Bombas, maoísmo e acusação de seita: o que é o P.C.B. ‘com pontos’, grupo sem relação com PCB e PCdoB

Grupo reivindica ligação com guerrilha peruana do Sendero Luminoso e é suspeito de implantar materiais explosivos em SP, PR e MS Por Norberto LiberatorColaborou Vitória Regina Correia Arte: Norberto Liberator “Viva o maoísmo”; “Viva a guerra popular”; “Viva a revolução democrática”; “Morte aos fascistas”; “Morte aos generais golpistas”. Estas são frases presentes em panfletos encontrados junto a materiais explosivos em algumas cidades do Brasil, em diferentes datas. No dia 8 de outubro de 2025, foi a vez de Campo Grande. O esquadrão antibombas do Bope local desarmou um artefato no terminal de ônibus Morenão, que liga o centro da capital sul-mato-grossense à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Junto ao explosivo, havia panfletos com as frases citadas no parágrafo anterior. De acordo com testemunhas, os materiais foram deixados por um homem com roupas pretas, óculos escuros e máscara cirúrgica, que teria passado mais de três horas de pé no terminal. Organizações comunistas rechaçaram a ação e negaram envolvimento. Os materiais fazem referência a uma organização autointitulada Partido Comunista do Brasil, que utiliza a sigla P.C.B., com pontos, diferentemente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Apesar da confusão gerada pelo nome, o P.C.B., anteriormente conhecido como PCB Fração Vermelha (PCB-FV), não guarda relação com as duas legendas, nem é um partido legalmente constituído. O grupo reivindica o maoísmo, ou seja, o pensamento de Mao Zedong (ou Tsé-Tung), que governou a China entre 1949 e 1976. Não é a primeira vez que materiais atribuídos ao grupo são encontrados junto a artefatos explosivos. E nem sempre foram desarmados. Em Londrina, em outubro de 2024, uma bomba caseira explodiu em uma feira, espalhando panfletos assinados com o nome e a sigla da organização. O material, intitulado “Eleição não, revolução sim”, pregava o voto nulo e a não participação na “farsa eleitoral”. Não houve feridos. Os artefatos, até o momento, têm sido de baixo potencial explosivo. Já em março de 2025, ocorreu uma explosão no Terminal Pinheiros, em São Paulo. À época, postagens e comentários em redes sociais atribuíam o ato a uma falsificação, supostamente feita por pessoas de direita, para difamar grupos comunistas. O jornalista William De Lucca, por exemplo, afirmou em sua conta no X que a referida organização não existe, e apontou que existem o PCB e o PCdoB. A vereadora Luna Zarattini, do PT de São Paulo, usou a mesma rede para dizer que se tratava de uma “armação grotesca” com “cheiro de armação da extrema-direita para criminalizar a esquerda”. Luna chamou os panfletos de “falsificados” e postou uma imagem, cuja legenda afirma que a sigla estaria errada. As posturas de Zarattini e De Lucca demonstram que as informações sobre o P.C.B. com pontos, inclusive o conhecimento sobre sua existência, são bastante obscuras mesmo em meios de esquerda. Já em maio do mesmo ano, outra bomba que acompanhava panfletos de mesmo teor foi desarmada no Terminal do Boqueirão, em Curitiba. O advogado Luiz David Alessi foi preso, suspeito de ter deixado o artefato no local. As câmeras de segurança mostram um homem com o material em uma sacola. Na casa de Alessi, foram encontrados panfletos com o mesmo conteúdo do que acompanhava o explosivo. Afinal, o que é o P.C.B. com pontos? Anteriormente autorreferido como Partido Comunista do Brasil – Fração Vermelha (PCB-FV), o P.C.B. com pontos é um grupo gonzalista, ou seja, de uma linha maoísta que segue a doutrina do peruano Abimael Guzmán, conhecido como ‘Presidente Gonzalo’. Guzmán, ou Gonzalo, foi o líder da organização guerrilheira Sendero Luminoso, que por décadas guerreou contra o Estado peruano até ser praticamente dizimada pelo ditador Alberto Fujimori, entre o final da década de 1990 e