Angola: uma tragédia com atuação brasileira

Em abril de 2002, chegava ao fim a Guerra Civil Angolana, conflito que teve participação do Brasil e das principais potências da Guerra Fria Por Norberto LiberatorColaboraram Mylena Fraiha e Guilherme Correia A ancestralidade e a guerra Gabriel Ambrósio nasceu e cresceu em meio aos anos de guerra. Natural da província do Zaire, é licenciado em Letras pela PUC Goiás, mestre em Estudos de Linguagens pela UFMS e autor do livro “Áfricas Ocultas”, no qual explora aspectos sócio-religiosos tradicionais africanos e como eles impactam a história do continente. Ambrósio conversou com a Badaró sobre o conflito em Angola, sua influência sobre a produção literária do país e seus efeitos nos dias atuais. O pesquisador explica que, durante a Guerra Anticolonial – travada contra Portugal e que se antecipou ao conflito civil –, a religiosidade e a ligação com a ancestralidade foram centrais para os movimentos de libertação. “Havia a crença de que as balas que vinham das tropas opostas às de Portugal não poderiam matar os nativos. As pessoas tinham fé na espiritualidade africana. De que a sua força ancestral os protegeria. E claro, houve contextos em que foram protegidos, nas guerras, principalmente no começo, onde eles não tinham armamento”. Para Ambrósio, a espiritualidade dos guerrilheiros angolanos os incentivou a travar sua luta, já que se encontravam em desvantagem em relação ao poderio militar. “Em Angola, começou com pedaço de pau, punhal e facões. Foram esses os instrumentos usados para começar a atacar os portugueses nas fazendas, principalmente no norte – Cassanje, Malanje, Mbongo”, explica. Ele também destaca o papel que os idiomas locais e os códigos de escrita tiveram na resistência ao colonialismo. “A língua portuguesa era fácil de ser decodificada. Hoje, nós temos alguns jovens que não têm nem um pouco de noção sobre as línguas africanas faladas em Angola, mas no passado antigo, combatentes tinham domínio de uma, duas, três, quatro ou mais línguas nativas. Do ponto de vista linguístico, tem pouco mais de 30 línguas em Angola”. Ambrósio explica que essas línguas costumavam ser utilizadas como forma de driblar o controle português, já que os colonizadores não as dominavam. “Me recordo que as forças tinham um código de escrita que usava oralidade, mas também uma escrita que não era oficial, ou seja, os termos eram codificados e isso circulava no centro da cidade – na capital, Luanda –, onde havia o governo geral de Angola e portugueses”. Gabriel afirma que os portugueses “não conseguiram decodificar como eram escritas e quais mensagens eram aquelas”. O professor lembra que essas passagens fazem parte da historiografia oficial do país. “Isso está registrado na história de Angola. Para ver como foram importantes as línguas africanas, a sua oralidade e a sua espiritualidade”. O pesquisador acredita que tais tradições têm se perdido e lamenta que, diante da globalização capitalista, o continente africano esteja atualmente entregue ao neoliberalismo e, politicamente, haja pouco espaço para a busca por uma identidade própria. “O que tem acontecido hoje, inclusive, pelos próprios países africanos, do ponto de vista geral e em particular em Angola, é a agenda ocidental. Não temos uma agenda que é africana, uma agenda que os países africanos seguem”, conclui. A outra guerra angolana: Cabinda Paralelamente à guerra civil que opôs o MPLA à Unita e à FNLA, uma região vivia um conflito separatista contra forças angolanas. Trata-se de Cabinda, província localizada entre os dois Congos – Congo Brazzaville e Congo Democrático –, fora do território de Angola. A região convive ainda hoje com movimentos armados que lutam por independência. O principal grupo é a Frente para Libertação do Enclave de Cabinda (Flec). Durante o ano de 2022, as Forças Armadas Cabindesas (FAC), braço armado da Flec, e as Forças Armadas Angolanas travaram algumas batalhas. No dia 11 de abril, houve confrontos nos povoados de Kisungo e Tando Masele, no município de Belize. Angola vai às urnas em agosto e os independentistas pedem à população que boicotem o pleito. Gabriel Ambrósio aponta que as FAC já existiam e tinham força nos anos 70 do século XX. “Os cabindas desde os anos anteriores