Quando vanguardas colidem
- 21 de outubro de 2020
Movimento mais conhecido da cinematografia nacional, Cinema Novo entrou em confronto com o Cinema de Invenção, surgido em 1968.
Por Igor Nolasco
Ilustração por Fábio Faria
“O Cinema Novo é um cadáver gangrenado, um movimento de direita que se julga de esquerda. Glauber Rocha diz que vai descobrir o certo através do errado. Glauber é uma instituição brasileira, ou seja, ele vai descobrir que ele é o novo Lima Barreto [diretor de O Cangaceiro], na linha direta de Rui Barbosa. Não adianta, Glauber, pode estrebuchar. Você nunca vai ser o Maiakóvski brasileiro”.
— Monólogo do filme “O Vampiro da Cinemateca” (1977), de Jairo Ferreira
O cineasta Rogério Sganzerla, em depoimento colhido por Jairo Ferreira para seu livro “Cinema de Invenção” (1986), esquadrinha uma breve definição do Cinema Novo, que consegue ser lisonjeira na mesma medida em demonstra ressalvas: “É uma igrejinha, mas também um movimento coletivo, talvez o mais importante da cultura brasileira nesses últimos vinte anos”.
O termo “igrejinha”, evidentemente, não é aqui utilizado no sentido de diminuir manifestações de fé, mas sim para designar o movimento em questão enquanto um agrupamento restrito, fechado, impenetrável, com integrantes e pensamentos predefinidos e irredutíveis. O Cinema Novo, para Sganzerla e para sua geração, tinha seus dogmas. E ter dogmas pode parecer algo contraditório para um movimento artístico de vanguarda.
Jairo Ferreira, que além de crítico de cinema também foi cineasta, segue na linha direta da opinião de Sganzerla. Ambos faziam parte do movimento que hoje é definido por uns como “Cinema Marginal” (termo que não é desprovido de sua conotação pejorativa) e por outros, de “Cinema de Invenção”. Em texto sobre o filme “Jardim de Guerra”, Ferreira diz que por volta de 1968, “novos talentos estavam para explodir, e só podiam fazê-lo com uma câmara na mão e uma ideia na cabeça – grande slogan do Cinema Novo, que lamentavelmente era um movimento fechado, uma igrejinha”.
1968 é um ano importante para entender a dissidência entre o Cinema Novo e o Cinema de Invenção, entre dois movimentos que disputavam para definir qual seria mais vanguardista (Ferreira definiria o Cinema de Invenção como “a retaguarda da vanguarda”). Um ano antes, Glauber Rocha, a personificação do Cinema Novo, lançara “Terra em Transe”, considerado por muitos sua obra prima. O movimento parecia ter chegado em um apogeu. E após o apogeu, a queda. Filmes cinemanovistas dignos de nota ainda foram lançados a partir de 1968, mas o declínio era nítido. E o chamado Cinema Marginal (rotulação, aliás, referente ao longa “A Margem” [1967], de Ozualdo Candeias) estourou justamente em 68, com o lançamento de “O Bandido da Luz Vermelha”.
O filme pegou todo mundo de surpresa, desprevenido. Exibições preliminares em cabines de laboratórios de revelação, antes da estreia oficial, já haviam causado uma tensão inicial. Com pouco mais de vinte anos de idade, Sganzerla era um jovem prodígio que estava estreando na direção de longa-metragens, assim como Glauber fora, anos antes, ao lançar “Barravento” em 1962. Seu primeiro longa, um auto intitulado “faroeste do terceiro mundo”, mesclava Orson Welles, Godard, histórias em quadrinhos e rádio. O resultado, amálgama destes e de outros tantos elementos, era algo sem precedentes na história do cinema brasileiro. Algo que nitidamente rompia com o Cinema Novo, que reagiu de maneira combativa.
O Cinema Novo havia surgido em meados da década de 1950 com o objetivo de subverter a tônica então dominante no cinema brasileiro, na qual predominavam produções em estúdio que em geral se debruçavam sobre as questões sociais do país apenas através do humor (nas comédias musicais designadas como “chanchadas”) e do melodrama. “Rio 40 Graus”, “Rio Zona Norte”, “Vidas Secas”, “A Falecida” e tantos outros filmes vieram em esteira, conquistando a crítica brasileira e internacional ao propor essa mudança de paradigma em nossa cinematografia. A partir de 1967, no entanto, menos títulos estrelares foram aparecendo entre os autores do movimento. Com o Cinema de Invenção surgindo abruptamente no ano seguinte, os cinemanovistas sentiram-se como que ameaçados. Fecharam as portas, as oportunidades e as possibilidades de associação com a geração mais nova.
