35 anos do renascimento de Diego Maradona

Com a ajuda divina, Argentina conquistava há 35 anos seu segundo título na Copa do Mundo, comandada pelo mais humano dos deuses: Diego Maradona Por Gabriel Neri, Norberto Liberator e Adrian Albuquerque https://www.youtube.com/watch?v=S_Atd8MUu4c Todos os deuses do Olimpo cometiam erros. Todos eles possuíam características humanas, demasiado humanas. Mas uma coisa os diferenciava das pessoas comuns: os deuses possuem habilidades sobre-humanas e são imortais. E naquele ano de 1986, todo o panteão do Olimpo certamente se orgulhou de ver um par conquistar e assombrar o mundo. Diego Armando Maradona estava longe de ser um santo. E nem era esta sua pretensão. O camisa 10 da seleção albiceleste era deus. Não o deus cristão, comparação blasfema para o católico que era. Maradona era um deus do olimpo. Trazia consigo os defeitos de sua personalidade divinamente humana. Por vezes ciumento, por vezes prepotente, por vezes infiel. Ao mesmo tempo, também tinha em si a liderança e a imponência do rei dos deuses. Ahí la tiene maradona, lo marcan dos, pisa la pelota maradona, arranca por la derecha el genio del fútbol mundial, deja el tendal y va a tocar para burruchaga… ¡siempre maradona! ¡genio! ¡genio! ¡genio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta… Gooooool… Gooooool… ¡quiero llorar! ¡dios santo, viva el fútbol! ¡golaaazooo! ¡diegoooool! ¡maradona! Es para llorar, perdónenme… Maradona, en recorrida memorable, en la jugada de todos los tiempos… Barrilete cósmico ¿de qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés, para que el país sea un puño apretado gritando por argentina? Argentina 2, inglaterra 0. Diegol, diegol, diego armando maradona… Gracias, dios, por el fútbol, por maradona, por estas lágrimas, por este argentina 2, inglaterra 0. Foi assim que o narrador e jornalista nascido no Uruguai – e que viveu a vida na Argentina – Victor Hugo Morales relatou naquela tarde de 22 de junho de 1986 o maior gol da história das copas. A partida era argentina contra a Inglaterra pelas quartas de final do mundial de 86 no México. Foi a primeira batalha entre argentinos e ingleses após a guerra das Malvinas (que são argentinas).  Representando 40 milhões ou quem sabe os mais de 900 milhões de pessoas da América Latina, um loco diez bajito, nos trouxe um pouco de alegria com o punho cerrado e driblando a todos os ingleses. Antes daquelas quartas de final, a argentina tinha passado por Coreia do Sul, Itália e Bulgária na fase de grupos. Na sequência pegou o Uruguai nas oitavas. Das quartas para a frente, três europeus caíram para o plantel de Carlos Salvador Bilardo: Inglaterra, Bélgica e Alemanha. A histórica partida contra os ingleses converteu Diego em deus. A data de 22 de junho é a páscoa maradoniana, assim como a páscoa cristã, foi ali que Pelusa (um dos tantos apelidos de Maradona) renasceu, diante de 110 mil pessoas no estádio Azteca na Cidade do México. Judas não jogou naquela tarde; os argentinos consultaram o Senhor para saber do plano de jogo. E Jesus disse que não falaria de táticas, só deixou o conselho: “la pelota siempre al diez que ocurrirá otro milagro”. Importante lembrar que, um dia antes do jogo, o capitão pediu aos argentinos que rezassem, porque eles precisavam. A fé funcionou e ela não costuma falhar. Em cinco minutos, dos 5 aos 10 do segundo tempo, o céu desceu na terra. O primeiro tento veio com a sorte e talvez o maior pulo da história de Diego Maradona. O baixinho de 1,65 m dividiu a bola no alto com o goleiro inglês Peter Shilton, de 1,83 m. Y ya lo ve, y ya lo ve, el que no salta es un inglés. O grito de 1 a 0 foi com la mano de Dios. De punho esquerdo cerrado e de longe parecendo que foi com a cabeça, abriu o caminho para seu passeio de logo mais. A partida parecia ficar tranquila e a Inglaterra tentava sair para o jogo. O argentino Héctor Enrique faz a ‘assistência’ para o gol del siglo de Maradona antes da linha de meio-campo. Diego driblou os dois primeiros, arrancou pela direita, veio o terceiro, o quarto, o goleiro e a meta se abriu. De canhota, empurrava para as redes enquanto sofria um carrinho que o derrubou.  