Um uniforme, muitos sentimentos: a história da Amarelinha

A trajetória de um dos mais famosos e místicos kits esportivos do mundo  Por Norberto Liberator Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Twitter Youtube Facebook Instagram

35 anos do renascimento de Diego Maradona

Com a ajuda divina, Argentina conquistava há 35 anos seu segundo título na Copa do Mundo, comandada pelo mais humano dos deuses: Diego Maradona Por Gabriel Neri, Norberto Liberator e Adrian Albuquerque https://www.youtube.com/watch?v=S_Atd8MUu4c Todos os deuses do Olimpo cometiam erros. Todos eles possuíam características humanas, demasiado humanas. Mas uma coisa os diferenciava das pessoas comuns: os deuses possuem habilidades sobre-humanas e são imortais. E naquele ano de 1986, todo o panteão do Olimpo certamente se orgulhou de ver um par conquistar e assombrar o mundo. Diego Armando Maradona estava longe de ser um santo. E nem era esta sua pretensão. O camisa 10 da seleção albiceleste era deus. Não o deus cristão, comparação blasfema para o católico que era. Maradona era um deus do olimpo. Trazia consigo os defeitos de sua personalidade divinamente humana. Por vezes ciumento, por vezes prepotente, por vezes infiel. Ao mesmo tempo, também tinha em si a liderança e a imponência do rei dos deuses. Ahí la tiene maradona, lo marcan dos, pisa la pelota maradona, arranca por la derecha el genio del fútbol mundial, deja el tendal y va a tocar para burruchaga… ¡siempre maradona! ¡genio! ¡genio! ¡genio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta… Gooooool… Gooooool… ¡quiero llorar! ¡dios santo, viva el fútbol! ¡golaaazooo! ¡diegoooool! ¡maradona! Es para llorar, perdónenme… Maradona, en recorrida memorable, en la jugada de todos los tiempos… Barrilete cósmico ¿de qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés, para que el país sea un puño apretado gritando por argentina? Argentina 2, inglaterra 0. Diegol, diegol, diego armando maradona… Gracias, dios, por el fútbol, por maradona, por estas lágrimas, por este argentina 2, inglaterra 0. Foi assim que o narrador e jornalista nascido no Uruguai – e que viveu a vida na Argentina – Victor Hugo Morales relatou naquela tarde de 22 de junho de 1986 o maior gol da história das copas. A partida era argentina contra a Inglaterra pelas quartas de final do mundial de 86 no México. Foi a primeira batalha entre argentinos e ingleses após a guerra das Malvinas (que são argentinas).  Representando 40 milhões ou quem sabe os mais de 900 milhões de pessoas da América Latina, um loco diez bajito, nos trouxe um pouco de alegria com o punho cerrado e driblando a todos os ingleses. Antes daquelas quartas de final, a argentina tinha passado por Coreia do Sul, Itália e Bulgária na fase de grupos. Na sequência pegou o Uruguai nas oitavas. Das quartas para a frente, três europeus caíram para o plantel de Carlos Salvador Bilardo: Inglaterra, Bélgica e Alemanha. A histórica partida contra os ingleses converteu Diego em deus. A data de 22 de junho é a páscoa maradoniana, assim como a páscoa cristã, foi ali que Pelusa (um dos tantos apelidos de Maradona) renasceu, diante de 110 mil pessoas no estádio Azteca na Cidade do México. Judas não jogou naquela tarde; os argentinos consultaram o Senhor para saber do plano de jogo. E Jesus disse que não falaria de táticas, só deixou o conselho: “la pelota siempre al diez que ocurrirá otro milagro”. Importante lembrar que, um dia antes do jogo, o capitão pediu aos argentinos que rezassem, porque eles precisavam. A fé funcionou e ela não costuma falhar. Em cinco minutos, dos 5 aos 10 do segundo tempo, o céu desceu na terra. O primeiro tento veio com a sorte e talvez o maior pulo da história de Diego Maradona. O baixinho de 1,65 m dividiu a bola no alto com o goleiro inglês Peter Shilton, de 1,83 m. Y ya lo ve, y ya lo ve, el que no salta es un inglés. O grito de 1 a 0 foi com la mano de Dios. De punho esquerdo cerrado e de longe parecendo que foi com a cabeça, abriu o caminho para seu passeio de logo mais. A partida parecia ficar tranquila e a Inglaterra tentava sair para o jogo. O argentino Héctor Enrique faz a ‘assistência’ para o gol del siglo de Maradona antes da linha de meio-campo. Diego driblou os dois primeiros, arrancou pela direita, veio o terceiro, o quarto, o goleiro e a meta se abriu. De canhota, empurrava para as redes enquanto sofria um carrinho que o derrubou.  Não seria errado dizer que esse jogo contou a história de Diego Maradona. Do gol de ladrón contestado, acima das regras, com a mão, ao tento do século. Equilibrando o lado mundano com o seu dom, cada qual em uma mão. Na comemoração, ainda cambaleando, se levantou outra vez com o punho esquerdo cerrado. O milagre se sacramentou. O jogo terminou Argentina 2, Inglaterra 1, mas ninguém se lembra do gol inglês.  Na fase seguinte, em semifinal contra a Bélgica, abriu o placar com uma cavadinha na saída do goleiro. Tal qual ante a Inglaterra, driblou toda a defesa belga e fez o 2 a 0. A final parecia ser tranquila. Até os 28 do segundo tempo, a argentina tinha um 2 a 0 a favor, mas tomou o empate. Nada é fácil para quem nasce nas bandas latino-americanas.  O gol de Jorge Burruchaga nos minutos finais nasceu do pé canhoto do 10. Um toque apenas desmontou todo o time alemão. Argentina 3, Alemanha 2. Os dois sonhos do pibe de oro foram realizados. O primeiro era jogar um mundial e o segundo era sair campeão. Há 35 anos, esta é a história da copa de 1986 e do renascimento de Diego Armando Maradona – o mais humano dos deuses.  