início do século XX. O P.C.B. com pontos possui um portal por onde publica seus comunicados oficiais, intitulado “Servir ao povo de todo coração”. O site é constantemente atualizado e os textos são escritos no léxico gonzalista: repletos de adjetivações elogiosas à linha e figuras de referência do grupo (“Todo-poderoso pensamento Gonzalo”, entre outros), bem como ofensas específicas (como “revisionista”) e termos próprios, como “guerra popular” e “revolução democrática”. Há menções frequentes à Liga dos Camponeses Pobres (LCP), grupo de luta no campo que possui orientação maoísta. Frequentemente, os gonzalistas são acusados por outras organizações de esquerda de ser uma seita. Um exemplo é o portal Esquerda Diário, ligado ao Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), que já chamou Gonzalo de “líder messiânico” e apontou que seus seguidores o consideram “infalível”. A expressão “guerra popular”, recorrente nos panfletos e comunicados do P.C.B. com pontos, é central no pensamento maoísta. Refere-se à ideia de uma insurreição prolongada conduzida pelas massas camponesas contra o Estado e o capitalismo. No contexto contemporâneo, o uso do termo é mais simbólico do que estratégico, funcionando como marcador ideológico e forma de distinção frente a outras correntes da esquerda. A escolha de uma sigla quase idêntica às do PCB e do PCdoB poderia indicar uma tentativa de inserção na disputa ideológica e política que atravessa o campo comunista. Ao acrescentar pontos entre as letras, o grupo aparenta buscar afirmar uma suposta ortodoxia marxista-leninista, apresentando-se como guardião da “linha correta” da revolução, ao mesmo tempo em que parece se beneficiar da confusão pública em torno das siglas históricas da esquerda brasileira. O nome “Partido Comunista do Brasil” com a sigla “P.C.B.” possivelmente faz referência à nomenclatura fundacional do PCB, formado em 1922 como seção brasileira da Internacional Comunista. Em 1960, a agremiação mudou sua nomenclatura para “Partido Comunista Brasileiro”, para reforçar o caráter nacional. Pouco depois, devido à adesão do partido às críticas da administração de Nikita Kruschev ao antigo líder soviético Joseph Stálin, a organização sofreu uma cisão, com a saída de um grupo dissidente que discordava da linha adotada. Este grupo retomou o nome “Partido Comunista do Brasil”, mas agora com a sigla PCdoB. A adoção, por gonzalistas, da alcunha de “Partido Comunista do Brasil” abreviado como “P.C.B.” é, possivelmente, a reivindicação de que seriam os legítimos representantes do antigo legado. Os militantes do P.C.B. com pontos não se

Travestis em cena: ColetivA de Trans para Frente leva corpos dissidentes ao palco e às ruas em Campo Grande

Grupo tem se apresentado pela cidade com equipe formada por travestis e pessoas trans Por Vitória Regina Correia Foto: Ana Laura Menegat A arte travesti ocupa, provoca e transforma. É com esse gesto político e estético que nasceu, em Campo Grande, a ColetivA De Trans pra Frente, primeira companhia do Mato Grosso do Sul formada exclusivamente por pessoas trans e travestis. Criada pela multiartista, professora e diretora Emy Santos, o grupo vem consolidando um espaço inédito de criação e de protagonismo para corpos historicamente marginalizados. Em 2024, a coletiva estreou seu primeiro espetáculo, O Culto das Travestis. A montagem voltou aos palcos em agosto de 2025, no Sesc Teatro Prosa, agora com um novo elenco. No próximo domingo (7), as artistas também sobem ao palco em participação especial no show da cantora Liniker, em Campo Grande — mais um marco de visibilidade para o grupo. O trabalho da ColetivA De Trans pra Frente mistura dança, teatro e performance para refletir sobre os espaços que pessoas trans e travestis ocupam — ou dos quais são sistematicamente excluídas. Para a fundadora e diretora do grupo, a multiartista e professora Emy Santos, a criação