Quem cuida da saúde mental do LGBT?

Por Carolina de Mendonça A comunidade LGBT+ é composta de sujeitos que se encontram em desacordo com o padrão imposto de expressão de gênero e sexualidade. A desconformidade surge, pois há uma norma social opressora de lógica cis-heteronormativa, que violenta quem diverge dos padrões. Tal repressão tende a gerar angústia nos indivíduos, levando a problemáticas de saúde mental. Contudo, profissionais de saúde, inclusive mental, nem sempre sabem lidar com as questões trazidas por pessoas LGBT+  em relação à sexualidade e/ou gênero. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a homossexualidade¹ deixou de ser considerada uma patologia, sendo retirada da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), apenas em 1990. Em 2018, foi anunciada a retirada da transexualidade da lista de transtornos mentais, válida a partir de 2022 com a 11ª edição do CID, reforçando a Resolução CFP nº 01/2018, que orienta profissionais a eliminar preconceitos contra transexuais e travestis. A psicologia enquanto discurso ético-político se posiciona pelos direitos humanos, sendo vedado pelo Código de Ética Profissional quaisquer formas de preconceito. Contudo, há intensas batalhas sobre o uso de terapias de reversão sexual (popularmente conhecidas como cura gay), mesmo esta sendo considerada uma forma e de tortura.  Na última eleição do Conselho Federal de Psicologia (CFP), em agosto de 2019, a chapa “Movimento Psicólogos em Ação” de número 24 na campanha tinha propostas de “valorização da família brasileira”. A chapa ficou conhecida como “Chapa Cura Gay” e foi defendida por Heloísa Bolsonaro (esposa de Eduardo Bolsonaro). Dentre os(as) psicólogas(os) votantes no país (101.377), 5.458 votaram na chapa 24, porém esta derrota não simboliza vitórias para a psicologia. Ao contrário, a existência de tal proposta e mais de 5 mil profissionais de psicologia que ativamente concordaram com esta,  são demonstrações de uma prática violenta na atuação de muitos profissionais. Uma derrota para toda a sociedade brasileira. Poucos meses antes da eleição, o CFP, junto aos Conselhos Regionais, lançou um importante livro sobre as violências sofridas por LGBTs e seus impactos na saúde (biológica, psicológica e social),“Tentativas de Aniquilamento de Subjetividades LGBTIs”. A obra, que tem distribuição gratuita e pode ser baixada no site da instituição, conta com diversos relatos de violências LGBTfóbicas sofridas em vários contextos, inclusive, por profissionais de psicologia. Para ampliar o debate sobre a temática, encontrei quatro profissionais de psicologia sobre temas relacionados à atuação da psicologia frente a sujeitos LGBT. Aline Pompeu é psicóloga clínica, psicodramatista e mestra em psicologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), e participa do grupo de pesquisa SexUs. Apesar de ter desenvolvido sua pesquisa de mestrado sobre a saúde lésbica, Aline não teve matérias curriculares sobre sexualidade e gênero durante a graduação; seu interesse em nível acadêmico se iniciou ao estudar uma matéria optativa com o professor Elder Cerqueira (coordenador do SexUs), sobre introdução à sexualidade humana. Aline também fez pesquisa durante a graduação dentro do grupo do SexUs. Apesar de ter uma graduação recheada de estudos sobre sexualidade, Aline afirma que foi por si própria uscar o tema, pois não havia dentro do currículo básico de sua formação, mesmo sendo um tema tão vital na prática psicológica. A passos lentos, a sociedade caminha para a compreensão de que questões determinantes de gênero precisam ser pautadas, nos diversos contextos sociais em que o sujeito se insere, como escola, trabalho, ambiente doméstico, religiãocontexto religioso. A psicóloga nos trouxe questões importantes no desenvolvimento de identidade sexual e a dificuldade que um terapeuta, que não tenha compreensão dessa dimensão, pode ter, como casos em que a pessoa performa, ainda na infância, características que estão além da identidade de gênero imposta ao nascer. “Uma pessoa que não tenha o mínimo de entendimento sobre identidade de gênero pode se confundir e acreditar que existe uma confusão mental, que requer um tratamento terapêutico, quando a criança pode muito bem estar só brincando de ser criança e desenvolver sua identidade de gênero” Por conta dos crescentes debates sobre o tema de diversidade que tomaram a sociedade em diferentes espaços, aumenta o interesse por essas questões. Contudo, nem sempre o assunto chega a todos que têm essa curiosidade e, até mesmo, aos que  precisam desteconhecimento para a atuação profissional, como é o caso de psicólogas(os). Isto dificulta a atuação para além de lidar com diversidades de gênero e sexuais, como aponta Aline Pompeu: “O conhecimento não necessariamente chega até eles porque é isso: não faz parte da grade curricular. Então, acho que, uma disciplina de diversidade, que não trate só sobre diversidade de sexual e de gênero, mas  também com diversidade racial, com diversidade socioeconômica, é uma disciplina importantíssima. Diversidade de habilidade… Se a gente for pensar nas pessoas com deficiência e no quanto na psicologia, pelo menos na minha formação, não [se] foi instruído a lidar com a deficiência. Mesmo com a deficiência auditiva, [já] que a gente não é nem instruído para saber falar em libras. Se  a gente for pensar nesse sentido, os profissionais de psicologia não estariam necessariamente capacitados para nem as demandas de sexualidade e gênero e nem as demandas de outras diversidades, mas não posso falar [dos profissionais] em sua maioria, com certeza. É o que observo a partir dos currículos que fui conhecendo de universidades daqui, de Sergipe, e de fora também.” Junto a um grupo de cinco amigas, também lésbicas, Aline organizou em 2017 um evento intitulado  “Fala, Sapatão!”. A proposta era uma pequena roda de conversa para que lésbicas e bissexuais dialogassem sobre suas experiências, vivências e demandas, criando um espaço de acolhimento. O grupo percebeu que os espaços de acolhimento estavam surgindo nas conversas de bar, mas sentiam a necessidade de conversar sobre essas temáticas de forma mais séria (e sóbria). A proposta era simples e, por ter sido realizada  à noite em uma praça na zona sul da capital sergipana, o grupo não esperava que houvesse um grande público. Para completar, no dia do evento houve muita chuva, deixando o espaço ainda mais inóspito . Contudo, surgiram mais de 40 mulheres e houve um debate, no qual foram explanados diversos temas, como a dificuldade ao

