Ao contrário do que dizem fake news, Lula não fechará igrejas

Entenda o caso e confira políticas realizadas por Lula durante seu governo em relação a igrejas Por Vitória Regina Vitória Regina Marxista e psicóloga. Debate política, psicologia e cultura. Twitter Youtube Facebook Instagram
Editorial: Sem ilusões, com Lula

Eventual eleição de ex-presidente não seria solução mágica para superar bolsonarismo, mas é passo necessário para evitar sua potencialização Em 2018, após a vitória de Jair Bolsonaro (então no PSL), os quatro anos seguintes pareciam uma eternidade. E foram. Tivemos a maior pandemia desde a Gripe Espanhola, com índices absurdos no Brasil; aumento astronômico da inflação, desemprego e fome; ameaças quase que diárias do presidente da República às instituições democráticas; aumento e posterior diminuição de mobilizações sociais. Contudo, mesmo com incertezas, entramos no ano eleitoral de 2022. Diferentemente da última eleição, a deste ano terá Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os candidatos. Após o desmonte da Lava Jato e de ter recuperado seus direitos políticos, o ex-presidente parece ser – ao considerarmos as pesquisas eleitorais – o único candidato capaz de vencer Bolsonaro. Em diferentes pesquisas de divulgação de intenção de votos, Lula sustenta um índice superior a 40% e, em alguns casos, com chances de vitória ainda no primeiro turno. A influência de Lula – que foi sempre maior do que a do próprio partido – surpreendeu os que cogitaram que o petista estava ultrapassado ou, ainda, que sua imagem estava assombrada pelo fantasma de Sergio Moro. Os resultados de tal influência, ao serem convertidos em votos, podem nos colocar diante de um terceiro mandato de Lula a partir de 2023 e, por isso, não devemos perder de vista as movimentações políticas que o presidenciável tem realizado. Lulalckmin A ideia de uma chapa entre Lula e Alckmin começou a amadurecer ainda em 2021. Em dezembro do ano passado, visando um estreitamento de laço e consolidação de uma aliança real, o grupo de advogados Prerrogativas organizou um jantar com Lula e Alckmin para discutir a possibilidade de uma aliança. Além dos dois políticos, também estavam presentes dirigentes do PT, PSB, Rede, PCdoB, PSD e até do MDB, legenda que articulou o golpe de 2016. Após o jantar, políticos que até então eram adversários se uniram para derrotar Bolsonaro, ao menos nas urnas. Todavia, ao abraçar boa parte dos setores que viraram ”oposição” ao atual presidente, o PT adentra um campo minado. A frente ampla, que almeja e está disposta a abdicar de toda e qualquer divergência programática e política, encontrará sérios problemas caso tenha a intenção de superar o bolsonarismo enquanto projeto político-econômico. Após meses de aceno, encontros e especulações, foi lançada no dia sete de maio a chapa entre Lula e Geraldo Alckmin à Presidência da República, formada por um PT em recuperação do desgaste gerado pelos acontecimentos que culminaram no golpe de 2016 e por um PSB em ascensão, mais fisiológico do que nunca. A legenda que agora abriga o ex-governador paulista, junto a figuras como Flávio Dino, Tabata Amaral e Marcelo Freixo, busca aumentar sua relevância fora de Pernambuco, onde é a principal força há décadas – e, atualmente, governa há 15 anos ininterruptos com uma política neoliberal e repressora, análoga à do próprio PSDB em São Paulo, onde Alckmin impôs tal agenda por 12 anos (não consecutivos). Com uma composição tão eclética, o PSB teve em seu grupo paulista o conchavo que levou à aliança atual. Márcio França, ex-vice de Alckmin que veio a ocupar seu posto, costuma ser classificado pela mídia hegemônica – e por si mesmo – como um político de centro-esquerda, mesmo tendo sido parte da alta cúpula do governo tucano. França é apontado como principal articulador da chapa e pode ser o candidato de Lula ao Senado por São Paulo, caso a chapa concorde em se aglutinar diante de Fernando Haddad para o governo paulista. É com o discurso de “união nacional” que o peessebista tem defendido a aliança desde o final de 2021. Quem propagou e defendeu uma frente ampla anti-Bolsonaro não deve se chocar com a chapa encabeçada por Lula. E ao se comparar a atual composição às que o PT realizou desde 2002, não há qualquer surpresa. Os problemas do frenteamplismo A retórica de “união contra o fascismo” é perigosa. A simples retirada de Bolsonaro