo, artista de moda autoral). Esses fazedores de cultura constroem oportunidades de lazer acessíveis ao centro da cidade, onde encontramos arte autoral, gente boa, tudo isso em espaços seguros por um valor/investimento que cabe no bolso do trabalhador, mas só até às 23h58.
Isto é, porque a partir da meia-noite entra em vigor um “toque de recolher total” na região central, direcionado aos públicos desses espaços culturais e bares, sustentado por dois braços fortes do Estado: a Lei do Silêncio Municipal (Lei Complementar n. 8, de 28 de março de 1996) e as armas não letais (gás lacrimogêneo) de efeito moral da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul.
Então vamos aos fatos. As bombas de efeito moral são considerados armas porque seus efeitos fisiológicos em nós humanos vão desde vômitos, náuseas, irritações, queimaduras e, dependendo da quantidade, pode levar ao óbito. Diante disso, é extremamente necessário um treinamento completo para o uso apropriado desses agentes, dizem os estudos de Palhares sobre essa questão toda.
Para quem não conhece, vamos detalhar o instrumento de guerra. O gás é aplicado por meio de aerossóis (sprays) finos em recipientes pressurizados – este contendo o agente e um propelente gasoso em cartuchos explosivos, que volatizam o agente que logo se condensa novamente em um aerossol.
Uma granada de gás CS (2-clorobenzilideno malononitrila) pode formar uma nuvem de 5 a 10 metros de diâmetro que pode persistir por 10 a 15 minutos (França et al., 2010). Então, o gás CS e CN (dibenz-1:4-oxazepina) produzem efeitos lacrimejantes em concentrações de aproximadamente 0,0003 mg.L-1. Uma concentração de 0,0045 mg.L-1 é intolerável. Se a concentração atingir índices de 0,85 mg.L-1, é letal em 10 minutos de exposição (Roos, 2004).
Subitamente, vamos ao questionamento, minha gente. A PMMS está reagindo desta forma a quê exatamente? Ao descumprimento da lei do silêncio? Por denúncias de perturbação? Aglomeração baderneira?
Porque o que está acontecendo nos bares da Rua 14 de julho e laterais é a penalidade constante com bombas de efeito moral e dispersão violenta ao público consumidor daqueles estabelecimentos em plena via pública e, também, nos espaços internos dos bares.
Quero chamar sua atenção para esta situação que talvez pareça distante, uma notícia no telejornal de segunda-feira. Para mim, está cada vez mais recorrente.
Além disso, escalonando em níveis de violência policial e o alvo tem sido minhas pessoas queridas, artistas, estudantes, músicos, atendentes de telemarketing, professoras, arte educadoras, o povão.
Eu também já estive nesse lugar. Meu “batismo” como caloura da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em 2017, também foi o encontro com uma operação policial, em destaque o uso do gás lacrimogêneo contra o público, durante um Sarau Cultural do Bar da Tia Lenir (Vila Olinda, região Universitária).
Naquele recorte, as acusações eram o abuso dos limites de níveis de pressão sonora em função das zonas de ruído e os bloqueios de rua de trânsito pelo volume de pessoas aglomeradas, especialmente estudantes nas calçadas da rua Montese (também Rua Trindade que iniciam a Rua Rui Barbosa no sentido centro). Teve até helicóptero sobrevoando a gente, mas isso é assunto para outro dia.
No último sábado, por volta das 23h, o público da Joy Adega (Rua Antônio Maria Coelho) foi surpreendido com a ação da PMMS. A querida produtora cultural Lua Maria compartilhou com a gente que participava como público durante aquele episódio violento. Em conversa, ela relata:
“Estava bem cheio, tinha bastante gente. Acho que era por volta da 00:20h, mais ou menos. O dono disse, que não conhecia os policiais que estavam lá. Que geralmente são policiais conhecidos, que já sabem como funciona o bar e não embaça. Faz só uma fiscalização, mas não agride nem nada, entendeu? Aqueles eram os policiais que ele não conhecia.
Eu acho que tinha umas três viaturas na frente e tinha mais uma para o final da rua. Antes das 01:00 da manhã eles jogaram gás lá dentro (do bar), por cima do portão. Depois, o portão foi aberto e todo mundo saiu tossindo, com ânsia de vômito. E, mesmo com a maioria das pessoas saindo, ainda continuavam jogando pimenta. Ele (o policial) já tinha visto que o rapaz estava saindo pelo portão e jogou bem na cara do rapaz o gás.