Já no ano de 1970, em uma entrevista ao Pasquim cujo objetivo original era promover seu novo filme, “A Mulher de Todos”, Rogério Sganzerla adotou postura de ataque. Parte das ofensas foi direcionada especificamente a Glauber, que no ano anterior esteve em cartaz com “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, filme cujo prestígio chegou a lhe render o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.
“[Glauber] falou no meio da entrevista que os jovens cineastas brasileiros estão fazendo uma parafernália tropicalista, quer dizer, me acusando, a mim e a outros talentos, de fazerem tropicalismo quando quem faz tropicalismo são os velhos como [os cinemanovistas] Joaquim Pedro de Andrade e Walter Lima Junior. Tentaram fazer tropicalismo e não conseguiram. Ainda nem chegaram ao tropicalismo. O que não é meu caso, que pô, desde o início estava dito que não era essa a jogada. […] Se tivesse de imitar o Glauber, eu não imitaria o Glauber de hoje do Dragão da Maldade, que é um filme que vocês viram e conhecem, eu imitaria o Glauber de oito anos atrás, quando ele fez ‘Barravento’, que é o melhor filme dele. […] [‘O Dragão da Maldade’] é um lixo. É um filme primário, um filme ginasiano, é um filme que agride, mais pela burrice.”
Apesar dos requintes de crueldade guardados para o cineasta que encabeçava o Cinema Novo, Sganzerla não foi restrito em seus comentários. Diversos cinemanovistas foram alvo para as críticas proferidas, com direito a uma breve análise dos últimos filmes lançados pelo movimento.
“[…] Então, nós estamos vivendo uma fase agora onde você pode, por exemplo, como a gente estava há três meses atrás, falar bem da chanchada e falar mal do Cinema Novo. O que era antigo em 59, a chanchada, hoje é um dado de criação, um dado inventivo e o que era novo, o Cinema Novo, virou um dado conservador. […] Basta ver os filmes do Cinema Novo. A gente fala do Cinema Novo, eu acho chato. É melhor não falar das pessoas, nem dos criadores, mas ver os filmes. […] Os piores filmes de 68 quais são? ‘Brasil Ano 2000’, ‘Capitu’, ‘A Vida Provisória’ […]. O trabalho do Joaquim Pedro em ‘Macunaíma’ é um trabalho falso, um trabalho deturpador, é um trabalho que não corresponde aos ideais cinematográficos. Não dá pé, realmente, não dá pé. Você pode notar pelos filmes.”

O Cinema Novo, evidentemente, não permaneceu em silêncio. A resposta veio através do artigo “Udigrudi: uma velha novidade“, no qual Glauber Rocha utiliza o dito udigrudi como uma corruptela de “underground”. Segundo o cineasta, tudo o que o Cinema Marginal estava fazendo no momento já havia sido posto em prática por ele antes, nas filmagens do longa “Câncer” em maio de 1968. O filme, no entanto, só viria a público em 1972, fazendo com que a influência de Glauber sobre a geração de Sganzerla só faria sentido se aplicada retroativamente. Alegava que “os jovens cineastas […] levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmera na mão e ideia na cabeça”.
Se as declarações de Sganzerla para o Pasquim podem ser vistas como provocação, também funcionam enquanto uma forma de explicitar essa divisão, essa antagonização entre os dois movimentos, entre as duas vanguardas, o que é corroborado pela réplica glauberiana. Sempre deve-se levar em conta, evidentemente, o calor do momento. Afinal, já nos anos 1980, quando o Sganzerla se referiu ao Cinema Novo como “igrejinha”, reconheceu sua importância enquanto movimento cultural; e mesmo Glauber, nas fases posteriores de sua vida e obra, passou a ter um ponto de vista mais crítico diante do já disperso Cinema Novo e de seus ex-colegas do movimento.
Existem muito mais nuances nessa disputa de narrativas. Ao fim, as filmografias dos dois movimentos prevalecem enquanto atestados das propostas de cada um, a serem julgadas pela subjetividade do espectador. Nomes como os de Glauber e Sganzerla já foram canonizados pela história oficial do cinema brasileiro. Outros, menos celebrados pelo cânone, são, por ventura, esquecidos dos livros e das retrospectivas, mas através da inventividade de suas obras imprimiram sua marca em nosso cinema com o mesmo afinco das figuras mais conhecidas.
O que se tira de todo esse debate é que movimentos ideologicamente dissidentes, cujas disputas podem ou não ser amparadas por questões pessoais, podem nesse conflito, nessa competitividade, lançar filmes como “O Bandido da Luz Vermelha” ou “Câncer”, como “A Mulher de Todos” ou “Macunaíma”. O juízo de qualidade cinematográfica sempre será feito pela subjetividade de cada um. Mas a competitividade entre vanguardas definitivamente é capaz de gerar obras de arte que marcam época.