Eurocopa 2004: a grande epopeia grega

Seleção helênica não precisava de técnica vistosa ou físico invejável, mas tinha inteligência e se armava bem na defesa e no ataque Por Álvaro Ramírez (para a Kodro Magazine)Tradução por Gabriel Neri e Norberto Liberator A seleção grega era uma das equipes mais discretas e fracas da história das Eurocopas. O futebol moderno não contou com mais um campeonato tão estranho e ímpar como aquela Euro de 2004. Depois de se classificar como um dos times menos cotados ao título, a equipe helênica chegava a Portugal sem uma estrela ou um treinador reconhecido. Mas os gregos foram capazes de chegar a sua segunda participação europeia e sair campeões. Se analisarmos cada um daqueles confronto eliminatórios, veremos alguns absurdos, uma lista de acontecimentos improváveis, oportunismo e sorte dos Helenos (como a seleção grega é conhecida). A imprensa na época contou o título grego da Eurocopa de 2004 como “milagre” e “épico”. Os heróis do país banhado pelo Mar Mediterrâneo fizeram a final contra a Seleção Portuguesa que contava com Deco, Figo e Cristiano Ronaldo, que eram comandados por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, e venceram pelo placar mínimo.O treinador da Grécia, Otto Rehhagel, chegou à Seleção três anos antes, quando a Grécia disputou as Eliminatórias para Copa do Mundo de 2002 na Coreia do Sul e no Japão (Mundial do pentacampeonato brasileiro). O time fez somente sete pontos em oito jogos, tomando 17 gols e ficando em penúltimo do grupo 9, que tinha Inglaterra, Alemanha, Finlândia e Albânia. Diante do desastre, o treinador teve que mudar a forma de jogar da equipe para que pudesse competir. O primeiro passo foi blindar a defesa. O alemão Rehhagel havia treinado equipes como Bayern de Munique e Borussia Dortmund, ambos de seu país, e tinha a fama de ser da ‘velha escola’ com um sistema tático conservador. O treinador transformou a Grécia em um time duro e disciplinado. Mesmo sendo um time limitado pela falta de nível dos jogadores, a seleção azul e branca conseguiu se classificar para a Eurocopa de 2004. O time foi o primeiro do grupo 6, que tinha Espanha, Ucrânia, Armênia e Irlanda do Norte, com 18 pontos em oito jogos e fazendo apenas oito gols. Foram seis vitórias e duas derrotas. O time sabia sua forma de jogar e suas limitações. Assim, a união foi a força deste grupo sem nenhuma estrela. Não precisavam de uma técnica vistosa ou um físico invejável, mas tinham inteligência no posicionamento e se armavam bem na defesa e no ataque. Era um time que defendia em seu próprio campo, deixando o rival trabalhar a posse de bola e saindo rapidamente em contra-ataque, marcando as poucas chances que tinham de balançar as redes. A formação concentrava muita gente no meio-campo e na defesa para sair em bloco com as linhas juntas. O atacante titular, Charisteas, tinha que brigar com os zagueiros rivais para ficar com a bola. Em cada partido que jogavam, não sofrer gols era a máxima premissa. Às vezes jogavam com uma linha de quatro ou cinco atrás, dependendo da partida, e tinham vários ‘jogadores-chaves’ como o lateral-direito Giourkas Seitaridis, o lateral-esquerdo Takis Fyssas e o zagueiro Traianos Dellas. Outros jogadores importantes daquela geração eram o capitão Theodoros Zagorakis e Angelos Basinas. A dupla de volantes fazia a sustentação do meio-campo da equipe. Basinas era mais defensivo, tratando da saída de bola no meio dos zagueiros. Zagorakis trabalhava mais à frente, distribuindo o jogo e puxando a equipe para o ataque como uma meia de ligação. Completando o meio-campo, tinham Kostas Katsouranis, Stelios Giannakopoulos e o camisa 10 Giorgos Karagounis. Ele que jogava mais pelos lados de campo e tinha um toque mais refinado que os companheiros Campanha na Euro A Grécia chegou como cabeça de chave do seu grupo na Eurocopa de 2004 depois de sua surpreendente classificação nas eliminatórias. Os outros plantéis do grupo A eram o anfitrião Portugal, a Espanha e a Rússia. A estreia foi diante de Portugal e o time saiu vencedor por 2 a 1, com gols de e Karagounis e Basinas. O tento português foi feito pelo jovem Cristiano Ronaldo. Os jogos seguintes foram de sofrimento por conta dos tropeços na fase de grupos. Eles empataram por 1 a 1 contra Espanha e perderam para Rússia. Assim, foram quatro pontos e a segunda posição garantida para as quartas de final. A próxima seleção rival era a França, que estava em processo de reformulação depois da conquista de Copa de 1998, mas tinha Thierry Henry, Zinedine Zidane e Claude Makélélé. Aquele embate no José de Alvalade em Lisboa foi um dos mais previsíveis pelo contexto. A Grécia soube aproveitar suas oportunidades e concretizou sua superioridade. Jacques Santini, treinador francês, mesmo com seu time ganhando na posse de bola, não foi capaz de furar o ferrolho rival. Nikopolidis, goleiro grego, fez um jogo impecável e sereno. O castigo para os franceses veio na segunda etapa, aos 25 minutos. Charisteas após cruzamento de Zagorakis fuzilou de cabeça para as redes. Esse gol desanimou a Seleção Francesa e os afundou. Contra todo o prognóstico, Grécia era semifinalista. Além disso, foi a primeira vez que uma mesma equipe derrotou o anfitrião e o ganhador da edição anterior da Euro no mesmo torneio. Nas semifinais, o adversário era a República Tcheca no Estádio do Dragão em Porto, uma das melhores seleções do torneio e que tinha bons jogadores como Pavel Nedvěd, Tomáš Rosický e Milan Baroš, artilheiro da Euro com cinco gols. A equipe tcheca chegou invicta para o jogo com quatro vitórias. Mas assim como a França, a Seleção Tcheca sofreu para furar a defesa grega. Com o time de Otto cômodo com o empate, o jogo se estendeu à prorrogação. No final do primeiro tempo, Dellas foi o herói para levar a Grécia a sua primeira final continental. O rival seria novamente Portugal na finalíssima. A Grécia era o azarão diante do favoritismo português por ser um time em peças melhor e jogar em casa. O país lusitano
