Badaró convida: Bruno Torturra

Cofundador da Mídia Ninja, editor-chefe do extinto “Greg News”, coapresentador do “Calma Urgente” e criador do Estúdio Fluxo, jornalista é o primeiro convidado do novo quadro de entrevistas da Badaró* Por Vitória Regina e Norberto Liberator 2013 foi um ano turbulento. Da Turquia ao Brasil, as ruas foram tomadas por gigantescas manifestações em boa parte do mundo. Os movimentos ocorriam dois anos após o “Occupy Wall Street”, quando uma juventude sem perspectivas realizou uma mobilização de massas até então nunca vista no centro do capitalismo global, e dois anos após o advento dos eventos conhecidos como “Primavera Árabe”. Hoje, mais de uma década depois, é fácil apontar que nada disso acabou muito bem e que, em alguns casos, a situação piorou e muito. Mas para quem vivia o momento, a perspectiva era outra. No Brasil, os protestos contra o aumento na passagem em São Paulo se confundiram com movimentos contra a realização da Copa do Mundo e mais um emaranhado de reivindicações, nem todas justas. Um ano antes, setores de esquerda e liberais progressistas haviam se esforçado para barrar a indicação do pastor Marco Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Em todos esses casos, havia uma esperança relacionada aos incipientes smartphones e à possibilidade de se mobilizar a partir das redes sociais. Entre as balas de borracha e os sprays de pimenta na Avenida Paulista, alguns jovens repórteres se aventuravam a transmitir, em tempo real, as gigantescas manifestações de junho de 2013. Era a Mídia Ninja, que tinha Bruno Torturra como um de seus fundadores. A Badaró bateu um papo com o jornalista, hoje à frente do Estúdio Fluxo, sobre mídia, política e meio ambiente. Badaró: A atuação do jornalismo nas redes sociais hoje é bem diferente do que era nos primórdios da Mídia Ninja, da qual você foi um dos idealizadores. Quais mudanças você destaca como positivas e negativas nesse processo? Bruno: Você fala de 2013 para cá, assim, nos últimos 10 anos? Olha, não é uma resposta muito muito breve, eu vou tentar ser objetivo primeiro, eu acho. A vantagem, ela é a face da mesma moeda da desvantagem, eu acho. São efeitos positivos e negativos que vêm do mesmo processo. Acho que essa é a contradição muitíssimo complicada que a gente passa no mundo no mundo digital, hoje.  É uma intensificação de processos num espaço tão curto de tempo, que a gente não tem tempo de cultura, tempo psíquico para se adaptar a isso e interpretar isso antes da nossa reação. Então assim, o lado positivo é a diversificação absoluta de vozes de localidades e algo também que, no jornalismo brasileiro, especialmente, era um deserto midiático fora dos grandes centros urbanos e de algumas capitais e tal.  Então, isso eu acho extremamente positivo não só pro jornalismo, mas para comunicação pública como um todo; acho que também tem uma outra vantagem e irmã disso, que é a nacionalização de pautas locais. Então quando algo muito escandaloso ou acontece no interior do país no meio da Amazônia ou do Mato Grosso do Sul, num bairro periférico que não era coberto pela imprensa, isso vira a pauta jornalística e as pessoas se informam dessa maneira.  Agora, o lado da moeda que é negativo do mesmo processo, é que democratizou também a possibilidade de cada vez mais gente desonesta, gente má intencionada, gente de má-fé ter uma performance midiática e se fantasiar de jornalismo, porque o jornalismo dentro de rede social, por não ter a estrutura física e a impressão, por exemplo… vocês agora estão enfrentando o desafio de imprimir, vocês veem que é uma coisa completamente diferente de ter uma revista digital.  Mil outros orçamentos, habilidades gráficas, técnicas, que não estavam na conta. Antes esse filtro era pouco democrático para todo mundo poder ser jornalista. Ele também era um filtro que tinha um certo lado positivo, filtrava a gente de má fé assim de entrar tão fácil no mercado. E é uma confusão que se gerou em cima disso, que é: se a pessoa se apresenta esteticamente, como jornalista, muito pouca gente consegue perceber que ela não necessariamente vai ter a ética jornalística, então é muito fácil você posar de jornalismo, você difundir vídeos, mensagens, informações com o jargão do jornalismo com a cara de âncora, com a cara de apresentador, com a cara de repórter e tá fazendo uma coisa profundamente antijornalística.  Então essa é a democratização que na época da Mídia Ninja, por exemplo, tá na essência do nosso nome, que era uma sigla que somos Narrativas Independentes. “Narrativas Independentes” hoje chegaram num paroxismo, viraram realidades paralelas, né?  Nem mais a narrativa independente a gente tá vivendo em mundos separados, mundos de compreensão completamente diferentes e inconectáveis cada vez mais, e que nasceram de narrativas independentes. Eles apareceram como uma construção midiática antes de uma construção política.  E isso a gente está vivendo; e o outro efeito que também é muito parente desse e que é perigoso e muito negativo por outros motivos e que as redes sociais, sem a gente perceber, capitalizaram. Elas viraram as maiores empresas do mundo hoje, né? Você vê Zuckerberg, esses caras todos, são alguns dos homens mais ricos do mundo; são algumas das maiores empresas da história do capitalismo.  Mais do que empresas de petróleo, pode ter uma ideia de qual o dinheiro que eles pegaram? Eles manipularam e eles monopolizaram o dinheiro que era distribuído no modelo de negócio no varejo da imprensa, principalmente do jornalismo, e a gente ficou sem modelo de negócio claro.  E a quebra do modelo de negócio do jornalismo tem consequências muito graves, não só para a profissionalização de pessoas, para o nosso ganha pão como jornalista, mas tem um outro efeito que a gente discute menos na verdade, que é não só a incapacidade do jornalismo se estruturar, mas a incapacidade de a gente produzir redações. Por exemplo, eu consegui de alguma maneira ter uma vida sustentável sendo jornalista digital independente. Eu não imprimo mais nada do que eu