Eurocopa 2004: a grande epopeia grega

Seleção helênica não precisava de técnica vistosa ou físico invejável, mas tinha inteligência e se armava bem na defesa e no ataque Por Álvaro Ramírez (para a Kodro Magazine)Tradução por Gabriel Neri e Norberto Liberator A seleção grega era uma das equipes mais discretas e fracas da história das Eurocopas. O futebol moderno não contou com mais um campeonato tão estranho e ímpar como aquela Euro de 2004. Depois de se classificar como um dos times menos cotados ao título, a equipe helênica chegava a Portugal sem uma estrela ou um treinador reconhecido. Mas os gregos foram capazes de chegar a sua segunda participação europeia e sair campeões. Se analisarmos cada um daqueles confronto eliminatórios, veremos alguns absurdos, uma lista de acontecimentos improváveis, oportunismo e sorte dos Helenos (como a seleção grega é conhecida).  A imprensa na época contou o título grego da Eurocopa de 2004 como “milagre” e “épico”. Os heróis do país banhado pelo Mar Mediterrâneo fizeram a final contra a Seleção Portuguesa que contava com Deco, Figo e Cristiano Ronaldo, que eram comandados por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, e venceram pelo placar mínimo.O treinador da Grécia, Otto Rehhagel, chegou à Seleção três anos antes, quando a Grécia disputou as Eliminatórias para Copa do Mundo de 2002 na Coreia do Sul e no Japão (Mundial do pentacampeonato brasileiro). O time fez somente sete pontos em oito jogos, tomando 17 gols e ficando em penúltimo do grupo 9, que tinha Inglaterra, Alemanha, Finlândia e Albânia. Diante do desastre, o treinador teve que mudar a forma de jogar da equipe para que pudesse competir. O primeiro passo foi blindar a defesa. O alemão Rehhagel havia treinado equipes como Bayern de Munique e Borussia Dortmund, ambos de seu país, e tinha a fama de ser da ‘velha escola’ com um sistema tático conservador. O treinador transformou a Grécia em um time duro e disciplinado. Mesmo sendo um time limitado pela falta de nível dos jogadores, a seleção azul e branca conseguiu se classificar para a Eurocopa de 2004. O time foi o primeiro do grupo 6, que tinha Espanha, Ucrânia, Armênia e Irlanda do Norte, com 18 pontos em oito jogos e fazendo apenas oito gols. Foram seis vitórias e duas derrotas. O time sabia sua forma de jogar e suas limitações. Assim, a união foi a força deste grupo sem nenhuma estrela. Não precisavam de uma técnica vistosa ou um físico invejável, mas tinham inteligência no posicionamento e se armavam bem na defesa e no ataque. Era um time que defendia em seu próprio campo, deixando o rival trabalhar a posse de bola e saindo rapidamente em contra-ataque, marcando as poucas chances que tinham de balançar as redes. A formação concentrava muita gente no meio-campo e na defesa para sair em bloco com as linhas juntas. O atacante titular, Charisteas, tinha que brigar com os zagueiros rivais para ficar com a bola. Em cada partido que jogavam, não sofrer gols era a máxima premissa. Às vezes