Não seria errado dizer que esse jogo contou a história de Diego Maradona. Do gol de ladrón contestado, acima das regras, com a mão, ao tento do século. Equilibrando o lado mundano com o seu dom, cada qual em uma mão. Na comemoração, ainda cambaleando, se levantou outra vez com o punho esquerdo cerrado. O milagre se sacramentou. O jogo terminou Argentina 2, Inglaterra 1, mas ninguém se lembra do gol inglês.  Na fase seguinte, em semifinal contra a Bélgica, abriu o placar com uma cavadinha na saída do goleiro. Tal qual ante a Inglaterra, driblou toda a defesa belga e fez o 2 a 0. A final parecia ser tranquila. Até os 28 do segundo tempo, a argentina tinha um 2 a 0 a favor, mas tomou o empate. Nada é fácil para quem nasce nas bandas latino-americanas.  O gol de Jorge Burruchaga nos minutos finais nasceu do pé canhoto do 10. Um toque apenas desmontou todo o time alemão. Argentina 3, Alemanha 2. Os dois sonhos do pibe de oro foram realizados. O primeiro era jogar um mundial e o segundo era sair campeão. Há 35 anos, esta é a história da copa de 1986 e do renascimento de Diego Armando Maradona – o mais humano dos deuses.  

Eurocopa 2004: a grande epopeia grega

Seleção helênica não precisava de técnica vistosa ou físico invejável, mas tinha inteligência e se armava bem na defesa e no ataque Por Álvaro Ramírez (para a Kodro Magazine)Tradução por Gabriel Neri e Norberto Liberator A seleção grega era uma das equipes mais discretas e fracas da história das Eurocopas. O futebol moderno não contou com mais um campeonato tão estranho e ímpar como aquela Euro de 2004. Depois de se classificar como um dos times menos cotados ao título, a equipe helênica chegava a Portugal sem uma estrela ou um treinador reconhecido. Mas os gregos foram capazes de chegar a sua segunda participação europeia e sair campeões. Se analisarmos cada um daqueles confronto eliminatórios, veremos alguns absurdos, uma lista de acontecimentos improváveis, oportunismo e sorte dos Helenos (como a seleção grega é conhecida).  A imprensa na época contou o título grego da Eurocopa de 2004 como “milagre” e “épico”. Os heróis do país banhado pelo Mar Mediterrâneo fizeram a final contra a Seleção Portuguesa que contava com Deco, Figo e Cristiano Ronaldo, que eram comandados por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, e venceram pelo placar mínimo.O treinador da Grécia, Otto Rehhagel, chegou à Seleção três anos antes, quando a Grécia disputou as Eliminatórias para Copa do Mundo de 2002 na Coreia do Sul e no Japão (Mundial do pentacampeonato brasileiro). O time fez somente sete pontos em oito jogos, tomando 17 gols e ficando em penúltimo do grupo 9, que tinha Inglaterra, Alemanha, Finlândia e Albânia. Diante do desastre, o treinador teve que mudar a forma de jogar da equipe para que pudesse competir. O primeiro passo foi blindar a defesa. O alemão Rehhagel havia treinado equipes como Bayern de Munique e Borussia Dortmund, ambos de seu país, e tinha a fama de ser da ‘velha escola’ com um sistema tático conservador. O treinador transformou a Grécia em um time duro e disciplinado. Mesmo sendo um time