do Palácio do Planalto não garante uma superação efetiva do bolsonarismo. Em caso de uma vitória de Lula aceita por Bolsonaro – no plano das ideias, já que o ex-capitão afirmou que não aceitará a derrota para Lula –, a frente ampla e os novos aliados do petista conseguirão revogar o que foi aprovado desde 2016? Mais do que isso, haveria tal vontade? De acordo com o próprio presidente do PSB, não. Carlos Siqueira afirmou, em abril, que o programa de governo “não pode ser de esquerda”, e sim refletir uma vaga “defesa da democracia”. É um erro crasso pensar em Jair Bolsonaro como um solecismo da história ou pelo viés patologizante. As reformas neoliberais realizadas por Bolsonaro e por Paulo Guedes – um verdadeiro membro dos Chicago Boys e que tem no seu histórico a atuação no período ditatorial de Pinochet – miram na completa destruição de direitos sociais, privatizações e sucateamento do serviço público, desmonte do Estado, além do reacionarismo neopentecostal e enfraquecimento dos pilares que sustentam a controversa democracia brasileira. As políticas econômicas e sociais de Bolsonaro são um esticamento extremo e a curto prazo daquelas que o próprio Alckmin, bem como outros políticos que têm acenado a Lula – como Gilberto Kassab, chefe supremo do PSD, e até mesmo o ex-governador paulista João Doria (PSDB) –, defenderam ao longo de suas trajetórias políticas. O compromisso com tais setores fez com que Lula recuasse a respeito da revogação da Reforma Trabalhista*. Diante do atual cenário, em que o discurso aliancista está mais explícito até mesmo do que o da “Carta aos Brasileiros” de 2002, o que se pode esperar de um eventual governo petista é uma gestão à direita dos mandatos anteriores do partido, que já tiveram altas doses de liberalismo na economia, desenvolvimentismo preocupante no meio ambiente e, até mesmo, de conservadorismo nos costumes, chegando a contar com Marcelo Crivella como ministro (da Pesca, quando o que mais “entende” do assunto é ter gravado a música “Oração do Pescador”)
Badaró entrevista José Dirceu

Em entrevista exclusiva, ex-ministro-chefe da Casa Civil falou sobre cenário político da América Latina, Bolsonaro, pandemia, perspectivas para 2022, Lula e erros do PT Por Leopoldo Neto, Norberto Liberator e Vitória ReginaColaborou Marina Duarte “— Mas ô, Dirceu, por que estás tão triste?Mas o que foi que te aconteceu?— Foi a Heloísa, que dedou a turmaFez bilhetinhos e a turma prendeu” Paródia da marchinha “A Jardineira”, de Orlando Silva, em ironia ao então líder estudantil José Dirceu (atribuída a militantes da Ação Popular) O semblante sereno, como de costume, poderia confundir. De barba e cabelos longos, José Dirceu, 22, presidente da União Estadual de Estudantes (UEE) de São Paulo, parecia tranquilo e até sorria dentro do carro que o levava à prisão no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), como mostram as fotos registradas naquele 12 de outubro de 1968. Internamente, é possível que lhe passasse um filme à cabeça. Os últimos meses haviam sido intensos para o jovem, cuja história viria a se confundir com a de pelo menos cinco décadas da esquerda brasileira. Em sintonia com Paris e outras grandes cidades do mundo, São Paulo vivia uma onda de radicalização do movimento estudantil. Em um período de aproximadamente quatro meses, houve a infiltração de uma informante da ditadura na vida afetiva de Dirceu, a “Batalha da Maria Antônia” e a prisão de mais de mil acadêmicos no congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, interior de São Paulo. A sequência de episódios tensos, enrascadas e reviravoltas fez do ano de 1968 uma tragédia grega para a militância de esquerda nas universidades e escolas. De grego, inclusive, eram as aulas que ocorriam na sala conhecida como “antro do Zé Dirceu”, no curso de filosofia da Universidade de São Paulo (USP), onde o líder estudantil — que estudava Direito na PUC — costumava dormir para se proteger de possíveis ataques do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Foi naquela sala que Dirceu percebeu pela primeira vez um plano para capturá-lo, ao notar que a jovem Heloísa “Maçã Dourada”, com quem passava uma noite, desarmou com muita habilidade a pistola que ele deixava em sua cabeceira. Não demorou até a garota admitir que foi contratada pelo Dops para conseguir informações do militante, cujo “fraco” por mulheres era conhecido