Votos sem cabrestos

Diferente de discursos xenofóbicos ou mesmo de simplificações rasas, maior adesão por candidatos petistas à presidência no Nordeste não ocorre por votos de cabresto, mas por fatores diversos de uma dinâmica complexa Por Carolina de MendonçaArte por Iara Cardoso A cada quatro anos, durante o mês de outubro, já é de praxe. Seja nas redes sociais, nos espaços públicos na região centro-sul ou em colunas e comentários nos jornais, a xenofobia contra nordestinos costuma ser intensificada. Historicamente, a região Nordeste é conhecida por votar majoritariamente nos candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT) para a presidência da República. Um clássico xingamento, disfarçado de análise política usada pelos críticos, é que o Nordeste seria “Brasil profundo” dominado por coronéis. Não restam dúvidas de que, nos nove estados da região, há famílias que por décadas comandam a política local. É o caso da conhecida nacionalmente família Sarney no Maranhão, cujo patriarca José Sarney (PMDB) chegou à presidência do Senado Federal e do país, ou da família Magalhães, recém derrotada para o governo da Bahia por Jerônimo Rodrigues (PT), o primeiro indígena a ser eleito governador no Brasil, em um pleito marcado por fraude racial do adversário ACM Neto (União), que chegou a se declarar negro. No entanto, pequenos grupos dominarem uma enorme região não é uma problemática nordestina, mas do capitalismo, em especial pela colonização iniciada em capitanias hereditárias, onde hoje estão principalmente os estados do Nordeste.  No estado de São Paulo, o mais populoso do país, há décadas a família Covas tem participação direta na política — em 2020, mesmo com o candidato Bruno Covas (PSDB) apresentando estado avançado de câncer, que o levaria a óbito em maio de 2021, ele foi eleito prefeito da capital paulista, derrotando Guilherme Boulos (PSOL) nas urnas. Ou a família Tebet no Mato Grosso do Sul, como já mostrado em reportagem da Revista Badaró, que domina a política local e teve com Simone Tebet (MDB), senadora de destaque durante a CPI da Covid e candidata à presidência da República, maior visibilidade nacional. Ainda que os votos à esquerda na região Nordeste sejam fortes para a presidência, não são homogêneos nas eleições locais. No último pleito, Sergipe teve, em todos os municípios, vitória de Lula desde o primeiro turno, porém elegeu majoritariamente deputados federais e estaduais de direita, como o bolsonarista Laercio Oliveira (Progressistas), eleito ao Senado Federal, e o também bolsonarista Fábio Mitidieri (PSD) ao governo estadual, que venceu o senador petista Rogério Carvalho. Uma outra justificativa usada para menosprezar as escolhas eleitorais da população nordestina é a pobreza da região, traduzida pelo argumento de que esta “votaria pelo estômago”. A terrível analogia coloca o sujeito que passa fome como incapaz de ter um pensamento crítico e sugere que o impacto direto nas necessidades básicas para sobrevivência não seria um motivo razoável para suas decisões políticas. Os comentários ofensivos ou especulações sobre o voto da região são, acima de tudo, ignorantes, não demonstram uma compreensão da complexidade da política dos nove estados e não pensam o país de forma ampla. O veículo independente Marco Zero Conteúdo, situado em Pernambuco, buscou, junto a professores de universidades nordestinas, quais seriam os motivos que levam essa população a votar. As motivações são amplas e é possível traçar análises diversas. Uma região não é capaz, e nem deveria ser, de carregar o país nas costas, mas os votos têm sido importantes para neutralizar o avanço da direita no Brasil. Desde 2002, os candidatos petistas à presidência da República venceram no Nordeste, inclusive na dolorosa eleição de 2018, que levou ao poder o fascista Jair Bolsonaro, na época pelo PSL. Naquele ano, nos nove estados, o professor Fernando Haddad (PT) venceu no segundo turno, mesmo não sendo uma figura tão conhecida em território nordestino. Apesar de o voto dar o cargo a Bolsonaro, não se pode dizer que as eleições ocorreram de forma