Lobby sionista: um papo com Ualid Rabah, presidente da Fepal

Representante da Federação Árabe-Palestina do Brasil comenta projeto de lei que cria “mordaça sionista” Por Norberto Liberator O PL 1424/2026, de Tabata Amaral (PSB-SP), visa alterar a definição de antissemitismo no Brasil, adotando o critério da definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). Um dos pontos mais polêmicos é a extensão do entendimento de “antissemitismo” às críticas feitas ao Estado de Israel. Conversamos com Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe-Palestina do Brasil (Fepal), sobre o perigo representado pelo projeto e a que interesses a proposta serve. Após as ilustrações, está a entrevista completa. Para ler em carrossel, clique nas imagens. Badaró: Como você avalia a possibilidade de aprovação do projeto de Tabata Amaral que criminaliza a luta antissionista? Sob um ponto de vista estritamente de maioria parlamentar, olhando de um modo muito simplório, poderia até haver uma suspeita de aprovação, mas acredito que as maiorias parlamentares não se realizam em situações muito absurdas como essa. Porque o projeto é estritamente inconstitucional. Tornou entre aspas “antissemitismo” o que seria próprio de antijudaísmo.  [Trouxe] a possibilidade de não judeus estarem cobertos por isso. O judeu por si só já não é semita necessariamente, se trataria de antijudaísmo. E como um não judeu poderia estar coberto pelo antijudaísmo – que é um dos elementos inovadores desse projeto de lei? Além do mais, ele é claramente inconstitucional.  E também ele vai prejudicar a política externa brasileira. Quer dizer que o Brasil vai ter que se retirar de todos os tratados internacionais, de todas as resoluções da ONU, que classificam o sionismo, o regime israelense como regime de apartheid, de genocídio. Por exemplo, o Brasil não vai poder manter-se na petição da África do Sul, que pede à Corte Internacional de Justiça a investigação de genocídio?  Então, tudo isso colocado na balança implica em graves riscos à ordem constitucional no Brasil, à ordem legal no Brasil e, claro, evidente que isso cria também perigos para a política externa brasileira. E pior do que isso, muito pior, e muita atenção a isso: transporta para o Brasil a vigência do regime de apartheid israelense. Já que nós podemos criticar quem quer que seja por cometer crimes de lesa humanidade, apartheid, genocídio e limpeza étnica, só não poderíamos criticar Israel. Quer dizer que haveria um regime legal de apartheid no Brasil, em que o beneficiário é o sionismo e o regime genocida de Israel.  Você acha que a apresentação do texto no Dia da Terra Palestina, e no mesmo momento em que Israel discutia a pena de morte para palestinos, não foi coincidência e sim uma diretriz de entidades ligadas ao lobby sionista?  Não foi mera coincidência. Ela tem um claro propósito de blindar Israel no momento mais dramático da vida desse regime frente à humanidade. No momento que ele comete o maior genocídio proporcional da história em Gaza contra homens, mulheres e crianças, a maior matança de crianças da história. 11 mil por milhão de habitantes contra 2.813, em seis anos da Segunda Guerra, por milhão de habitantes da Europa daquele momento, por exemplo. E obviamente que a legislação penal israelense institui a pena capital, a pena de morte, ao ser exclusivamente para não-judeus e os judeus não estarem sujeitos, é o escancarar do regime de apartheid.  Então, por exemplo, nós temos que dizer que essa legislação adotada pelo parlamento israelense é exclusivamente aplicada por um regime supremacista judaico contra não-judeus, os palestinos, e não é aplicada pelo mesmo regime supremacista judaico contra judeus. Então não é mera coincidência, e a deputada Tabata Amaral está rigorosamente implicada na defesa do genocídio do povo palestino e de blindar Israel do genocídio, e especialmente blindar Israel da talvez mais obscena forma de apartheid externalizada desvergonhadamente.  Deputados de esquerda que inicialmente assinaram o texto do projeto retiraram seus nomes. Isso teria se dado por pressão das bases e das direções partidárias?  Os parlamentares progressistas do campo civilizatório devem ter assinado isso por engano e, ao perceberem o erro, se retiram. Mas, claro que foi a pressão que levou a isso. Então, quando na quarta-feira à noite, eu fui entrevistado e coloquei essa questão e, em seguida, uma série de perfis e veículos de comunicação trazem a questão e os nomes dos parlamentares, dentre eles, estes progressistas, eles retiram os nomes.  Mas é preciso destacar que esses parlamentares sempre foram contra o genocídio, denunciaram o genocídio e mantiveram-se sempre a favor do povo palestino. Portanto, é preciso, sim, dar o crédito da boa fé dessas pessoas. Tabata Amaral as enganou. Portanto, é preciso, inclusive, também apurar este crime da deputada Tabata Amaral e eventualmente apreciar se ela não incorre em crime contra o decoro parlamentar.  E eu suspeito que ela poderia correr o risco de perder o mandato por esta manobra de enganar pessoas que sempre foram contra o genocídio, contra o apartheid imposto ao povo palestino, e subordiná-las ao escracho público e ao engano de apoiarem o genocídio. É como enganar alguém para apoiar o nazismo.  Evidentemente que a pessoa que foi enganada para apoiar o nazismo deve obter judicialmente reparação; e o parlamentar que teria feito isso, como fez a Tabata Amaral para apoiar o genocídio contra o povo palestino, deve responder inclusive com a hipótese da perda do seu mandato parlamentar e dos seus direitos políticos e eleitorais.  A narrativa de Israel como vítima tem se tornado cada vez mais impopular diante dos acontecimentos dos últimos dois anos. Isso faz com que o lobby sionista se torne ainda mais agressivo para fazer frente à luta em prol da causa palestina?  Muito inteligente a questão. Sim, é a história do leão que está com o espinho na pata. Quando você vai tirar, ele fica mais bravo. Os israelenses, ou sionistas, melhor dizendo, não contavam que o seu projeto de limpeza étnica na Palestina não tivesse sucesso e demorasse tanto, e com isso as pessoas fossem aos poucos enxergando a cara feia de Israel e do sionismo.  Então hoje, silenciar o mundo e criminalizar qualquer