surge de uma urgência social e política. “A ColetivA De Trans pra Frente nasce da necessidade de unir artistas trans e travestis no Mato Grosso do Sul, levando propostas artísticas, culturais e pedagógicas que envolvem protagonismo. Desenvolvemos ações, encontros, oficinas, espetáculos e eventos, sempre com a intenção de levantar questões ligadas a gênero, sexualidade, raça e contexto social”, afirma. O principal trabalho da coletiva é O Culto das Travestis, que Emy define como mais que espetáculo: um rito de acolhimento e resistência. Criado a partir de pesquisas individuais e encontros coletivos, o projeto transforma vivências em arte e propõe novas formas de espiritualidade e sacralidade travesti. “Essa obra é um espaço de cuidado e escuta, porque justamente nos é negado esse espaço. Quando nos encontramos, conseguimos nos olhar, curar feridas e fortalecer nossos trabalhos. É uma resposta à violência e ao conservadorismo que tentam nos silenciar. Criamos arte para criar vida”, explica. Segundo a diretora, a montagem rompe com imaginários que reduzem travestis à marginalidade. Ao incorporar referências religiosas e espirituais em sua estética, a peça afirma que identidades travestis também podem ser sagradas, profanas e livres. O alcance do trabalho já ultrapassa as fronteiras nacionais. Com O Culto das Travestis, Emy Santos participou do Festival OFF Avignon, na França, levando ao cenário internacional a discussão sobre a arte trans contemporânea produzida em Mato Grosso do Sul. “O próprio nome do espetáculo é ousado e forte. Somos artistas que resistem, que transformam, e o nosso trabalho mistura performance, ativismo e cultura. Também criamos rodas de conversa e oficinas, espaços de cuidado para corpos historicamente marginalizados”, afirma. A recepção do público tem sido intensa. Na reestreia realizada no Sesc Teatro Prosa, em Campo Grande, uma procissão pelas ruas abriu a apresentação, seguida pela partilha de chá com a plateia antes da entrada no teatro. “As pessoas cantaram conosco, tomaram chá e entraram no espaço de outra forma. Muitos se emocionaram, choraram. Foi muito especial ver pessoas idosas presentes. Isso mostra que conseguimos furar a bolha”, relembra Emy. Mais que um grupo artístico, a ColetivA De Trans pra Frente se coloca como um ato de resistência. Entre palco e rua, suas ações reafirmam a presença e a potência de pessoas trans e travestis, não apenas em Campo Grande, mas em diferentes partes do mundo.   Instagram Twitter Youtube Tiktok

“Aqui não é lugar de viado”: violência expõe permanência de um Brasil estruturalmente LGBTfóbico

Jovem foi agredido no Centro de Campo Grande Vitória Regina Correia No último fim de semana, um estudante de 23 anos foi alvo de uma agressão violenta por um grupo de aproximadamente dez homens, nas proximidades da Feira Central, em Campo Grande/MS. O ataque, ocorrido em frente ao Armazém Cultural, é mais uma expressão das normas sociais q que buscam controlar como as pessoas devem se relacionar e se identificar quando o assunto é gênero e sexualidade. Segundo a vítima, as agressões tiveram motivação homofóbica, imediatamente após ele beijar outro rapaz — um gesto que subverte as expectativas normativas do espaço público. Uma das vítimas relatou que sobreviveu ao ataque apenas porque usava capacete. Esse ato de violência, marcado por ódio explícito, não é um episódio isolado. É a expressão de uma homofobia estrutural que atravessa as relações sociais brasileiras e que, historicamente, é reforçada por discursos e práticas que relegam pessoas LGBTQAPN+ a espaços de marginalidade e exclusão. O Brasil permanece, há mais de uma década, entre os países que mais matam a população LGBTQAPN+. Em 2024, foram registradas 291 mortes violentas motivadas por LGBTfobia, um aumento superior a 8% em relação a 2023, segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia, a mais antiga organização