democrática. A incitação ao ódio, o disparo de mensagens com informações falsas, o pânico moral, a prisão de seu principal opositor e até a alegação de fraude das urnas eletrônicas – mesmo após a vitória – estiveram presentes na disputa de 2018. Naquele ano, o cadastramento de biometria também fez com que milhões de títulos de eleitor fossem cancelados no Brasil, a maior parte no Nordeste. O medo de que a esquerda moderada retomasse a presidência fez com que as instituições trabalhassem a favor do fascismo, limitando os direitos civis da população por uma questão burocrática. Não se deve entender o episódio como uma problemática pontual ou atribuir uma culpa à população pela desinformação, já que muitos municípios nordestinos ainda vivem desertos de notícias. O ocorrido em 2018 foi um golpe à democracia. Em 2019, o governo Bolsonaro teve um início nada bom para a região, que naquele ano sofreu com um derramamento de óleo no litoral que afetou os ecossistemas, em especial a  restinga e o manguezal, além de comunidades ribeirinhas, pesca e turismo locais. Além do impacto pessoal para os moradores, que têm a praia e os rios que desaguam no mar como parte do cotidiano e identidade, os habitantes passaram por um enorme afastamento físico desses espaços, apesar de manterem a proximidade geográfica.  Durante a pandemia de Covid-19, foi criado o Consórcio Nordeste, visando amenizar a negligência vinda do presidente que debochava das milhares de mortes no país. Alguns por táticas políticas, outros por posicionamento ideológico, uns de forma mais evidente, outros de forma bastante discreta, o certo é que todos os governantes da região se posicionaram contrários ao bolsonarismo. Mesmo aqueles que, dentro de seus estados, permaneceram com práticas similares ao então presidente. A população nordestina, em sua maioria, repudia Bolsonaro. O que fez em 2022 figuras como ACM Neto (BA) e Fábio Mitidieri (SE) esconderem suas afinidades e aproximações com o presidente, ignorando acenos e tentando criar associação à figura de Lula.   Arte: Iara Cardoso Não apenas há um ódio a Bolsonaro, como um carinho por Lula – mas não um fanatismo –, uma identificação com esse retirante de Pernambuco, ex-metalúrgico que teve sua vida política

Quanto custou o voto do seu candidato?

Levantamento da Revista Badaró indica que eleições movimentaram em torno de R$ 5,21 bilhões de recursos de partidos políticos Por Gabriel NeriArte por Marina Duarte O Brasil em 2022 teve as eleições gerais que definem os mandatários ao Poder Executivo nacional e estadual pelos próximos quatro anos. Além dos cargos de presidente e governador, se elegem deputados federais e estaduais para um mandato de quatro anos. O Senado Federal é composto por 81 senadores e 27 foram eleitos para assumir o cargo em 2023. Levantamento feito pela Revista Badaró com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre votação e as receitas que cada candidato teve para este pleito indica que os recursos de partidos políticos somam R$ 5,21 bilhões. Para verificar somente quanto custou de recurso público, foram desconsideradas as doações que cada candidato recebeu. Não houve distinção entre o FEFC e o Fundo Partidário. Assim, ambos estão somados. Alguns candidatos não constam nas receitas recursos públicos recebidos ou tiveram os votos anulados. Desse modo, as médias não foram calculadas. Além disso, o cálculo para o custo-voto (divisão do valor recebido pelo número de votos) leva em conta somente a votação de primeiro turno. Para conferir quanto custou o voto de cada candidato do Brasil, confira na tabela abaixo. Há a opção de fazer a busca com base no nome de urna utilizado pelo candidato no pleito de 2022. Legislativo federal Seguindo a ordem de votação da urna, o primeiro cargo é o de deputado federal. O maior custo voto foi de Nonato Baleco (PROS-MA) que teve 10 votos para os R$ 300 mil de receita. Talita Canal (PL-RR) recebeu 11 votos para os R$ 200 mil. Adriana Mendonça (PROS-AM) custou R$ 12,5 por cada um dos 240 votos recebidos. O Sargento Isaias (DC-TO) recebeu apenas um voto e custou R$ 8.150. Todos