a 1975, quando se decretou independência, já tinham praticamente um exército. Esse exército, até hoje, ainda existe. Têm havido algumas integrações, mas não são suficientes para agradar a todos”, afirma. “Cabinda não teve paz do ponto de vista do calar das armas”. O professor acredita que, embora ainda haja a crença em libertação por parte de alguns militantes separatistas, o que mais influencia os grupos por independência é o desejo por autonomia econômica. “Existem aqueles que são mais presentes, não querem desvincular de suas ideias, mas também a questão territorial e principalmente do ponto de vista econômico. Cabinda é uma região econômica muito forte. Lá tem muita riqueza. Petróleo e madeira”. Caminhos e descaminhos do MPLA O MPLA abandonou sua orientação marxista em 1990, durante a profunda crise econômica e política nos países do Leste Europeu, então socialistas e governados por partidos teoricamente marxistas. A decisão foi tomada durante o congresso do partido naquele ano (VIDAL, 2016). Definiu-se, então, que Angola adotaria um sistema “multipartidarista” na política e “de mercado” na economia. No ano seguinte, a já desintegrada União Soviética deixaria de existir. Gabriel Ambrósio destaca o papel central do partido no aparelhamento das instituições. “Quando a gente fala da política de Angola, a gente está falando exatamente do MPLA, já que o partido está no poder desde a independência do país”. Para ele, quando o MPLA ainda exalta a simbologia e o discurso marxistas, “trata-se de um marxismo falacioso, porque ele não se dá na prática. Alguns jornalistas que acompanho, de anos anteriores e, especificamente, de jornais privados, diziam que o MPLA havia traído a si próprio”. José Eduardo dos Santos permaneceu no poder até 2017. Foram 38 anos de governo. “Zé Du” foi acusado de enriquecer a partir da corrupção e às custas dos baixos indicadores sociais da população. Sua filha, Isabel dos Santos, chegou a ser considerada, pela revista estadunidense Forbes, a mulher mais rica da África
A recepção de Jorge Amado na União Soviética

Jorge Amado foi bem recebido pela cultura soviética em todos os seus estilos; escritor brasileiro foi aclamado quando servia ao realismo socialista e acolhido quando resolveu abordar outros temas Por Vitória Regina Jorge Amado (1912-2001) é um dos autores mais consagrados do Brasil. O baiano está no topo de escritores mais traduzidos, além de liderar a lista de adaptação ao cinema, teatro e televisão. A popularidade internacional do romancista do povo não era comum aos escritores brasileiros — não naquele período. Inclusive, o escritor chegou a receber um certificado do Guinness World Records, em 1996, por publicar 32 romances em 48 idiomas e em 60 países. A popularidade da obra amadiana não respeitou os limites das fronteiras brasileiras e se estendeu até à União Soviética. Suspeita-se que Jorge tenha sido o escritor estrangeiro mais lido em todo o bloco soviético (1). Neste sentido, acabou tendo forte influência na cultura popular soviética e russa. O atual presidente do país, Vladimir Putin, afirma ter sido um capitão da areia (2), considerando que esse termo é utilizado na Rússia como sinônimo de criança de rua (SATO, 2019). Jorge foi acolhido e adorado pelos soviéticos, bem como foi modificado e lidou com diferentes problemas de tradução. Com a Revolução de Outubro de 1917, as obras literárias de cunho progressistas e socialistas ganharam maior espaço no país, principalmente após a década de 1930, quando as editoras privadas foram extintas e as publicações ficaram centralizadas em editoras estatais. No entanto, embora houvesse um incentivo às traduções de obras que se aproximassem da realidade do povo soviético, algumas obras acabaram sendo modificadas em razão do moralismo do tradutor, Iúri Kalúguin, ou por cunho ideológico. A aproximação de Jorge Amado com o movimento comunista, especialmente com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), assumiu forte influência sobre seus escritos. A exploração cotidiana — e o sofrimento dos trabalhadores do campo — ganharam forma bastante definida nos romances. O modelo do Realismo Socialista e a construção do que seria chamado “romance proletário” aceleraram sua popularidade no primeiro país