jogavam com uma linha de quatro ou cinco atrás, dependendo da partida, e tinham vários ‘jogadores-chaves’ como o lateral-direito Giourkas Seitaridis, o lateral-esquerdo Takis Fyssas e o zagueiro Traianos Dellas. Outros jogadores importantes daquela geração eram o capitão Theodoros Zagorakis e Angelos Basinas. A dupla de volantes fazia a sustentação do meio-campo da equipe. Basinas era mais defensivo, tratando da saída de bola no meio dos zagueiros. Zagorakis trabalhava mais à frente, distribuindo o jogo e puxando a equipe para o ataque como uma meia de ligação. Completando o meio-campo, tinham Kostas Katsouranis, Stelios Giannakopoulos e o camisa 10 Giorgos Karagounis. Ele que jogava mais pelos lados de campo e tinha um toque mais refinado que os companheiros Campanha na Euro A Grécia chegou como cabeça de chave do seu grupo na Eurocopa de 2004 depois de sua surpreendente classificação nas eliminatórias. Os outros plantéis do grupo A eram o anfitrião Portugal, a Espanha e a Rússia. A estreia foi diante de Portugal e o time saiu vencedor por 2 a 1, com gols de e Karagounis e Basinas. O tento português foi feito pelo jovem Cristiano Ronaldo. Os jogos seguintes foram de sofrimento por conta dos tropeços na fase de grupos. Eles empataram por 1 a 1 contra Espanha e perderam para Rússia. Assim, foram quatro pontos e a segunda posição garantida para as quartas de final. A próxima seleção rival era a França, que estava em processo de reformulação depois da conquista de Copa de 1998, mas tinha Thierry Henry, Zinedine Zidane e Claude Makélélé. Aquele embate no José de Alvalade em Lisboa foi um dos mais previsíveis pelo contexto. A Grécia soube aproveitar suas oportunidades e concretizou sua superioridade. Jacques Santini, treinador francês, mesmo com seu time ganhando na posse de bola, não foi capaz de furar o ferrolho rival. Nikopolidis, goleiro grego, fez um jogo impecável e sereno. O castigo para os franceses veio na segunda etapa, aos 25 minutos. Charisteas após cruzamento de Zagorakis fuzilou de cabeça para as redes. Esse gol desanimou a Seleção Francesa e os afundou. Contra todo o prognóstico, Grécia era semifinalista. Além disso, foi a primeira vez que uma mesma equipe derrotou o anfitrião e o ganhador da edição anterior da Euro no mesmo torneio. Nas semifinais, o adversário era a República Tcheca no Estádio do Dragão em Porto, uma das melhores seleções do torneio e que tinha bons jogadores como Pavel Nedvěd, Tomáš Rosický e Milan Baroš, artilheiro da Euro com cinco gols. A equipe tcheca chegou invicta para o jogo com quatro vitórias. Mas assim como a França, a Seleção Tcheca sofreu para furar a defesa grega. Com o time de Otto cômodo com o empate, o jogo se estendeu à prorrogação. No final do primeiro tempo, Dellas foi o herói para levar a Grécia a sua primeira final continental. O rival seria novamente Portugal na finalíssima. A Grécia era o azarão diante do favoritismo português por ser um time em peças melhor e jogar em casa. O país lusitano