eles não foram eleitos. Para o cargo de senador da República, o Distrito Federal concentra os dois com os maiores custo-voto. Ambos perderam para ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves (Republicanos-DF). Marcelo Hipólito (PTB-DF) recebeu R$ 520 mil e teve apenas 1841 votos. Carlos Rodrigues (PSD-DF) teve custo de R$ 177,21. Os três seguintes são de Roraima, que perderam para Dr. Hiran (PP-RR). Eles somam R$ 3,66 milhões e 23,4 mil votos. Com custo de R$ 177,18, Maranhão do Povão (PDT-RR) foi o terceiro na lista. Telma Mota (PROS-RR) teve R$ 3 milhões e cada voto custou R$ 152,99. Por fim, Sanderson Moura (PSOL-RR) custou R$ 109,93. Dois candidatos não receberam votos, mas custaram R$ 13.489,23. Ambos são do Democracia Cristã. Elaine de Jesus, de Minas Gerais, recebeu R$ 2,5 mil. O outro é Gonzales Filho, do Maranhão, que teve mais de R$ 10 mil para sua campanha. Eleições de 2022 De acordo com dados do TSE, o país teve 156.454.011 de eleitores aptos a votar. Ao todo, foram eleitos 27 governadores, 27 senadores, 513 deputados federais, 1.035 deputados estaduais e 24 deputados distritais. Para compor esses cargos, foram 28.274.  O órgão ainda não divulgou o quanto foi gasto para a execução das eleições de 2022. Os últimos números consolidados são de 2020. Nas eleições para prefeitos e vereadores no país, o pleito custou mais de R$ 730 milhões. O ministro do Supremo Tribunal Federal e vice-presidente do TSE, Ricardo Lewandowski informou no dia 30 de setembro que os custos das eleições seriam superiores ao do último pleito. A declaração foi dada em evento do programa de observadores e convidados internacionais para as eleições gerais deste ano, organizado pelo TSE. Ele estimou que o valor giraria em torno de R$ R$ 1.334.833.932. O custo por eleitor seria de R$ 8,53. Fundo partidário A Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995, alterada pela Lei nº 11.459/2009 prevê recursos públicos para os partidos políticos do Brasil. O primeiro é o Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, denominado Fundo Partidário. Esse é constituído por dotações orçamentárias da União, multas, penalidades, doações e outros recursos financeiros que lhes forem atribuídos por lei. O outro é o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) que os partidos podem utilizar no período eleitoral para disputar a eleição. Ao todo, o Brasil tem 32 partidos registrados no TSE. A regra de divisão do FEFC é a última eleição. 2% do recurso devem ser divididos entre todos os partidos. Já 35% dos recursos devem ser divididos entre os partidos na proporção do percentual de votos válidos obtidos pelas siglas que tenham pelo menos um representante na Câmara dos Deputados.  Em relação ao cálculo da bancada na Câmara, 48% dos recursos do FEFC serão divididos entre os partidos na proporção do número de representantes na Câmara dos Deputados na última eleição. Os 15% dos recursos do FEFC que devem ser divididos entre os partidos, na proporção do número de representantes no Senado, devem ser contabilizados aos partidos para os quais os senadores foram eleitos. Gabriel Neri Estudante de jornalismo, amante de futebol sul-americano e da América Latina. MARINA DUARTE Ilustradora e quadrinista pantaneira. Feminista antiproibicionista interessada pela profunda mudança social. Twitter Youtube Facebook Instagram

Lula: uma trajetória em 13 fatos marcantes

De retirante a primeiro presidente da República a ser eleito em três ocasiões, confira momentos históricos da biografia do metalúrgico pernambucano Por Norberto Liberator e Vitória Regina Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes. Vitória Regina Marxista e psicóloga. Debate política, psicologia e cultura. Twitter Youtube Facebook Instagram

Quem é Capitão Contar, candidato símbolo da hipocrisia ultraconservadora