Suicídio: um problema de existências negadas

O tema do texto a seguir trata de um conteúdo complexo e infelizmente comum. Não recomendamos a leitura caso este tema seja sensível a você e possa te provocar grandes desconfortos. Em caso de sofrimento recomendamos buscar ajuda

A psicologia enquanto um discurso ético-político

A força da psicologia não pode ser utilizada enquanto instrumento de manutenção do status quo. Que seja uma ferramenta para superação das estruturas de opressão e, assim, para libertação de todos indivíduos Por Carolina de Mendonça  Colaborou Leopoldo Neto  O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural. (Código de Ética Profissional do Psicólogo) No dia 27 de agosto de 1962, o então presidente brasileiro João Goulart sancionou a Lei 4.119, que previa a formação e atuação trabalhista do psicologista – nome dado ao profissional de psicologia na época. Contudo, apenas em janeiro de 1964, com o decreto 53.464, o ofício foi regulamentado e somente em 1971 foi criado o Conselho Federal de Psicologia (CFP) – órgão que regulariza e fiscaliza a situação desses especialistas no Brasil. Formada em meio a uma democracia frágil, a psicologia só se regulamenta enquanto prática profissional nas vésperas do golpe civil-militar – que se perdurou em uma ditadura empresarial-militar de 21 anos. A psicologia, enquanto ciência e profissão, se inicia no Brasil servindo à lógica social e econômica vigente; afinal, a ocupação é transplantada com objetivo de auxiliar na modernização . Em tal âmbito, o país terceiro-mundista emergente passou a utilizar testes psicológicos para separar adultos (em organizações) e crianças (em escolas) entre as categorias de aptos e inaptos, o que gerou segregação através da ciência recém chegada. Logo ao chegar aqui, a psicologia também se operacionaliza nos manicômios –enquanto no continente europeu, cresciam os debates sobre abolição manicomial. Em todas regiões há manicômios, em todos os manicômios há denúncias de maus-tratos de funcionários. E a psicologia está lá, validando o discurso de poder de um suposto saber da psiquê daqueles internos. Felizmente, o movimento para fechamento dessas instituições chega no território nacional. A psicologia se mostra ativa na luta antimanicomial; e passa a integrar o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), por uma reforma psiquiatria – antipsiquiatria tradicional. Se ao chegar no território nacional, imerso em uma ditadura, a psicologia reforça opressões, poucos anos depois os psicólogos lutavam por uma democracia que possibilitasse direitos de cidadania a todos habitantes brasileiros. Apoia criação de estatutos voltados às minorias, reforma na saúde mental e criação do Sistema Único de Saúde – o essencial SUS. A psicologia nunca é neutra. Qualquer pressuposto que afirme uma neutralidade da ciência e da prática psicológica, demonstra um desconhecimento da área e um claro reforço à lógica vigente – lógica esta que é cruel, genocida e aniquila a subjetividade do outro. A psicologia, enquanto ciência e profissão, pode tanto ter um discurso de violência, ao reforçar o status quo que reduz o sujeito, como pode ser uma importante ferramenta de transformação social. Dependerá da forma que o profissional utiliza de seus conhecimentos – ou desconhecimentos– em sua prática. O discurso psicológico sempre é político, se não for associado a uma ética clara, que se baseei na Declaração Universal dos Direitos Humanos, acaba por desrespeitar a atividade profissional. A partir dos anos 1990, a psicologia lida com uma nova questão ético-política: o avanço dos psicotrópicos. A psiquiatria retoma com força, que só aumenta desde