limitado pela falta de nível dos jogadores, a seleção azul e branca conseguiu se classificar para a Eurocopa de 2004. O time foi o primeiro do grupo 6, que tinha Espanha, Ucrânia, Armênia e Irlanda do Norte, com 18 pontos em oito jogos e fazendo apenas oito gols. Foram seis vitórias e duas derrotas. O time sabia sua forma de jogar e suas limitações. Assim, a união foi a força deste grupo sem nenhuma estrela. Não precisavam de uma técnica vistosa ou um físico invejável, mas tinham inteligência no posicionamento e se armavam bem na defesa e no ataque. Era um time que defendia em seu próprio campo, deixando o rival trabalhar a posse de bola e saindo rapidamente em contra-ataque, marcando as poucas chances que tinham de balançar as redes. A formação concentrava muita gente no meio-campo e na defesa para sair em bloco com as linhas juntas. O atacante titular, Charisteas, tinha que brigar com os zagueiros rivais para ficar com a bola. Em cada partido que jogavam, não sofrer gols era a máxima premissa. Às vezes jogavam com uma linha de quatro ou cinco atrás, dependendo da partida, e tinham vários ‘jogadores-chaves’ como o lateral-direito Giourkas Seitaridis, o lateral-esquerdo Takis Fyssas e o zagueiro Traianos Dellas. Outros jogadores importantes daquela geração eram o capitão Theodoros Zagorakis e Angelos Basinas. A dupla de volantes fazia a sustentação do meio-campo da equipe. Basinas era mais defensivo, tratando da saída de bola no meio dos zagueiros. Zagorakis trabalhava mais à frente, distribuindo o jogo e puxando a equipe para o ataque como uma meia de ligação. Completando o meio-campo, tinham Kostas Katsouranis, Stelios Giannakopoulos e o camisa 10 Giorgos Karagounis. Ele que jogava mais pelos lados de campo e tinha um toque mais refinado que os companheiros Campanha na Euro A Grécia chegou como cabeça de chave do seu grupo na Eurocopa de 2004 depois de sua surpreendente classificação nas eliminatórias. Os outros plantéis do grupo A eram o anfitrião Portugal, a Espanha e a Rússia. A estreia foi diante de Portugal e o time saiu vencedor por 2 a 1, com gols de e Karagounis e Basinas. O tento português foi feito pelo jovem Cristiano Ronaldo. Os jogos seguintes foram de sofrimento por conta dos tropeços na fase de grupos. Eles empataram por 1 a 1 contra Espanha e perderam para Rússia. Assim, foram quatro pontos e a segunda posição garantida para as quartas de final. A próxima seleção rival era a França, que estava em processo de reformulação depois da conquista de Copa de 1998, mas tinha Thierry Henry, Zinedine Zidane e Claude Makélélé. Aquele embate no José de Alvalade em Lisboa foi um dos mais previsíveis pelo contexto. A Grécia soube aproveitar suas oportunidades e concretizou sua superioridade. Jacques Santini, treinador francês, mesmo com seu time ganhando na posse de bola, não foi capaz de furar o ferrolho rival. Nikopolidis, goleiro grego, fez um jogo impecável e sereno. O castigo para os franceses veio na segunda etapa, aos 25 minutos. Charisteas após cruzamento de Zagorakis fuzilou de cabeça para as redes. Esse gol desanimou a Seleção Francesa e os afundou. Contra todo o prognóstico, Grécia era semifinalista. Além disso, foi a primeira vez que uma mesma equipe derrotou o anfitrião e o ganhador da edição anterior da Euro no mesmo torneio. Nas semifinais, o adversário era a República Tcheca no Estádio do Dragão em Porto, uma das melhores seleções do torneio e que tinha bons jogadores como Pavel Nedvěd, Tomáš Rosický e Milan Baroš, artilheiro da Euro com cinco gols. A equipe tcheca chegou invicta para o jogo com quatro vitórias. Mas assim como a França, a Seleção Tcheca sofreu para furar a defesa grega. Com o time de Otto cômodo com o empate, o jogo se estendeu à prorrogação. No final do primeiro tempo, Dellas foi o herói para levar a Grécia a sua primeira final continental. O rival seria novamente Portugal na finalíssima. A Grécia era o azarão diante do favoritismo português por ser um time em peças melhor e jogar em casa. O país lusitano