para além do ambiente universitário. Heloísa foi mantida em cárcere, por cinco dias, pelos acadêmicos que ocupavam o prédio do curso de filosofia da USP e liberada no dia 9 de junho, em evento que contou com coletiva de imprensa. A chamada “Batalha da Maria Antônia” ocorreu em outubro daquele ano. Na histórica rua paulistana, estudantes de esquerda e de direita protagonizaram um confronto físico direto. Embora se tenha propagado que a briga era entre acadêmicos da USP e da Mackenzie, Dirceu afirma que, na verdade, ela opôs de um lado militantes de esquerda que estavam na ocupação do prédio de filosofia e, do outro, membros do CCC. A foto do então dirigente estudantil com a camisa ensanguentada do secundarista José Guimarães, morto naquela ocasião, tornou-se emblemática. O famoso Congresso de Ibiúna ocorreu naquele mesmo outubro. O evento clandestino foi desmantelado pela Força Pública e pelo Dops, em cuja sede Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Pereira ficaram detidos. Os demais foram encaminhados para o presídio Tiradentes. Mas a primeira prisão do comandante duraria menos de um ano. Após militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestrarem, em setembro de 1969, o embaixador estadunidense Charles Elbrick e pedirem uma lista de presos políticos em troca, Dirceu embarcou no Hércules 56 rumo ao México. De lá, partiu para o exílio em Cuba. Antes mesmo da anistia, José Dirceu estava de volta ao Brasil, após cirurgias plásticas e usando identidade falsa, em 1975. Cinco anos depois, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que aglutinava setores marxistas, social-democratas, católicos ligados à Teologia da Libertação e lideranças sindicais. “Cérebro” da legenda, articulou a campanha que levou à eleição do primeiro operário brasileiro a ser presidente da República, em cujo governo foi o homem-forte por três anos, à frente da Casa Civil. Condenado em processos contestados, durante julgamentos do Mensalão e da Lava Jato, nunca se retirou da vida política. Na varanda da casa de suas filhas em Vinhedo (SP), Dirceu conversou com a Badaró por videoconferência. Trajando camisa do Corinthians, o ex-ministro falou sobre a política genocida de Jair Bolsonaro, rumos da esquerda na América Latina, frente ampla, estratégias para 2022, erros e acertos do PT, entre outros temas. Badaró: Para começar, gostaríamos de falar sobre o panorama da América Latina. Na sua opinião, a pandemia é o motivo das ruas não estarem tomadas no Brasil? Considerando países como Chile, Bolívia, que tiveram manifestações durante a pandemia e o Brasil não está tendo. O Peru, por exemplo, está tendo uma eleição e bastante mobilização, com máscaras, é claro. Mas você acha que a pandemia é o fator que impede de ter uma grande mobilização no país? [A entrevista foi realizada antes das mobilizações contra Bolsonaro que ocorreram em todo o Brasil] José Dirceu: Sim e não. Veja bem, o que aconteceu na América do Sul é um sinal de que o modelo que estão tentando implantar no Brasil não deu certo e não dará certo. Nós tivemos rebeliões muito noticiadas no Equador e no Chile; e tivemos a revolta popular e derrota dos golpistas em eleições históricas na Bolívia. Perderam na Câmara, no Senado e a Presidência da República, o MAS [Movimento ao Socialismo] fez maioria absoluta e a derrota do Macri na Argentina; e o empate no Uruguai. Agora um segundo turno muito disputado no Equador e esse resultado do Pedro Castillo no Peru. Na verdade, a rebelião na Colômbia foi a maior e mais demorada, mas a mídia escondeu muito pela importância da Colômbia, né?! A Colômbia é hoje praticamente o terceiro país da América Latina, depois do Brasil e do México e se equipara à Argentina. Esses são processos de falência do modelo neoliberal
Sergio Moro não é o bastião da democracia, nem da justiça

O inimigo do meu inimigo é meu amigo? Se for Moro, não; saída de ex-juiz de governo cada vez mais instável não deve ser vista com comemoração: com um fino verniz civilizado e democrático construído pela mídia e por parte da direita, ex-ministro se mostra tão autoritário quanto seu próprio chefe
Lula Livre: o thriller político mais famoso do Brasil
Acusações de corrupção, delações premiadas e julgamentos parciais. Essas foram partes da novela política que culminou na prisão e, posteriormente, na soltura do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva