Com pesquisa pioneira, Rafa quer estudar em Portugal – e você pode ajudar

Artista negro, Rafael Dantas pesquisa sobre a branquitude na arte brasileira e conseguiu ser aprovado em mestrado na Universidade do Porto, porém precisa de ajuda no custeio da viagem Texto por Ana Laura MenegatArte por Norberto Liberator Rafael tem um sonho: Estudar em Portugal. Na verdade, tem muitos: viver de sua arte, ser pesquisador, completar o mestrado, mudar o sistema de ensino brasileiro e, principalmente, colaborar para uma educação antirracista. Rafael Dantas é um artista visual negro e sul-mato-grossense. É filho de mãe costureira e acadêmica de Letras; e de pai funcionário público, ex-marceneiro e formado em História. Na família dele, o mestrado sempre foi algo muito distante, uma meta sem a certeza de que se tornaria realidade. Virou. Atualmente, Rafael faz mestrado em estudos culturais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), instituição em que também se graduou. Apesar de o sonho estar em curso, ele ainda não assumiu sua rota ideal, que é a de fazer parte do mestrado em Portugal. Rafael recebeu a carta de aceite da Universidade do Porto (UP) para seguir os seus estudos no Programa de História da Arte, Patrimônio e Cultural Visual. Essa oportunidade foi proporcionada a partir de um convênio entre a UFMS e a instituição portuguesa, mas o acordo apenas oferece a isenção da propina, que, no português lusitano, é a taxa paga para estudar na UP — o que significa que todos os outros gastos ficam para o estudante. Com intuito de conseguir fundos para essa nova etapa, o artista lançou uma campanha de financiamento coletivo no Catarse: #RafaemPortugal. Rafael participa de projetos sociais e culturais desde os 13 anos, entre eles uma orquestra jovem. Entrou na graduação por meio das cotas para alunos negros oriundos de escolas públicas. Foi presidente do Centro Acadêmico de seu curso e também esteve à frente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMS. Atuou como bolsista de projetos de extensão e iniciação científica, que colaboraram para que ele conseguisse seguir estudando e despertaram o interesse do jovem pesquisador pelo meio acadêmico. Para ele, fazer pesquisa sobre a branquitude na arte brasileira vai além de estudos teóricos, mas também compõe um processo de se reconhecer e encontrar a sua própria identidade, além de ser um ato de resistência. “A ideia de escrever essa dissertação é para que um dia, outras pessoas não precisem sentir o peso do véu [do racismo], apenas o calor do sol em suas peles. Então, para mim, pesquisa é isso: um processo coletivo, não é individual, tem um propósito político e a minha pesquisa tem um propósito de emancipação também”, afirma.  Além disso, ele reforça que esse processo de pesquisa é colaborativo e precisa da troca de ideias. “Eu falo que a minha dissertação é escrita tanto dentro da universidade, quando dentro dos museus, quanto na confecção de costura da minha mãe, no quintal de casa. Minha mãe também é estudiosa, ela estuda sobre teoria feminista negra e ela é custureira na parte da tarde, e é ali que eu fico discutindo as coisas com ela”.  “Pensar em um mestrado em Portugal é expandir os diálogos afro-atlânticos, pensar as questões que eu pesquiso para além. A minha pesquisa é sobre a branquitude dentro da arte brasileira, e aí eu vou discutir sobre colonialidade, o processo de colonização e como isso vai refletir na arte. E pensando isso a partir de Portugal tem um ganho gigantesco, tendo em vista que é o nosso colonizador historicamente”, afirma ele. É possível doar através da página no Catarse e também acessar mais informações no perfil do pesquisador no Instagram. A campanha de financiamento coletivo vai até o dia 17 de agosto e qualquer valor é bem-vindo.  Ana Laura Menegat Estudante de Jornalismo, fotógrafa analógica e poeta. Apaixonada por histórias de vida e interessada em jornalismo com perspectiva de gênero. Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Twitter Youtube Facebook Instagram