Candidato ao governo de Mato Grosso do Sul subiu nas intenções de voto após apoio de genocida e segue cartilha extremista com pautas morais e suspeitas de corrupção Por Adrian Albuquerque (texto), Guilherme Correia (texto) e Norberto Liberator (arte) Após ter crescimento expressivo nas intenções de votos ao ser mencionado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), durante debate eleitoral, o candidato ao governo de Mato Grosso do Sul Capitão Contar (PRTB) – que se posicionava entre os últimos nas pesquisas – ficou em primeiro na disputa, com 27% dos votos válidos, seguido por Eduardo Riedel (PSDB), com 24%. Ainda que ambos tenham declarado apoio a Bolsonaro – Riedel, inclusive, é aliado da senadora eleita Tereza Cristina (PP) –, o militar aposentado do Exército, de 38 anos, possui algumas das mesmas posições extremistas e ultraconservadoras de Bolsonaro e práticas que envolvem suspeitas de corrupção. Em seu plano de governo, ele tenta esconder questões que defende como parlamentar, como a proibição nas escolas de danças que, segundo ele, podem promover a sexualização precoce de crianças. Além disso, Contar já defendeu publicamente o uso da hidroxicloroquina durante a pandemia de Covid-19 e é autor do projeto de lei que proíbe a exigência de comprovante de vacinação em escolas. O militar também é autor do projeto que proíbe o transporte alternativo no estado e em 2019 prometeu “tirar da geladeira” o projeto da Escola Sem Partido, que visa censurar professores dentro da sala de aula. Senhor das armas Contar é defensor ferrenho da flexibilização de CACs (Certificados de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) – medida que facilitou a aquisição legal de armas pelo crime organizado e aumentou em 24% o número de assassinatos por armas de fogo de mão.         Ver essa foto no Instagram              Uma publicação compartilhada por clube de caça golden boar (@clubedecacagoldenboar) Alvo da Operação Ópla, desencadeada no dia 14 deste mês pela Polícia Federal, o clube de tiro Golden Boar, localizado em Maracaju, é suspeito de fornecer armas para o crime organizado. O estabelecimento segue funcionando normalmente e não só para os alunos armamentistas, obviamente inclinados a apoiar Bolsonaro, mas também pela eleição de Contar, conforme publicação feita na página do estabelecimento.        Ver essa foto no Instagram              Uma publicação compartilhada por clube de caça golden boar (@clubedecacagoldenboar) O deputado e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro em jantar com Rodrigo Donovan (proprietário do clube) e Marcos Pollon, recém-eleito deputado federal pelo PL   Vice problemático Humberto Figueiró (PRTB) é o vice da chapa de Contar e o maior doador para a campanha (R$160 mil). Por dever mais de R$ 45 mil em pensão alimentícia, ele chegou a ser preso em 2008 em Terenos, município a 31 quilômetros da capital. O mandado foi expedido pela Justiça de Presidente Prudente (SP), onde tramitou o processo de execução de alimentos. O candidato entrou na delegacia de Polícia Civil de Terenos às 14h51 e foi solto à meia-noite do dia seguinte, primeiro de abril de 2008, após pagamento do valor. Figueiró também foi acusado de golpe em briga por fortuna de família, que o acusa de burlar a partilha de bens e nunca ter dado nenhum centavo a familiares, após a morte do pai. “Toma lá dá cá”  Em vídeo de campanha política, Contar afirmou não fazer parte de “toma lá dá cá” político. Entretanto, recebeu apoios de figuras carimbadas na política sul-mato-grossense. O ex-prefeito de Campo Grande Marquinhos Trad (PSD), acusado de assediar mais de 10 mulheres no gabinete e o ex-governador André Puccinelli (MDB), preso duas vezes por corrupção, são algumas das figuras que se mostram alinhadas a Contar, bem como o pastor e ex-prefeito Gilmar Olarte, preso por corrupção e lavagem de dinheiro. O próprio ex-capitão afirmou em entrevista à afiliada da Rede Globo, TV Morena, que “quando essas lideranças liberaram suas bases para nos apoiar em votos, isso é muito bem-vindo”. Olarte, preso desde maio de 2021, afirmou apoiar Contar e disse que a esposa do candidato, Iara Diniz Contar (PRTB), foi “braço direito” durante a gestão municipal em Campo Grande. Contratos milionários A publicitária e empresária, aliás, tentou receber R$ 1,2 milhão usando documento falso na falso na Justiça para tentar