A goleada de Riquelme contra o neoliberalismo

Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes.
Rebeldes na Casa de Nariño

Economista que atuou em guerrilha e advogada ligada à causa ambiental formam primeiro governo de esquerda na Colômbia Por Norberto Liberator Norberto Liberator Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente e artes. Autor da graphic novel “Diasporados”. Twitter Youtube Facebook Instagram
Em meio a tensões políticas, Chile decide novo presidente

Segundo turno coloca, frente a frente, jovem socialista e candidato de extrema direita ligado a Pinochet Por Norberto Liberator e Guilherme Correia Arte: Norberto Liberator O Chile decide, neste domingo (19), qual rumo deve tomar nos próximos quatro anos. O país sul-americano, que enterrou neste ano a Constituição elaborada pelo governo do ex-ditador Augusto Pinochet, vive um segundo turno acirrado entre José Antonio Kast, do Partido Republicano (extrema direita) e Gabriel Boric, da Convergência Social (esquerda). Herdeiro de um clã de origem alemã que atuou ativamente na ditadura pinochetista, Kast é deputado federal e se apresenta como “Bolsonaro chileno”. Seu pai, Michael Kast, foi filiado ao Partido Nazista, conforme revelou a agência de notícias Associated Press. Seu irmão, Miguel Kast, foi presidente do Banco Central chileno durante o governo Pinochet. O candidato se apresenta como defensor “da família” e mira em pautas conservadoras, além de atacar imigrantes, sobretudo haitianos e venezuelanos, a quem atribui suposto aumento da criminalidade no Chile. Tem apoio do presidente Sebastián Piñera, cuja truculência contra manifestações em 2019 culminou na nova Constituinte. Gabriel Boric, candidato pela Frente Ampla, que reúne partidos de esquerda, é uma jovem promessa da política chilena (tem apenas 35 anos) e também é deputado. Iniciou sua militância no movimento estudantil. Em busca de uma aliança de esquerda, aglutinou em torno de sua candidatura mais de 10 partidos e movimentos sociais, na coligação Apruebo Dignidad (“eu aprovo a dignidade”), consolidada com a entrada do Partido Comunista, uma das principais e mais tradicionais forças políticas entre a classe trabalhadora chilena. Na segunda etapa, Boric conta com apoio de artistas e intelectuais, como Pedro Pascal, Mon Laferte e a ex-presidenta Michelle Bachelet, hoje alta comissária de Direitos Humanos da ONU. No primeiro turno, Kast teve dois pontos de vantagem contra Boric. O candidato da extrema direita somou 27,91% dos votos, contra 25,83% do socialista. As pesquisas para a segunda volta variam, tendo se iniciado com vantagem de Boric, mas aos poucos apontando proximidade e, em alguns casos, vitória do neofascista.
“Fujimorismo é capaz de golpe ao custo de guerra civil”