Fundação do PSOL publica Cartilha Palestina Livre, com apoio da Fepal; baixe o PDF

Na última quarta-feira (19), foi realizado em São Paulo o lançamento da Cartilha Palestina Livre, material que pretende levar conhecimento básico sobre a Questão Palestina a iniciantes no tema, sejam ativistas e militantes da causa ou pessoas comuns. O lançamento ocorreu na sede da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco (FLCMF), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Participaram das discussões de apresentação do documento Nadja Carvalho (secretária de Relações Internacionais do PSOL), Soraya Misleh (coordenadora da Frente Palestina de São Paulo), Daniela Fajer (do coletivo Vozes Judaicas por Libertação), Dafne Melo (do coletivo Desorientalismos) e Ualid Rabah (presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil – Fepal). A diretora de Comunicação da FLCMF, Mariana Riscali, não pôde estar presente. Também esteve presente no evento Israel Dutra, secretário de Movimentos Sociais do PSOL. A Cartilha é uma realização da FLCMF, com apoio da Fepal, que auxiliou na sua revisão geral, seja para aspectos da redação, seja para inserção de elementos históricos fundamentais para melhor compreensão do que se dá na Palestina. Foram impressos dois mil exemplares neste primeira leva, que também tem uma versão digital em pdf. (acesse aqui ou no final da reportagem). Samir Oliveira, Ualid Rabah e Daniela Fajer durante lançamento da cartilha “Esta cartilha é fruto de muito trabalho, pesquisa e dedicação e está vocacionada a ser uma ferramenta de formação e informação para fortalecer o apoio à luta do povo palestino contra a colonização sionista”, diz Samir Oliveira, jornalista, coordenador de Comunicação da FLCMF e organizador da cartilha. “A parceria da Fepal foi imprescindível na concretização deste material, com um empenho incansável do presidente Ualid Rabah nesta construção. Temos, em mãos, um instrumento gratuito à disposição de todas as pessoas interessadas em aprender sobre a causa palestina e difundir o conhecimento sobre esta luta tão urgente e diretamente vinculada aos destinos da humanidade”, completa  Luciana Genro, presidente da FLCMF e deputada estadual pelo PSOL no Rio Grande do Sul, também concede grande importância à publicação do material. “Como Fundação de formação política do PSOL, é nossa obrigação impulsionar o conhecimento sobre a luta do povo palestino por liberdade e autodeterminação. O apoio à Palestina é um compromisso de primeira hora do PSOL e, com esta cartilha, nós, da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, damos uma contribuição na formação da militância nesta que é, sem dúvidas, uma das principais lutas do nosso tempo”, afirma. Para ela, “o apoio da Fepal foi inestimável nesta construção, engrandecendo e legitimando ainda mais este trabalho”. “Embora a esmagadora maioria das pessoas estejam sensibilizadas com os crimes de ‘israel’ em Gaza, com as imagens de crianças e mulheres destroçadas, elas não entendem as razões deste extermínio, não conseguem encontrar elementos históricos e políticos que expliquem”, observa o presidente da Fepal. Ualid Rabah adiante que este manual “traz exatamente respostas às perguntas mais básicas, como quando começou a tomada da Palestina, quem são os palestinos, donos da terra, porque foram expulsos por estrangeiros, porque hoje são refugiados em outros países e em partes da própria Palestina, como Gaza, como funciona o regime de apartheid de ‘israel’, porque o que acontece hoje é um genocídio, inclusive com os números desta catástrofe”. A Cartilha destina-se ao grande público, mais antenado sobre o tema ou iniciante, formado pela comunidade palestina ou não. É um material que contempla as necessidades de conhecimento tanto de um público envolvido com a Causa Palestina quanto leigo, daí um dos principais aspectos de sua relevância. “Achamos que os ativistas e militantes sabem tudo sobre a Palestina, mas isso também não é exato, por isso o manual auxiliará estes, nos partidos, movimentos sociais, outras entidades e mesmo no próprio movimento palestino no Brasil, especialmente em nossa juventude”, explica Rabah. Baixe gratuitamente a Cartilha Palestina Livre Instagram Twitter Youtube Tiktok