LGBTQ+ da América Latina. Campo Grande figura como a 5ª capital mais perigosa para essa população, atrás apenas de Cuiabá, Palmas, Teresina e Salvador. Essa posição revela como a violência contra LGBTQAPN+ não está restrita a grandes centros ou a regiões específicas, mas é parte de um padrão nacional, marcado por desigualdades regionais, impunidade e um cenário político que, em muitos momentos, legitima a intolerância. A declaração dos agressores de que “aqui não é lugar de viado” não é apenas justificativa verbal de um ato de violência, mas a enunciação performativa de uma norma que demarca quais vidas podem habitar o espaço público — e quais devem ser expulsas dele. Trata-se da atualização de uma política não codificada juridicamente, mas sedimentada nas práticas sociais, que reafirma a precariedade de corpos e práticas considerados dissidentes e nega a eles o direito de existir sem medo. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Momento de mobilizar é sempre, defende Glauber Braga

Deputado conversou com a Badaró sobre o processo de cassação de seu mandato, conjuntura nacional e perspectivas para o futuro Entrevista: Vitória Regina Correia e Norberto Liberator https://www.youtube.com/watch?v=gxQdEUiUF00 Glauber Braga é um dos principais quadros da esquerda brasileira emergidos após a primeira “era Lula”. O friburguense tinha 20 anos quando o operário se tornou presidente da República pela primeira vez. Aos 26, assumiu o cargo de deputado federal pelo Rio de Janeiro. Filho de pais brizolistas,  cresceu em um lar de esquerda. Aprendeu com sua mãe, Maria da Saudade Braga, a não baixar a cabeça para os interesses da burguesia e de seus representantes na política institucional (Saudade foi prefeita de Nova Friburgo entre 2001 e 2008. Hoje, Glauber enfrenta mais um desafio contra a direita oligárquica: um processo de cassação que, se consumado, seria a maior pena já imposta pelo Conselho de Ética da Câmara. Isso porque expulsou, a empurrões e pontapés, um militante de extrema direita que o ameaçou e ofendeu a honra de sua mãe. Para que o drama tome ares de comédia, como é comum no Brasil, o próprio relator do caso já agrediu fisicamente um jornalista dentro da Câmara e nunca foi punido. O parlamentar do Psol tem percorrido o Brasil, em caravana, para defender seu mandato e explicar que não se trata de uma luta pessoal, mas do enfrentamento aos que pensam ser donos do país. Em Campo Grande, encontrou-se com militantes no sindicato dos professores, a ACP, e falou com exclusividade à Badaró sobre o processo, governo Lula, conjuntura nacional e perspectivas para a esquerda no Brasil e no mundo. Confira: Badaró: Você tem afirmado que a sua condenação no Conselho de Ética está ligada a interesses do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira. Inclusive chegou a ser dito que seu mandato seria mantido desde que pedisse desculpas ao Lira. No entanto, você diz que pedir desculpas pra ele seria o pior que perder o mandato. Ao optar por esse embate direto e não pela negociação, você acredita que pode inspirar novas lideranças a não se acomodarem e aceitarem esse “toma lá dá cá” como regra?  Glauber Braga: Quando se estabelece, você não consegue mais parar. A briga que nós vamos fazer para além da salvação do mandato, é uma briga contra o poder ilegal. Lira é a representação mais gritante do que é o poder oligárquico no Brasil. É gente com muita grana, um poder incontrolável, e para além disso, que utiliza de todas as ferramentas para subjugar o seu oponente, o seu inimigo.  