Acendendo velas para um diabo vermelho [Badasportes 2]

Politizado, encrenqueiro e incontestável em campo, Éric Cantona completa 55 anos nesta segunda-feira; ídolo do Manchester United se imortalizou por voadora em torcedor fascista Por Gabriel Neri e Norberto Liberator Em entrevista à BBC, o camisa 7 colocou a voadora como o máximo momento de sua carreira. “Foi quando dei o chute de kung fu em um hooligan porque este tipo de gente não tem nada o que fazer em um jogo. Acredito que é um sonho, para alguns, dar um chute neste tipo de gente. Assim, eu fiz por essas pessoas, para que elas ficassem felizes”. Éric nasceu em uma família da classe trabalhadora na cidade de Marselha, ao sul da França. Seus pais, Albert Cantona e Éléonore Raurich, eram enfermeiro e costureira, respectivamente. Seu avô materno engrossou as fileiras antifascistas na Guerra Civil Espanhola, lutando ao lado das Brigadas Internacionais, contra as falanges do ditador Francisco Franco. A história no futebol começa no Olympiques Caillollais e perpassa na Associação Juvenil de Auxerre, onde estreou profissionalmente. Antes da primeira consagração no Olympique de Marseille, passou pelo Martigues. Mesmo mostrando talento para o futebol, não teve muito sucesso em solo francês. Assim, em 1992, foi para o Leeds United, da Inglaterra. Na sua primeira temporada em solo inglês, jogou um ótimo futebol, que rendeu a ida para o Manchester United em 1993 a pedido de Sir Alex Ferguson, o maior treinador da história de Old Trafford. No United foi onde viveu seu auge com 185 jogos e 82 gols. O atacante da camisa 7 chegou a ser chamado de The King (o Rei) pela torcida. Ao todo, saiu campeão 14 vezes na carreira. Pelo Olympique de Marseille foram dois Campeonatos Franceses e uma Copa da França; no Leeds conquistou um Campeonato Inglês e uma Supercopa da Inglaterra; no Manchester, quatro Ligas, duas Copas da Inglaterra e duas Supercopas. Se George Best fez da camisa 7 do United um manto místico que encarna a alcunha de “diabo vermelho” dada ao clube, Cantona levou o espírito infernal a um novo patamar. Encrenqueiro, polêmico e incontestável em campo. Mas as maldições vieram junto. Como seu precursor, Éric nunca disputou uma Copa do Mundo. Se em 1982, o treinador Billy Bingham não quis levar o maior jogador da história da Irlanda do Norte ao Mundial da Espanha, o francês amargou a derrota de virada por 2 a 1 (um gol dele e dois de Kostadinov), que classificou a Bulgária para a Copa de 1994 contra uma França que jogava pelo empate. E quatro anos depois, já muito por suas confusões em campo, ficou de fora do selecionado de Aimé Jacquet, que seria campeão em casa – o que influenciou sua aposentadoria precoce aos 30 anos, em 1997. Antes de encerrar a carreira no futebol, ele começou a vida como ator. A primeira aparição foi no filme ‘A Alegria está em campo’. Outros trabalhos se destacam como ‘A fortuna de viver’, ‘Os profissionais do crime’ e coproduziu ‘Buscando Éric’ interpretando a si mesmo, na trama para ajudar um carteiro a refazer sua vida. Por conta disso, em 2009, fez parte da Seleção Oficial do Festival de Cannes. Na política, nunca escondeu seu lado pautado pelas lutas sociais e anticapitalismo. Numa entrevista ao jornal britânico The Guardian, chamou