Autor de livro sobre a guerra entre ditadura peruana e guerrilha do Sendero Luminoso, Jesús Cossio falou à Badaró sobre eleição de Castillo, perspectivas para a esquerda, crise política e ascensão da extrema-direita Por Norberto Liberator Um presidente autoritário de ultra-direita, eleito com a promessa de livrar o país da corrupção, é centro de um escândalo de… corrupção. Seus filhos, também ligados à política, têm esquemas revelados. O enredo parece familiar e poderia se referir a outro país da América Latina, mas neste caso, trata-se do Peru. Quando veio à tona o esquema de propinoduto operado pelo assessor de segurança presidencial Vladimiro Montesinos, o ditador Alberto Fujimori já não tinha a popularidade que alcançou quando, em 1990, venceu as eleições presidenciais no segundo turno contra o escritor Mario Vargas Llosa, que viria a ser Nobel da Literatura em 2010. Acabar com a corrupção e com a violência do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso foram as principais plataformas da campanha de Fujimori. De inspiração maoísta, o Sendero era temido devido a inúmeras denúncias de escravização de populações indígenas nas regiões ocupadas pela organização. O grupo também cometeu massacres, como quando matou 69 camponeses em Lucanamarca, em 1983. O estigma contra os senderistas foi utilizado pelos diversos setores de direita contra a esquerda de forma geral. Naquela eleição de 1990, o alvo dessa estratégia de difamação foi o presidente Alan García, político de centro-esquerda. No poder, Fujimori reprimiu a oposição e organizou um golpe de Estado, conhecido como “autogolpe”, no dia 5 de abril de 1992. Com apoio das Forças Armadas, o presidente surpreendeu o país com um anúncio, transmitido pela televisão e pelas rádios, de que fecharia o Congresso, trocaria membros do Judiciário e se apropriaria de veículos de comunicação. A desculpa para a medida inconstitucional foi a escalada de violência. Iniciava-se a ditadura fujimorista. As promessas foram cumpridas. O Sendero Luminoso foi quase extirpado e seu chefe, Abimael Guzmán, preso. O custo: mais de 70 mil vidas humanas, em grande maioria inocentes, e a monopolização do narcotráfico pelo próprio governo. O império começou a ruir no ano 2000. Após a divulgação de vídeos em que Montesinos oferecia suborno a parlamentares opositores para que apoiassem medidas do governo, a permanência ficou insustentável. Com 21 acusações que incluíam corrupção, formação de quadrilha, narcotráfico e violações aos direitos humanos, Fujimori renunciou no dia 21 de novembro, sendo cassado pelo Congresso logo em seguida. Filho de japoneses, o já ex-ditador embarcou para a terra de origem de sua família. 21 anos depois, muita coisa mudou. Fujimori segue preso desde 2009. O filho, Kenji, enfrenta um processo de cassação de seus direitos políticos. A filha, Keiko, esteve presa por três meses e pode voltar à prisão. Alan García se suicidou e o Peru viu as detenções de uma sequência de ex-presidentes: Pedro Pablo Kukzynski (PPK), Alejandro Toledo e Ollanta Humala. E segue contando, pois um recente escândalo de superfaturamento de vacinas coloca Martín Vizcarra em maus lençóis. Em 2020, o país chegou a ter três presidentes em uma semana [fato retratado pela Badaró nesta matéria em quadrinhos]. Na condicional, já em 2021, Keiko disputou eleições presidenciais pela terceira vez e teve apoio do antes rival político Vargas Llosa. Sem nada a ver com isso, o professor rural Pedro Castillo, vindo de uma comunidade camponesa na província de Chota, fez sua desacreditada campanha no boca-a-boca e é quem deve comandar o Peru após uma disputa apertada contra Keiko Fujimori no segundo turno. Castillo pertence ao Peru Libre, partido de inspiração mariateguista, ou seja, que reivindica as ideias do intelectual marxista-leninista José Carlos Mariátegui. Considerado conservador nos costumes e questionado sobre sua postura em relação a temas como direitos de minorias sexuais, Castillo se encontrou com lideranças da comunidade LGBTQIA+ e firmou compromisso de prezar pelo combate à discriminação. O líder campesino terminou o turno inicial em primeiro lugar e, na segunda etapa, disputou a apuração voto a voto contra a filha do ex-ditador, a quem venceu em uma virada histórica ao conquistar 50,12% do eleitorado. Jesús Cossío é jornalista e ilustrador. Um dos principais expoentes do jornalismo em quadrinhos na América Latina, o peruano autor de “Sendero Luminoso: História de uma Guerra Suja” (lançado no Brasil pela Veneta) conversou com a Badaró e nos ajudou a compreender a confusão generalizada que tem ocorrido em seu país. Badaró: Gostaria que falasse a respeito das acusações de que Pedro Castillo teria ligações com o Sendero Luminoso. De onde elas vêm e por que ocorrem? Jesús Cossio: Em primeiro lugar, há várias acusações que têm sido feitas por seus oponentes políticos que são à direita, para deslegitimar. Então, quando Castillo fez parte de uma série de greves do professorado, dos professores de escolas, por melhorias econômicas, ali poderia haver algum grupo, entre eles, que tivesse relação com o Sendero Luminoso, mas ele não tem. Isso tem a ver com o que no Peru se conhece como “terruquero”, que vem de “terrorista”. É uma forma de acusação que se faz para deslegitimar a qualquer pessoa, acusar de “terruco” é a pior coisa que se pode fazer. E isso vem de pessoas que apoiam um regime terrorista, pois o fujimorismo praticou terrorismo, né… Sim, terrorista. O fujimorismo é corrupto. É populista-fascista, digamos. O que ocorre é que o conflito armado interno aqui foi duríssimo, é uma acusação mais grave do que ser corrupto. Assassinatos, ataques, crise econômica. Há uma diferença entre quem usa esse termo, quem é mais propenso a usá-lo, pois se viu terrorismo dos dois lados. Nas províncias em que houve um processo paradoxalmente mais próximo ao Sendero Luminoso, conhece-se mais uma série de matizes, e isto sequer é dizer que se aceite os crimes do Sendero, simplesmente o consideram melhor, então fazer essa acusação é irresponsável. Mas em Lima… é muito parecido com o Brasil, muitos limenhos fazem muitas acusações. Que ele é “pró-Sendero”, que é “ecologista radical”, “revoltoso” ou parte de alguma outra coisa ameaçadora que nem eles sabem o que é. A principal diferença é que Lima é
35 anos do renascimento de Diego Maradona