se apropriar de empresa. Em ação de 2019, a Ricon Comércio de Produtos em Geral cobrou montante judicialmente através de Termo de Confissão de Dívida. Mas em sentença deste ano, ele foi considerado simulado. O TCE (Tribunal de Contas do Estado) fez inspeção presencial na prefeitura de Ribas do Rio Pardo em busca de documentos de contrato  milionário entre a administração municipal e a empresa Diniz Ação em Marketing Ltda, que tem como sócia-administradora Iara Diniz Contar, esposa do Capitão Renan Contar (PRTB), candidato ao governo de Mato Grosso do Sul. A ordem para o trabalho in loco foi do conselheiro Jerson Domingos e publicada em 20 de maio. O contrato 131/2015 é de prestação de serviços nos setores de publicidade, marketing e propaganda. Segundo o TCE, a inspeção já foi realizada na prefeitura de Ribas do Rio Pardo. Entretanto, o relatório ainda não foi apresentado pela Divisão de Fiscalização. O valor inicial do contrato de publicidade era de R$ 600 mil. Contudo, ao longo dos anos, a prefeitura fez oito termos aditivos. Conforme planilha elaborada pelo tribunal, o total final contratual chegou a R$ 2.580.708,33, no período entre 10 de novembro de 2015 e 10 de novembro de 2020. Patrimônio Na comparação com a receita declarada em 2018 à Justiça Eleitoral, Contar ficou 628% mais rico em quatro anos. Há quatro anos, quando foi eleito deputado estadual, o capitão aposentado declarou R$ 80 mil de patrimônio ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já neste ano, declarou R$ 583 mil de bens. Entre os bens listados este ano, encontram-se três veículos, duas contas poupança que somam R$ 91 mil e outros créditos no valor de R$ 96 mil. Em 2018, Contar era dono apenas de uma motocicleta no valor de R$ 80 mil. Apoio endinheirado Apesar de defender uma imagem de “campanha pequena” que remeteria a uma luta entre Davi e Golias, Contar usufruiu do

Badaró entrevista Sofia Manzano, candidata à Presidência da República

Sofia é postulante do PCB ao Executivo nacional Por Leopoldo Neto (roteiro e condução), Vitória Regina (roteiro e condução) e Norberto Liberator (roteiro e arte)Colaborou Guilherme Correia Nenhuma outra legenda no Brasil possui tanta longevidade quanto o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Entre períodos na clandestinidade, rupturas (conhecidas como “rachas”), sabotagens externas e internas, mas também participações decisivas em mobilizações e conquistas sociais no Brasil, o Partidão chegou, em 2022, a seu centenário. Em 1917, mesmo ano da primeira revolução socialista vitoriosa na história da humanidade, o Brasil também passou por um marco na agitação política de esquerda: a greve geral que resultou, entre outras conquistas, no teto de oito horas de trabalho diário – à época, as jornadas costumavam ir de nove a 12 horas. Embora naquele momento o anarquismo, sobretudo a vertente anarcossindicalista, predominasse entre as organizações de trabalhadores, a paralisação foi um embrião para a formação de um partido de vanguarda. É o que diz Astrojildo Pereira, um dos fundadores do Partidão, em artigo publicado em 1952 na revista Problemas. A fundação do PCB em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna, traz relações diretas com o evento. Ali estavam Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Patrícia Galvão (Pagu), futuros representantes de um braço histórico do partido, o dos artistas e intelectuais. Deste também fariam parte Jorge Amado – que, como deputado federal, foi autor da lei que criminalizou a intolerância religiosa –, Cândido Portinari, Ana Montenegro, Graciliano Ramos, Dias Gomes, Oscar Niemeyer, Mário Schemberg, entre outros. Dentre  figuras de destaque, há ainda atletas, como o boxeador Waldemar Zumbano, o jogador de futebol Leônidas da Silva e o ex-jogador, jornalista e treinador João Saldanha. Durante estes 100 anos, fez-se impossível falar sobre história da política brasileira de forma séria sem citar o PCB, o que se torna uma ironia quando se pensa na visibilidade dada hoje, nos grandes veículos de comunicação, às candidaturas do Partidão. O pavor da burguesia se