de terrorismo as ações das “grandes democracias”. “As grandes democracias vão para onde há milhares de anos de tradições e culturas, querendo que vivam conforme desejarem. Para mim, é um tipo de terrorismo, Um terrorismo econômico. E as grandes democracias são, de certo modo, ditaduras, porque querem impor sua visão”, disse. Em 2010, Cantona defendeu a revolução contra os bancos, pedindo que quem protestava contra a crise retirasse o dinheiro deles. Dois anos depois, publicou uma carta aberta no jornal Libération pedindo 500 assinaturas, que supostamente seriam para ser candidato à presidência. Mas não passou de uma jogada de marketing em prol da construção de moradias populares. A política brasileira não foi esquecida pelo The King. Nas eleições de 2018, Cantona deixou claro ser contra o então candidato Jair Bolsonaro ao publicar uma foto de Sócrates no Instagram. Alguns dias depois, em vídeo com a legenda “#elenão”, expôs mais seu lado: “quando vejo a seleção brasileira aceitar jogar um amistoso na Arábia Saudita, por muito dinheiro eu tenho certeza, consigo entender por que milhões de brasileiros estão dispostos a votar em Bolsonaro”. Portanto, Éric Cantona não foi somente um ótimo jogador de futebol. Foi e ainda é um exemplo a ser seguido fora de campo pelas suas convicções. Ele soube como poucos usar seu prestígio no futebol para ser um importante personagem nas lutas políticas. Hoje, o francês completa 55 anos de vida devotados ao futebol, à cultura, ao cinema e à política sem se esquecer de suas origens.

40 anos de revolução no time do povo

Formação da Democracia Corinthiana completa 40 anos em 2021; mobilização de atletas do Corinthians impulsionou movimentos pelo fim da ditadura empresarial-militar no Brasil Crônica por Norberto Liberator Narração por Felipe Mafra Edição de vídeo por Adrian Albuquerque Radicalizar a democracia não é fácil. Por terras brasileiras, nunca conseguimos. Muito menos se poderia conseguir quando vivíamos sob uma ditadura comandada por generais. Era preciso estar muito fora de órbita para querer uma gestão democrática direta, com o próprio povo no comando de cada decisão política. Só podia ser coisa de corintiano. O time do povo desafia a lógica. Naquele ano de 1981, quando o Brasil ainda amargava a ditadura empresarial-militar, com João Figueiredo batendo seus incríveis 95% de inflação, ninguém diria que o Corinthians deixaria de viver sua própria ditadura, comandada com mão de ferro por Vicente Matheus –– que ao exemplo de seu par, naufragava. O clube terminou a temporada nas últimas posições e teve que disputar a Taça de Prata, análoga à atual Série B. Os ventos pareciam soprar a outro rumo e uma maior participação dos atletas e funcionários começava a se desenhar, quando chegou o sociólogo Adilson Monteiro Alves para ser diretor de futebol. Em debate na PUC, reunindo Juca Kfouri, Sócrates e o próprio Adilson, surgiu o nome para um novo movimento, anotado por Washington Olivetto num guardanapo: Democracia Corinthiana. Com TH, diferente do que manda a ortografia. Porque o Corinthians desafia a norma. Desafia e ganha, porque o Corinthians é maior do que a norma. O Corinthians conseguiu aumentar sua torcida, mesmo ficando 23 anos sem um título sequer. E a Democracia Corinthiana conseguiu tornar os votos das lavadeiras, das faxineiras, dos copeiros, dos cozinheiros e dos jogadores tão importantes quanto os dos dirigentes nas decisões do clube, num país que ainda vivia sob os mandos e desmandos das fardas verde-oliva. O motim dos marujos conseguiu comandar coletivamente o timão. Algo que até hoje o Brasil não conseguiu. Ou por acaso a vontade popular tem alguma relevância nas decisões do Parlamento? É claro que não parava por ali. Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon e companhia não se contentavam em mudar a gestão do Corinthians. Se o Corinthians era a pátria de chuteiras dos favelados da zona sul de São Paulo; das travestis da Rua Augusta; ou dos operários do ABC que passaram ao largo do tal milagre econômico, que vibravam na arquibancada segurando seus radinhos, em gritos emocionados que evidenciavam a banguelice antes dos 40 anos, então a tal pátria amada idolatrada também precisava do Corinthians. E o time do povo não deixou o povo na mão. Lá estava o escrete da Democracia Corinthiana nas manifestações por eleições diretas. Lá estava Sócrates em 1982, na Espanha onde nasceu Vicente Matheus, erguendo seu punho como os Panteras Negras enquanto encantava o mundo com a camisa amarela da melhor seleção que não ganhou uma Copa, assim como a camiseta amarela das Diretas Já representaria o maior movimento que não teve sua reivindicação atendida. Mas houve vitórias sim. Ainda naquele 82, o Corinthians entrou em campo com a frase “Dia 15 vote”. No dia 15 de novembro, milhões de brasileiros foram às urnas votar para governador, sem serem obrigados. Em 2021, completam-se 40 anos do início daquele movimento, que provou de uma vez por todas que futebol é muito mais do que um jogo. E que títulos são apenas um detalhe. Adrian Albuquerque Repórter e diretor de audiovisual       Jornalista, editor de vídeo, sucinto e entusiasta de alguns filmes. Interessado em artes, cultura e política. Diretor do documentário “Isto não é uma entrevista”. Norberto Liberator Editor-chefe       Jornalista, ilustrador e cartunista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Felipe Mafra     Bacharel em Filosofia, professor e agitador cultural. Siga a Badaró nas redes sociais!        

Aquela cabeleira loira ao vento do mítico zagueiro Fabricio Coloccini

Agora com 39 anos, zagueiro continua vivendo seu sonho como se fosse uma jovem promessa no San Lorenzo de Almagro Por Álvaro Ramírez Arte por Marina Duarte Traduzido do espanhol por Gabriel Neri Fabricio Tomás Coloccini, nascido em Córdoba, na Argentina, segue sendo forte zagueiro com bons resultados no futebol de primeira divisão. Agora, com 39 anos, continua vivendo seu sonho como se fosse uma jovem promessa no San Lorenzo de Almagro, de Buenos Aires, que joga o futebol de elite argentino. Seu futebol já começou a ser visto quando atuava nas categorias de base do Argentinos Juniors, campeão da Libertadores e um dos clubes mais tradicionais do país portenho. A Sementera del Mundo (Sementeira do Mundo) como é conhecido por revelar grandes craques do futebol argentino como Diego Maradona, Juan Román Riquelme, Esteban Cambiasso e outros bons atletas mais contemporâneos como Lucas Barrios, ex-Palmeiras e Grêmio, e Lucas Biglia, campeão da América com o River Plate. O primeiro clube a se interessar por Coloccini foi o Boca Juniors em 1998. Seu ótimo porte físico e sua gana na defesa o fizeram estrear com o time de La Bombonera diante do Unión de Santa Fé com um gol. Essa partida foi de suma importância e definiu os rumos da vida do jovem jogador, então com 16 anos. Osvaldo Coloccini, pai e empresário do jogador, forçou a saída de Fabricio por conta do talento do filho. Ele foi para a Itália, jogar em uma das melhores equipes daquele momento, o Milan de Maldini. Mesmo com sua qualidade, a transferência não deu certo. Foram poucos jogos pela equipe do treinador Carlo Anceloti e o jogador retornou à Argentina para jogar no San Lorenzo em 2001, por empréstimo. Depois de