então, baseada em um discurso que limita o sofrimento do sujeito e o reduz a aspectos químicos, resolvíveis com remédios. O neoliberalismo se apodera desse discurso lucrativo e reducionista. O sistema de ideias vigente na psiquiatria cria uma forma de manicomialização – institucionalizando o agente por remédios. A simplificação da dor psíquica reduz o sujeito e produz uma necessidade de consumo. A medicalização não é de todo ruim, porém ao ser utilizada como forma de manter o paciente passivo a sua dor, acaba por destituir o seu potencial de transformar o contexto vivido, mas com suficiente força de trabalho para permanecer sendo explorado. A psicologia se mostra pouco crítica ao poder psiquiátrico, reforçando a lógica perversa que adoece o indivíduo. A psicologia brasileira tem uma grande história de clínica individual a ser superada. Não enquanto uma prática, mas enquanto uma lógica que individualiza os problemas do atendido a si mesmo – desajustes na força de vontade ou na forma de existir. A prática individual é uma maneira de transformação, contudo, ao alienar ao sujeito para além das estruturas que os cercam, os psicólogos tendem reforçar racismo, misoginia, LGBTfobia entre outras problemáticas. E não fortalecer o indivíduo a superar os discursos de opressão. A psicologia também reduz o sujeito na assistência social. Apesar de ser uma das áreas que mais emprega esses profissionais no país, a formação acadêmica é deficitária nesse aspecto. Problemas estruturais, como a negação de direitos e de violências são colocados a parte da psique e não como produtores ativos de adoecimento psicológico. Por causa da pandemia de Covid-19, o Brasil vive uma crise – sanitária, econômica, política, social e humanitária. Por seu turno, a crise sanitária trouxe à tona problemas sociais profundos causados pela lógica do neoliberalismo em um país que tem fome e morre por opressões sistemáticas. O discurso da psicologia se faz presente nesse contexto, porém sua força se dá ao reforçar o status quo. Para o sistema neoliberal, não há tempo para se elaborar a dor, mesmo com tantas dores potencializadas ou trazidas pelo espaço social. Afinal, O Brasil não pode parar. Os psicólogos e as psicólogas, no início da quarentena, se propuseram a sugerir para muitos trabalhadores formas de melhorar a produtividade no novo contexto. Propostas estas que ignoram problemáticas que afetam a saúde do sujeito e os reduzem a meras máquinas destituídas de subjetividade. O isolamento social foi catalisador para o aumento de violência doméstica. A negligência com indígenas aldeados causa um genocídio desta população. O isolamento entre encarcerados no país foi intensificado, não há visitas e se propõe julgamentos por vídeo-chamada. Nestes locais se prolifera o vírus, as torturas e se piora a saúde psíquica de um grupo abandonado. Crianças negras são assassinadas dentro de casa pela polícia militar. É ateado fogo em aldeias, quilombos, reservas ambientais e qualquer espaço de resistência ao perverso agronegócio. A “saúde mental”

Pandemia escancara projeto insustentável de país

Projeto genocida de Jair Bolsonaro escancara ainda mais impraticabilidade do neoliberalismo como projeto de sociedade – sistema econômico este que atua nas esferas objetivas e subjetivas do plano social

Pouca linha e muita dor: história do adorável Arthur Bispo do Rosário

Trajetória de artista plástico marginalizado social e esteticamente serve como estímulo para refletirmos sobre psicofobia, racismo e sobre quais são as memórias que merecem legitimidade. Aos loucos, que sejam dadas as linhas (tinta, barro, lápis e o que mais quiserem) a fim de diminuir suas dores psíquicas