Hiperobjetificação na cultura pop

Performances hipersexualizadas, sob pretexto de empoderamento e liberdade feminina, servem a interesses de submissão a fetiches sexuais masculinistas Melissa de Aguiar Performances cada vez mais sexualizadas. Clipes que objetificam a nudez feminina, com pernas abertas e closes de partes íntimas. A sociedade cada vez mais se dessensibiliza para o softporn, e cada vez mais é preciso radicalizar para alcançar o choque. Ao assistir videoclipes que eram considerados eróticos nos anos 2000, temos um choque ao perceber que nada daquilo nos surpreende mais. A dessensibilização da pornografia na cultura pop recebeu uma máxima representação com o filme ganhador do Oscar, Anora (2024). A exploração do corpo feminino sempre foi muito acentuada pela cultura misógina e se potencializou com o surgimento dos meios de comunicação, principalmente audiovisuais. Anora pode ser considerada a representação máxima desse fenômeno por ser uma visão masculinista – não apenas masculina –, da garota de programa. O diretor Sean Baker se envolveu em polêmicas por posturas pró-pornografia e por seguir páginas com conteúdo sexual de soldadas israelenses.  Em nossa cultura visual e globalizada de exposição cada vez mais extrema, a cultura pop tem promovido um cenário onde a sexualização do corpo feminino se tornou não apenas comum, mas esperada. Performances hipersensuais, quase mecânicas, são reflexos de um fenômeno chamado pela pesquisadora feminista Gail Dines de cultura pornificada. Mais do que estética, trata-se de uma estratégia de mercado que transforma mulheres em mercadoria – algo altamente lucrativo dentro do sistema capitalista. Segundo Gail Dines, vivemos uma banalização da pornografia na mídia, com imagens cada vez mais erotizadas, ainda que sutis. Influenciando nosso cotidiano e, principalmente, a construção da nossa sexualidade – cada vez mais moldada pela misoginia. Essa erotização, longe de ser libertadora, está mais associada à reafirmação de valores patriarcais do que a uma real emancipação feminina. (Ricci e Pereira, 2022) Primeira mulher trans a cursar doutorado na UnB e primeira gestora do sistema de cotas daquela universidade, a professora Dra. Jaqueline Gomes de Jesus (IFRJ) destaca que meninas jovens, especialmente das periferias, são empurradas para esse padrão em busca de reconhecimento. Referência em estudos sobre saúde mental de minorias, Jaqueline afirma que “para ser reconhecida como sujeito, essa mulher jovem, principalmente de correntes periféricas, só consegue ser vista e reconhecida por meio da sexualização e enquanto objeto sexual”, em entrevista a Sofia Albuquerque e Otávio Pinheiro.  Esse ciclo é reforçado por uma indústria cultural essencialmente masculinista, que lucra ao  sexualizar artistas mulheres. A objetificação tem consequências graves: contribui para a baixa autoestima, distúrbios alimentares, transtornos de imagem. Além disso, expõe crianças e adolescentes a um universo adulto sem a devida orientação, afetando o desenvolvimento emocional e social. A gravidez precoce, como aponta o Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa) em pesquisa de 2020, ainda é uma das maiores causas de evasão escolar entre meninas no Brasil. Colagem: Melissa Aguiar Para compreender a evolução desse fenômeno, é importante entender que esse apelo cada vez mais agressivo da nudez e da objetificação do corpo feminino das artistas do entretenimento tem uma origem histórica. Os ideais de libertação das lutas feministas nas décadas de 1960 e 1970 foram distorcidos pelo neoliberalismo e deram início ao que se chama de Revolução sexual frustrada.  Os avanços feministas foram cooptados pelo capitalismo e o que antes tinha um poder emancipador (discussões sobre gênero, sexualidade) foi resignado. Basta observarmos como os discursos sobre sexualidade e gênero migraram de uma perspectiva contestatória para uma de afirmação. A artista pop de hoje precisa não apenas cantar, mas expor detalhes de sua vida íntima e de seu corpo para ser notada. E quanto mais objetificada for sua imagem, maior será o alcance. É um ciclo que se retroalimenta pela própria sociedade, que valida tais práticas. Conforme Karla Costa (2022), professora Dra. da UECE e líder do GPOSSHE (Grupo de Pesquisa Ontologia do Ser Social, História, Educação e Emancipação Humana) aponta, não são as próprias mulheres que dominam a cultura pop. E, mesmo quando estão em posições de certa liderança, ainda assim suas escolhas são agenciadas por uma ideologia masculinista:  “[…] a indústria cultural é majoritariamente masculina, a sexualização das cantoras atende um mercado que não é dominado por elas; e a hipersexualização pode trabalhar mais para a própria opressão das mulheres do que para o seu empoderamento. […] O que eu quero destacar é que a sexualização das cantoras é uma estratégia e que essa estratégia só é um sucesso porque a sociedade consome esse tipo de conteúdo. É um processo que se retroalimenta. As mulheres são objetificadas, a objetificação das mulheres vende, as mulheres serão produtos e empresárias de sua própria objetificação. Por trás dessa lógica, está sim o capitalismo. No capitalismo, tudo é mercadoria”. A mulher é, para o capitalismo, uma das mercadorias mais rentáveis, já que desempenha tarefas úteis e não pagas. Na origem do capitalismo e em sua simbiose com a família nuclear, cabe à mulher-mãe-esposa a produção e cultivo da mercadoria mais importante: as pessoas, que vendem à burguesia a força de trabalho para extração de mais-valia nos locais de trabalho. Se o capitalismo permitir qualquer desobjetificação, valorização das mulheres, o resultado será oneroso aos cofres capitalistas. Quem aceitaria permanecer em casa nas funções de parir e cuidar das pessoas a serem exploradas? Onde serão feitas as refeições, quem cuidará dos bebês e dos idosos, se não for a dona de casa ou as trabalhadoras mal remuneradas? Desta forma, é importante entender que algumas mulheres podem sim contribuir no próprio processo de sua desumanização. Cada vez mais a indústria pressiona que “divas pop” construam uma visão de sexualidade feminina baseada na submissão. É comum notar um padrão de autoafirmação enquanto objeto de desejo masculino e não como pessoas que também desejam, que podem escolher ao invés de serem escolhidas. Conforme Gail Dines aponta, nossa sexualidade é interferida hoje pelos valores da indústria pornográfica.  Para entender melhor sobre a profundidade na qual está inserida a sexualização feminina na cultura, retomo o conceito de reificação, proposto por Lukács: A reificação, no pensamento