a realizar uma revolução socialista (3). A recepção da obra amadiana foi tão impactante que o autor chegou a receber o Prêmio Stálin da Paz em 1951. O prêmio era entregue anualmente a pessoas que promovessem o fortalecimento da paz entre os povos, escolhidas por um Comitê Internacional. A literatura amadiana chegou à União Soviética ainda na década de 1930. O autor defendia que, segundo um amigo soviético, a primeira publicação acontecera em 1933, com Cacau. Todavia, nada consta na Biblioteca Lênin e tampouco no acervo da Fundação Casa de Jorge Amado — pode ser que traduções independentes tenham sido realizadas. A primeira publicação de Amado a se popularizar na URSS foi São Jorge dos Ilhéus, em 1948. A rápida popularidade pode ser explicada se considerarmos que a obra seguia a estética do realismo socialista, além de assumir um papel político de crítica ao capital, ao imperialismo norte-americano e de escancarar a exploração e o sofrimento dos trabalhadores do campo. O modo como Jorge narrava o sofrimento dos trabalhadores foi fundamental na construção da identificação entre público e obra. Não há dados concretos sobre as tiragens de Amado na URSS. Entretanto, conforme pontua Darmaros (2016), a trilogia de Terras do sem-fim, Seara vermelha e São Jorge dos Ilhéus sai pela editora Urojai, de Kiev, com 200 mil exemplares, entre 1981 e 1984; e Tenda dos milagres, pela Raduga, de Moscou, com 300 mil cópias, em 1986. (p. 226). A qualidade das traduções de Kalúguin é questionável e as edições estão sendo revistas atualmente. Na época, por questão mercadológica, houve uma verdadeira batalha entre editoras para saber qual seria a primeira a publicar Jorge Amado. Os livros também foram modificados a bel-prazer do tradutor, que, além das já citadas alterações por moralismo e recortes ideológicos, também mudou significados de termos. Após a morte de Stálin, em 1953, iniciou-se a política de ”desestalinização” orquestrada por Nikita Khrushchev e que visava eliminar a influência de Stálin da esfera pública. O Degelo de Kruschev promoveu o fim do culto à personalidade e atribuiu diferentes crimes ao líder soviético. Após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, Jorge Amado mudou o seu modelo de escrita e rompeu com o realismo socialista. No dia 11 de outubro de 1956, no jornal A Imprensa Popular (4), Jorge Amado assumiu arrependimento em ter guiado sua escrita — principalmente Os Subterrâneos da Liberdade — como uma atividade política. Posteriormente, desligou-se do PCB. No entanto, após romper com o Partidão, o escritor já era bastante popular na União Soviética e apesar de ter se distanciado do realismo socialista, as traduções de sua obra tornaram-se cada vez mais requisitadas. Arte: Norberto Liberator A mudança estética e literária é notada em Gabriela, Cravo e Canela, publicada na URSS em 1961. O livro marca o distanciamento de Amado da temática da exploração e do sofrimento dos trabalhadores e se aproxima do erotismo e da valorização da sensualidade feminina. Como supracitado, o principal tradutor do escritor alterou, motivado pelo moralismo e pela ideia de manutenção da tradição na literatura russa, trechos de erotismo. A distância entre a cultura brasileira e russa pode ser percebida na forma como estas consomem a carnalidade na literatura. À época, o que poderia ser considerado um erotismo leve para os brasileiros, para os russos seria interpretado como uma pornografia escandalosa. Um tropeço na tradução de Jorge Amado é relatado pelo atual tradutor Aleksandr Bogadanóvsk: Fico pensando o quão bom Jorge Amado era como escritor, já que conseguia angariar tanto amor do leitor russo mesmo que esse o recebesse de modo fortemente deturpado. E o problema não está só nos incontáveis erros. De um de seus livros, ”Gabriela, cravo e canela”, sai uma situação cômica. Na tradução, lê-se: ”Euforicos, o capitão e o doutor entraram no restaurante”. Em seguida, descreve-se a farra, e dela só saem o capitão e o doutor. O Euforicos, pelo visto, foi comido por eles. Mas, na verdade, ”eufóricos” é um adjetivo isolado
Kurt Cobain era um socialista?

Frequentemente relembrado por carreira musical e por polêmicas pessoais, posicionamento político do astro também é parte importante de sua trajetória