Ou a gente reage a isso, ou o que vai acontecer é a amplificação, a ampliação e a manutenção de poder permanente do poder oligárquico. Eu considero sim, respondendo a tua pergunta, espero que essa ação, como a minha foi inspirada por outros, outras pessoas, outros mandatos, a fazerem essa luta contra o poder oligárquico. Mas isso não nasce de mim. Eu sou inspirado pelos movimentos de luta, pelas organizações de luta que já fazem isso. O militante do MBL envolvido na confusão do vídeo fez insinuações sobre sua mãe, Maria da Saudade Braga, que morreria pouco tempo depois. Você poderia explicar melhor sobre a trajetória política da sua mãe e, na sua avaliação, qual é a motivação de ter um nível tão baixo de provocação?  Minha mãe é uma mulher que cavou o chão com as unhas, nordestina de Natal, no Rio Grande do Norte. Que começa, no município de Nova Friburgo, a trabalhar como médica de família, quando na época o programa nem existia, mas ela já atuava na zona rural do município e trabalhava também discutindo prevenção à gravidez na adolescência nas escolas do município. Sou filho de um casal de brizolistas: Saudade, minha mãe e Roberto, meu pai.  Minha mãe, então, por conta desse trabalho de base que ela já realizava, é convidada a ingressar na época no PDT e ser candidata a vice-prefeita. Vem daí a trajetória dela. Ela é eleita prefeita rompendo uma polarização histórica de dois grupos políticos de direita. Então, ela é a primeira candidatura de força popular que se elege, de fato, na cidade com um programa à esquerda. De uma câmara de 19 vereadoras, em um determinado momento só uma vereadora apoiava o governo dela, e eles fizeram de tudo para derrubá-la.  E ela sustentou o governo fazendo mobilizações públicas na rua e com decisões judiciais contra as tentativas de cassação. Eu tenho muito orgulho de ter, inclusive, como militante participado dessa ruptura que ela fez na cidade. Sofreu muito, como as mulheres sofrem quando militam politicamente, quando exercem cargos como ela exerceu. Você tem uma ideia de um candidato, na primeira candidatura em que ela foi eleita prefeita, que no programa de televisão dizia “Aqui, nas minhas veias, corre sangue de friburguense e não caldo de rapadura”. Era esse o nível da campanha que ela enfrentava. As elites locais nunca aceitaram que ela tenha sido eleita prefeita. E daí veio uma reação muito forte do ponto de vista da misoginia e de todos os ataques que ela sofreu durante aquele período.  Minha mãe não era uma militante de formação feminista, mas ela fazia um governo feminista na prática. A maioria absoluta das secretarias era comandada por mulheres. Quem vem depois dela, um cara da direita, não tinha ninguém, não tinha uma mulher ocupando nenhuma secretaria.  Então, sempre que eles atacam a honra dela, eu me sinto na obrigação, não só porque ela é minha mãe e porque eu amo minha mãe, mas pelo que ela representou na luta de ruptura com as oligarquias de Nova Friburgo.  Uma trajetória parecida com a da Luiza Erundina. É isso aí. Eram amigas, inclusive, se parecem muito. Você tem sido uma das vozes mais fortes contra as privatizações. Diante de um Congresso majoritariamente favorável ao mercado e que coloca o governo federal como refém, quais são as estratégias viáveis para reverter ou ao menos barrar esse processo de desmonte do patrimônio público?  A principal tática tem que ser essa aqui. Tem

Eduardo Bolsonaro, o lesa-pátria

Filho de ex-presidente inelegível se dedica a planejar subserviência imperial e ataque à soberania nacional Vitória Regina Correia Nos últimos meses, Eduardo Bolsonaro, deputado federal licenciado pelo PL-SP e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem protagonizado uma série de episódios que intensificaram as tensões políticas e jurídicas no Brasil. Desde que solicitou licença de 122 dias da Câmara dos Deputados em março de 2025 e passou a residir nos Estados Unidos sob o argumento da defesa da liberdade de expressão, Eduardo expandiu ataques ao Supremo Tribunal Federal e incentivou interferências externas contra o Brasil. Sua atuação, marcada por discursos autoritários e alianças com figuras ligadas à extrema direita, mostra um projeto de poder que se ancora na destruição das instituições democráticas brasileiras. Durante entrevista concedida ao podcast Inteligência Ltda., Eduardo Bolsonaro, acompanhado de Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo, afirmou que o seu plano político está “seguindo de forma magistral”. Em sua fala, declarou que, se necessário, seria legítimo “incendiar a floresta inteira para caçar um bandido”.  