Com a ajuda divina, Argentina conquistava há 35 anos seu segundo título na Copa do Mundo, comandada pelo mais humano dos deuses: Diego Maradona Por Gabriel Neri, Norberto Liberator e Adrian Albuquerque https://www.youtube.com/watch?v=S_Atd8MUu4c Todos os deuses do Olimpo cometiam erros. Todos eles possuíam características humanas, demasiado humanas. Mas uma coisa os diferenciava das pessoas comuns: os deuses possuem habilidades sobre-humanas e são imortais. E naquele ano de 1986, todo o panteão do Olimpo certamente se orgulhou de ver um par conquistar e assombrar o mundo. Diego Armando Maradona estava longe de ser um santo. E nem era esta sua pretensão. O camisa 10 da seleção albiceleste era deus. Não o deus cristão, comparação blasfema para o católico que era. Maradona era um deus do olimpo. Trazia consigo os defeitos de sua personalidade divinamente humana. Por vezes ciumento, por vezes prepotente, por vezes infiel. Ao mesmo tempo, também tinha em si a liderança e a imponência do rei dos deuses. Ahí la tiene maradona, lo marcan dos, pisa la pelota maradona, arranca por la derecha el genio del fútbol mundial, deja el tendal y va a tocar para burruchaga… ¡siempre maradona! ¡genio! ¡genio! ¡genio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta… Gooooool… Gooooool… ¡quiero llorar! ¡dios santo, viva el fútbol! ¡golaaazooo! ¡diegoooool! ¡maradona! Es para llorar, perdónenme… Maradona, en recorrida memorable, en la jugada de todos los tiempos… Barrilete cósmico ¿de qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés, para que el país sea un puño apretado gritando por argentina? Argentina 2, inglaterra 0. Diegol, diegol, diego armando maradona… Gracias, dios, por el fútbol, por maradona, por estas lágrimas, por este argentina 2, inglaterra 0. Foi assim que o narrador e jornalista nascido no Uruguai – e que viveu a vida na Argentina – Victor Hugo Morales relatou naquela tarde de 22 de junho de 1986 o maior gol da história das copas. A partida era argentina contra a Inglaterra pelas quartas de final do mundial de 86 no México. Foi a primeira batalha entre argentinos e ingleses após a guerra das Malvinas (que são argentinas). Representando 40 milhões ou quem sabe os mais de 900 milhões de pessoas da América Latina, um loco diez bajito, nos trouxe um pouco de alegria com o punho cerrado e driblando a todos os ingleses. Antes daquelas quartas de final, a argentina tinha passado por Coreia do Sul, Itália e Bulgária na fase de grupos. Na sequência pegou o Uruguai nas oitavas. Das quartas para a frente, três europeus caíram para o plantel de Carlos Salvador Bilardo: Inglaterra, Bélgica e Alemanha. A histórica partida contra os ingleses converteu Diego em deus. A data de 22 de junho é a páscoa maradoniana, assim como a páscoa cristã, foi ali que Pelusa (um dos tantos apelidos de Maradona) renasceu, diante de 110 mil pessoas no estádio Azteca na Cidade do México. Judas não jogou naquela tarde; os argentinos consultaram o Senhor para saber do plano de jogo. E Jesus disse que não falaria de táticas, só deixou o conselho: “la pelota siempre al diez que ocurrirá otro milagro”. Importante lembrar que, um dia antes do jogo, o capitão pediu aos argentinos que rezassem, porque eles precisavam. A fé funcionou e ela não costuma falhar. Em cinco minutos, dos 5 aos 10 do segundo tempo, o céu desceu na terra. O primeiro tento veio com a sorte e talvez o maior pulo da história de Diego Maradona. O baixinho de 1,65 m dividiu a bola no alto com o goleiro inglês Peter Shilton, de 1,83 m. Y ya lo ve, y ya lo ve, el que no salta es un inglés. O grito de 1 a 0 foi com la mano de Dios. De punho esquerdo cerrado e de longe parecendo que foi com a cabeça, abriu o caminho para seu passeio de logo mais. A partida parecia ficar tranquila e a Inglaterra tentava sair para o jogo. O argentino Héctor Enrique faz a ‘assistência’ para o gol del siglo de Maradona antes da linha de meio-campo. Diego driblou os dois primeiros, arrancou pela direita, veio o terceiro, o quarto, o goleiro e a meta se abriu. De canhota, empurrava para as redes enquanto sofria um carrinho que o derrubou. Não seria errado dizer que esse jogo contou a história de Diego Maradona. Do gol de ladrón contestado, acima das regras, com a mão, ao tento do século. Equilibrando o lado mundano com o seu dom, cada qual em uma mão. Na comemoração, ainda cambaleando, se levantou outra vez com o punho esquerdo cerrado. O milagre se sacramentou. O jogo terminou Argentina 2, Inglaterra 1, mas ninguém se lembra do gol inglês. Na fase seguinte, em semifinal contra a Bélgica, abriu o placar com uma cavadinha na saída do goleiro. Tal qual ante a Inglaterra, driblou toda a defesa belga e fez o 2 a 0. A final parecia ser tranquila. Até os 28 do segundo tempo, a argentina tinha um 2 a 0 a favor, mas tomou o empate. Nada é fácil para quem nasce nas bandas latino-americanas. O gol de Jorge Burruchaga nos minutos finais nasceu do pé canhoto do 10. Um toque apenas desmontou todo o time alemão. Argentina 3, Alemanha 2. Os dois sonhos do pibe de oro foram realizados. O primeiro era jogar um mundial e o segundo era sair campeão. Há 35 anos, esta é a história da copa de 1986 e do renascimento de Diego Armando Maradona – o mais humano dos deuses.