mantém, mas de outra forma. Se Yedo Fiuza, prefeito de Petrópolis e terceiro colocado na eleição presidencial de 1946 (quando obteve 10% dos votos), enfrentou uma intensa campanha de difamação, a economista e professora Sofia Manzano enfrenta a falta de espaço. Na contramão da grande mídia, a Badaró conversou com Sofia (sem interrompê-la). O material bruto pode ser conferido também em nosso canal do YouTube. Revista Badaró: Você iniciou sua militância no PCB, em 1989, período que foi marcado pelo colapso da União Soviética. O partido, naquele ano, lançou candidatura de Roberto Freire (Cidadania), que hoje é um político de direita. Três anos mais tarde, a partir de um golpe interno, a legenda mudou de nome e hoje, ainda mais descaracterizada, ele compõe a chapa da ruralista Simone Tebet (MDB). Como se deu a disputa interna dentro do partido naquele momento e como se deu a reorganização do PCB enquanto uma legenda marxista-leninista? Sofia Manzano: É interessante, principalmente para quem é mais jovem e só tem o conhecimento da década de 1980, do colapso da União Soviética e da implantação do neoliberalismo no Brasil nos anos 1990 através da escola, dos livros, e agora da internet, dos meios de comunicação, é importante dizer que naquele momento a gente vivia um verdadeiro turbilhão de acontecimentos, no Brasil especialmente, por diversos motivos. O PCB, partido que agora, em 2022, completou seu centenário, já era um partido muito antigo no Brasil, mas que passou o período da ditadura sendo duramente perseguido e grande parte ou a totalidade do seu comitê central, sua direção máxima, que sobreviveu, foi exilada. E nesse exílio, na Europa, mas também na União Soviética, uma parte desse comitê central começou a abandonar, já nos anos 1970, a perspectiva revolucionária. E quando voltam para o Brasil, a partir de 1979, com a saída de Luís Carlos Prestes, inclusive, que estava em contradição com esse – digamos assim – abandono, pela maioria do comitê central, da perspectiva revolucionária, há uma hegemonia dentro do PCB das posições reformistas, inclusive já com práticas de direita mesmo, mesmo ainda no PCB. Para se ter uma ideia, nos anos 1980, na retomada da democracia no Brasil, o PCB apoiou candidatos como Antônio Ermírio de Moraes, em São Paulo, ou Moreira Franco, no Rio de Janeiro, nas eleições estaduais. Então, já havia um processo de degeneração ideológica e política por parte da direção nacional do partido. Ao mesmo tempo, os anos 1980 no Brasil eram anos de ascenso da luta de classes, com a reorganização da classe trabalhadora, mesmo que fora das diretrizes “revolucionárias”, mas é um momento de ascenso da luta de classes com as greves do ABC, os movimentos das Diretas Já, com a consolidação do Partido dos Trabalhadores (PT) ou da Central Única dos Trabalhadores (CUT), como uma central sindical que se contrapunha às práticas burocráticas e pelegas das outras centrais que existiam.  Todo um movimento de euforia com relação à extensão de direitos – tanto é que esse movimento que vai crescer nos anos 1990 – é que impulsiona a Constituição de 1988 ter sido tão progressista, tendo em vista que, no restante do mundo, o que estava havendo era o contrário. Já era um processo de regressão tanto por conta do colapso que já vinha ocorrendo nos países socialistas, na União Soviética e no Leste Europeu, mas também nos países capitalistas, com a implantação do neoliberalismo e da destruição do mínimo que existia de programas sociais-democráticos clássicos dos partidos sociais-democratas clássicos, como o Partido Trabalhista na Inglaterra ou os partidos comunistas e sociais-democratas europeus em geral. Por um lado, a direção do PCB vem com uma ideia reformista e abandona a perspectiva revolucionária; e já passa a apoiar posturas eleitoreiras e de direita, e por outro lado, o movimento da classe trabalhadora está em ascensão e é capitaneado pelo PT, pela CUT e o MST, por exemplo, que foi fundado em 1984. E, ao mesmo tempo, o grande capital está impondo um retrocesso generalizado das políticas e da luta de classes em nível mundial. Tudo isso