Eurocopa 2004: a grande epopeia grega

Seleção helênica não precisava de técnica vistosa ou físico invejável, mas tinha inteligência e se armava bem na defesa e no ataque Por Álvaro Ramírez (para a Kodro Magazine)Tradução por Gabriel Neri e Norberto Liberator A seleção grega era uma das equipes mais discretas e fracas da história das Eurocopas. O futebol moderno não contou com mais um campeonato tão estranho e ímpar como aquela Euro de 2004. Depois de se classificar como um dos times menos cotados ao título, a equipe helênica chegava a Portugal sem uma estrela ou um treinador reconhecido. Mas os gregos foram capazes de chegar a sua segunda participação europeia e sair campeões. Se analisarmos cada um daqueles confronto eliminatórios, veremos alguns absurdos, uma lista de acontecimentos improváveis, oportunismo e sorte dos Helenos (como a seleção grega é conhecida).  A imprensa na época contou o título grego da Eurocopa de 2004 como “milagre” e “épico”. Os heróis do país banhado pelo Mar Mediterrâneo fizeram a final contra a Seleção Portuguesa que contava com Deco, Figo e Cristiano Ronaldo, que eram comandados por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, e venceram pelo placar mínimo.O treinador da Grécia, Otto Rehhagel, chegou à Seleção três anos antes, quando a Grécia disputou as Eliminatórias para Copa do Mundo de 2002 na Coreia do Sul e no Japão (Mundial do pentacampeonato brasileiro). O time fez somente sete pontos em oito jogos, tomando 17 gols e ficando em penúltimo do grupo 9, que tinha Inglaterra, Alemanha, Finlândia e Albânia. Diante do desastre, o treinador teve que mudar a forma de jogar da equipe para que pudesse competir. O primeiro passo foi blindar a defesa. O alemão Rehhagel havia treinado equipes como Bayern de Munique e Borussia Dortmund, ambos de seu país, e tinha a fama de ser da ‘velha escola’ com um sistema tático conservador. O treinador transformou a Grécia em um time duro e disciplinado. Mesmo sendo um time limitado pela falta de nível dos jogadores, a seleção azul e branca conseguiu se classificar para a Eurocopa de 2004. O time foi o primeiro do grupo 6, que tinha Espanha, Ucrânia, Armênia e Irlanda do Norte, com 18 pontos em oito jogos e fazendo apenas oito gols. Foram seis vitórias e duas derrotas. O time sabia sua forma de jogar e suas limitações. Assim, a união foi a força deste grupo sem nenhuma estrela. Não precisavam de uma técnica vistosa ou um físico invejável, mas tinham inteligência no posicionamento e se armavam bem na defesa e no ataque. Era um time que defendia em seu próprio campo, deixando o rival trabalhar a posse de bola e saindo rapidamente em contra-ataque, marcando as poucas chances que tinham de balançar as redes. A formação concentrava muita gente no meio-campo e na defesa para sair em bloco com as linhas juntas. O atacante titular, Charisteas, tinha que brigar com os zagueiros rivais para ficar com a bola. Em cada partido que jogavam, não sofrer gols era a máxima premissa. Às vezes jogavam com uma linha de quatro ou cinco atrás, dependendo da partida, e tinham vários ‘jogadores-chaves’ como o lateral-direito Giourkas Seitaridis, o lateral-esquerdo Takis Fyssas e o zagueiro Traianos Dellas. Outros jogadores importantes daquela geração eram o capitão Theodoros Zagorakis e Angelos Basinas. A dupla de volantes fazia a sustentação do meio-campo da equipe. Basinas era mais defensivo, tratando da saída de bola no meio dos zagueiros. Zagorakis trabalhava mais à frente, distribuindo o jogo e puxando a equipe para o ataque como uma meia de ligação. Completando o meio-campo, tinham Kostas Katsouranis, Stelios Giannakopoulos e o camisa 10 Giorgos Karagounis. Ele que jogava mais pelos lados de campo e tinha um toque mais refinado que os companheiros Campanha na Euro A Grécia chegou como cabeça de chave do seu grupo na Eurocopa de 2004 depois de sua surpreendente classificação nas eliminatórias. Os outros plantéis do grupo A eram o anfitrião Portugal, a Espanha e a Rússia. A estreia foi diante de Portugal e o time saiu vencedor por 2 a 1, com gols de e Karagounis e Basinas. O tento português foi feito pelo jovem Cristiano Ronaldo. Os jogos seguintes foram de sofrimento por conta dos tropeços na fase de grupos. Eles empataram por 1 a 1 contra Espanha e perderam para Rússia. Assim, foram quatro pontos e a segunda posição garantida para as quartas de final. A próxima seleção rival era a França, que estava em processo de reformulação depois da conquista de Copa de 1998, mas tinha Thierry Henry, Zinedine Zidane e Claude Makélélé. Aquele embate no José de Alvalade em Lisboa foi um dos mais previsíveis pelo contexto. A Grécia soube aproveitar suas oportunidades e concretizou sua superioridade. Jacques Santini, treinador francês, mesmo com seu time ganhando na posse de bola, não foi capaz de furar o ferrolho rival. Nikopolidis, goleiro grego, fez um jogo impecável e sereno. O castigo para os franceses veio na segunda etapa, aos 25 minutos. Charisteas após cruzamento de Zagorakis fuzilou de cabeça para as redes. Esse gol desanimou a Seleção Francesa e os afundou. Contra todo o prognóstico, Grécia era semifinalista. Além disso, foi a primeira vez que uma mesma equipe derrotou o anfitrião e o ganhador da edição anterior da Euro no mesmo torneio. Nas semifinais, o adversário era a República Tcheca no Estádio do Dragão em Porto, uma das melhores seleções do torneio e que tinha bons jogadores como Pavel Nedvěd, Tomáš Rosický e Milan Baroš, artilheiro da Euro com cinco gols. A equipe tcheca chegou invicta para o jogo com quatro vitórias. Mas assim como a França, a Seleção Tcheca sofreu para furar a defesa grega. Com o time de Otto cômodo com o empate, o jogo se estendeu à prorrogação. No final do primeiro tempo, Dellas foi o herói para levar a Grécia a sua primeira final continental. O rival seria novamente Portugal na finalíssima. A Grécia era o azarão diante do favoritismo português por ser um time em peças melhor e jogar em casa. O país lusitano

O povo é quem mais ordena

Há 46 anos, levante de oficiais derrubava ditadura salazarista em Portugal; Revolução dos Cravos deu fim a um dos mais longos regimes fascistas europeus e acabou com colonialismo português