No contexto da declaração, a floresta parece ser uma metáfora para o Brasil e o inimigo a ser caçado, ainda que não nomeado diretamente, é representado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e, por extensão, pelas instituições que impõem limites ao avanço da agenda autoritária bolsonarista. A frase sintetiza não apenas o desprezo pela institucionalidade democrática, mas também a disposição de destruir o país para salvar um projeto de poder. Na mesma entrevista, Eduardo defendeu que Lula deveria publicamente apoiar a anistia ampla e irrestrita a todos os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Argumentou que, agora que a esquerda está com o “chicote”, deve ser generosa, pois, segundo ele, caso a extrema direita volte ao poder, não defenderá qualquer tipo de censura ou restrição à liberdade de expressão. A afirmação tenta construir uma imagem de equilíbrio, mas revela uma lógica perversa de chantagem política, em que os princípios democráticos são usados como moeda de troca para garantir impunidade aos que atentaram contra a própria democracia. Ao tentar apresentar Jair Bolsonaro como um político “extremamente democrático”, Eduardo finge não lembrar de uma série de episódios que desmentem essa narrativa. Em 2016, durante a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Jair dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça brasileira como torturador e símbolo da repressão da ditadura militar. A exaltação pública de um agente do terror de Estado foi um gesto calculado e ideológico, que indicava com clareza o alinhamento da família Bolsonaro com o autoritarismo. Outra demonstração do desprezo de Jair Bolsonaro pela institucionalidade democrática foi o cartaz colado na porta de seu gabinete, quando ainda era deputado federal. A frase “quem procura osso é cachorro” zombava das famílias de desaparecidos políticos que, por décadas, buscaram por restos mortais de seus entes assassinados pelo regime militar. O gesto não foi apenas ofensivo, mas profundamente simbólico, pois negava o direito à memória, à verdade e à justiça, pilares indispensáveis à democracia. Em mais um momento marcante de sua trajetória política, Jair Bolsonaro apareceu em público ao lado de um homem que partiu ao meio a placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro. Em outra ocasião, o então candidato à presidência da República falou em “fuzilar a petralhada”, em referênciaaos apoiadores do Partido dos Trabalhadores. Esse tipo de declaração não é um desvio isolado, mas parte de uma prática sistemática de incitação à violência, de deslegitimação dos adversários políticos e de flerte constante com a ruptura democrática. A defesa da anistia irrestrita por parte de Eduardo Bolsonaro, feita em nome da liberdade de expressão, é, na verdade, uma tentativa de reabilitar o projeto golpista derrotado nas urnas e condenado nas ruas. Não há nada de republicano em pedir perdão para quem organizou, financiou ou participou de atos que buscaram subverter a ordem democrática. A proposta não visa a reconciliação, mas esquecimento. Quando Eduardo fala em incendiar a floresta, não se trata de uma figura de linguagem vazia. Ele está, mais uma vez, defendendo a destruição simbólica e concreta do país em nome da manutenção de um projeto autoritário e excludente. Ao contrário do que diz, não é a liberdade que está em jogo, mas o direito de seguir impune. O Brasil precisa de memória, justiça e verdade, não de pactos com quem insiste em repetir os erros mais brutais da nossa história. Instagram Twitter Youtube Tiktok