Então, assim, de uma forma muito violenta, jogou gás mesmo. Na cara das pessoas. Tem gente que viu os policiais rindo, sabe? jogando gás e dando risada da nossa cara, da gente passando mal. Assim, foi desnecessário isso. Era só um bar com pessoas inofensivas ali dentro, então não tinha essa necessidade”.
Do mesmo modo, quando Lua Maria relata sobre a qualidade de inofensivas, esse adjetivo demarca o objetivo desse público ali: a prática do direito ao Lazer garantido na Constituição Federal Brasileira. “Art. 6º : São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.
Não era um motim, nem uma guerrilha armada. Gente reunida em lazer, bebendo cultura e consumindo produtos de um estabelecimento regularmente em funcionamento. Quem são as pessoas atingidas por esta ação policial do último fim de semana? São trabalhadores ou grandes empresários? E quanto ao gênero: travestis, homens trans, cis? E a cor da pele dessa gente? Quem está pagando essa conta?
No corpo de quem está chegando o gás lacrimogêneo que os agentes policiais estão usando nessas ações de toque de recolher do centro de Campo Grande? As respostas são complexas, não é possível ser simplista nessa situação, muito menos ignorá-lá pois está acontecendo na nossa frente.
Enquanto jovem negra, moradora de periferia, sei bem como é o contraste da ação policial violenta nas periferias em relação ao centro da cidade. Não existe troca justa. O buraco é bem mais embaixo na quebrada. Lélia Gonzalez e outras pensadoras do nosso povo se dedicaram a reunir estas informações, evidenciando que o alvo destes abusos policiais estão direcionados por carga históricamente racista para nós, e nossos irmãos negros. Sabemos dos dados.
Ainda sobre o profissional, o agente militar, a Revista Brasileira de Segurança (2007) aponta uma questão que merece atenção nossa. Atualmente são questionados os “limites de poder da polícia e se faz necessário destacar que a atuação policial dentro dos princípios democráticos exige competências pessoais como ética profissional, humanidade, tolerância e controle com a legalidade, pois a esses profissionais competem a preservação da ordem pública e o controle social (Sandes, 2007)”.
Com o fim de um olhar macro do assunto, carregamos o título de capital com menor acesso à cultura no Brasil (pesquisa Datafolha 2025). Lideramos os piores índices em praticamente todos os quesitos, sendo 14 atividades artísticas consultadas pela população. Acredito que a repressão policial, o plano de sucateamento da cultura por governos da extrema direita, se chocam diretamente com espaços de resistência em nosso território.
Para a turma do sertanejo, das bets e dos altos financiamentos públicos está tudo bem. Da ponte para cá, temos colhido outros frutos. As dores, marginalidade, o sucateamento profissional da classe artística alternativa, esvaziamento, fim de diversos espaços culturais mostram que estamos perdendo.
REFERÊNCIAS:
Chamada para REUNIÃO PÚBLICA APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DA PROPOSTA DE REVISÃO DA LEI DO SILÊNCIO 2023, Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (PLANURB). Google.
CAMPO GRANDE NEWS. Campo Grande é a pior capital do país para a cultura, aponta pesquisa. 2025. Matéria jornalística.
Entrevista com Lua Maria, Produtora Cultural Multidisciplinar, transcrita em 20 e 21 de Setembro de 2026, Campo Grande MS.
PALHARES, B. Os perigos do gás lacrimogêneo. 2004. Tese (Doutorado), UNICAMP, Campinas, 2004.
Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. Química e Sociedade, Revista.Vol. 37, N° 2, p. 88-92, MAIO 2015. Nayane M. Amorim, Raquel A. Silva, Denis V. M. Paiva e Maria Goretti V. Silva Química e Armas Não Letais: Gás Lacrimogêneo em Foco.
*Cristiane Oliveira é Doutora honoris Causa pela Federação das Religiões de Povos de Terreiro de MS – Ajô Nilê (2022), militante do MNU (Movimento Negro Unificado), integra o grupo de trabalho Akilombar e cursa Licenciatura em História pela UFMS.