algumas dezenas de jogos com o Ciclón, começou a rodar por vários clubes. Sempre desfilando sua cabeleira loira em inúmeros campos do mundo, tornou-se um jogador imprescindível. No San Lorenzo, foi campeão do Torneio Clausura do Campeonato Argentino, sendo titular incontestável do plantel de Manuel Pellegrini. Com os resultados coletivos e individuais aos 18 anos, chegou à Seleção Argentina sub-20. Seu começo avassalador também o rendeu uma conquista fácil de Copa do Mundo sub-20, sendo o capitão. Depois da passagem pelo Nuevo Gasômetro, transferiu-se para o Deportivo Alavés, da Espanha. Porém, ele poderia ter ido para outro time ibérico, o Real Zaragoza. Só que a boa relação do Milan, dono dos direitos esportivos do jogador, com o time azul e branco ajudou no desfecho. A estreia no time de Alavés, que era o atual vice-campeão da Copa da UEFA (atual Liga Europa), foi diante do Tenerife, com vitória. Ele possui dupla nacionalidade (argentina e italiana), não ocupando vaga de estrangeiro na equipe. No norte espanhol, ficou somente uma temporada. Sua evolução e maturidade como zagueiro fizeram com que o Atlético de Madrid tivesse interesse em seu jogo. Coloccini também ficou somente uma temporada nos colchoneros, indo depois para o Vilarreal, que participou da Copa da UEFA. Em Valência, na temporada 2003/2004, teve uma ótima fase na carreira. No time que tinha Riquelme como destaque, o objetivo de se classificar para alguma competição europeia foi cumprido. Mesmo assim, ele não ficou em terras espanholas por conta de seu contrato. Após as aventuras, voltou ao Milan, onde novamente foi uma decepção. Não conseguia se adaptar de nenhum modo e, no time do San Siro, ficava longe das boas fases. Em mais um retorno na carreira, Fabricio voltou à Espanha para jogar no Deportivo La Coruña. Agora, com um novo estilo de jogo, era um jogador elegante, firme e veloz. Só que antes da apresentação na equipe espanhola, foi à Grécia disputar as Olimpíadas de Atenas em 2004, onde a Seleção Argentina foi campeã. A transferência do jogador custou 3 milhões de euros ao Deportivo. E foi naquele clube que ele viveu seu auge. Tornou-se referência dentro e fora de campo. Sempre seguro e com muita raça nas partidas. Dentro da cancha, o defensor deixava a pele e a alma por seus companheiros. Sua importância era tão grande que ele jogou todas as partidas da equipe entre a temporada 2005/2006 e 2007/2008. Com essas atuações, foi jogar na Premier League, da Inglaterra, pela equipe do Newcastlle United. A transferência à equipe inglesa foi para dar a ‘cereja do bolo’ para a carreira. Esse foi considerado seu último grande desafio por disputar e Coloccini também se mostrou peça chave do plantel alvinegro. Onde o escalavam, ele funcionava. Foram grandes noites no Saint James Park. Lá, ele jogou por dez anos, sempre fiel ao clube, sem mudar suas cores, como se fosse um torcedor. Contudo, depois de cerca de 300 jogos em solo inglês, saiu da Premier League para voltar aonde tinha sido campeão em 2001, o San Lorenzo de Almagro. Agora segue jogando futebol com a mesma vontade. Fabricio Coloccini teve toda uma vida dedicada ao futebol, superando adversidades e passando por muitas equipes. Álvaro Ramírez       Jornalista em formação pela UIC Barcelona, com passagens por veículos catalães como Kodro Magazine, La Ronda Radio, Espetáculos BCN e La Trece TV. Gabriel Neri Repórter     Estudante de jornalismo, amante de futebol sul-americano e da América Latina. MARINA DUARTE produtora-executiva     Ilustradora, acadêmica de psicopedagogia, estudou jornalismo. Militante feminista interessada na profunda transformação social.