28 de julho de 2024

Imigrante palestino relata sua experiência na Cisjordânia e participação na rebelião com pedras contra a ocupação israelense

Por Norberto Liberator
Capa da matéria: ilustração mostra jovem palestino tendo o rosto atingido por tapa, com revolta ao fundo. Página branca, com o título "Memórias da Intifada" acima e as informações "Entrevista, roteiro e arte: Norberto Liberator".
A Mesquita segue iluminada após mais um encontro de sexta-feira. Da calçada da frente, ouve-se as brincadeiras das crianças pequenas e a partida de futebol no campinho ao lado, que une os meninos recém-saídos da oração e os vizinhos do templo. Há poucas horas, Israel matou mais de cem pessoas no campo de refugiados de Jabalia, após o fim do primeiro cessar-fogo na Faixa de Gaza desde o dia 7 de outubro de 2023. Nassim é um dos milhões de palestinos em diáspora cuja história ajuda a explicar o ciclo de violência enfrentado por seu povo. Balão Nassim: O plano atual deles é destruir a Faixa de Gaza, expulsar os palestinos para o deserto do Sinai e tomar conta dessa região, que tem reserva de petróleo e de gás natural.
Meu falecido pai era palestino, minha mãe é brasileira de Jardim (MS) e eu nasci no Líbano. Muitos árabes voltavam para a terra e o Líbano era o melhor economicamente. Mas o Líbano entrou em guerra* e fomos para a Palestina quando eu era criança. E quando criança eu já percebia que alguém tinha o controle da situação e todo mundo tinha medo deles. Eram os soldados israelenses, que passavam em jipes. Naquela época, as pessoas ainda não tinham criado coragem para começar a enfrentar, a entrar em conflito com eles. E eles já estavam tomando o controle das terras palestinas. *Guerra do Líbano – 1982
Há a Palestina que foi anexada em 1948, para ser o que é o Estado de Israel, fora da Cisjordânia e Faixa de Gaza, a Palestina histórica. Então primeiro tomaram aquela terra. Mas também tomaram a Cisjordânia, estavam construindo colônias israelenses nos territórios, nas terras dos palestinos. E essas colônias estavam crescendo. E esse aqui foi um dos motivos que fez as pessoas na Cisjordânia começarem a lutar contra esse regime de ocupação, que veio para quê? Para anexar a terra dos palestinos. Então o palestino começou a perder, perder, e aí? Amanhã não vou ter mais terra nenhuma. Não estamos falando de um deserto. A Palestina tinha tudo. Exportava para a Europa, para a Ásia, para a África. Era um ponto de distribuição muito grande, mesmo antes de a Inglaterra entrar, anexar e depois passar para os sionistas*. *Mandato britânico da Palestina (1920-1948)
Então a Palestina sempre foi isso. Fábricas e etc. Os palestinos trabalhavam nisso, viviam disso. E depois da ocupação, alguns palestinos trabalhavam lá dentro da região que foi ocupada em 1948. Um grupo desses palestinos foi atacado, foi agredido na cabine onde eles dormiam durante a noite. Um sionista terrorista, vou chamar ele assim, tacou fogo nessa cabine, matando cinco palestinos que viviam na Faixa de Gaza. Especificamente do campo de refugiados de Jabalia. Esse mesmo em que morreram mais de 100 pessoas hoje, no bombardeamento de hoje. Parou cessar fogo e mataram muitos. 178 palestinos foram assassinados hoje. Desses bombardeamentos, 100 foram nesse campo de refugiados de Jabalia. Sempre foi o lugar que tinha mais resistência na Faixa de Gaza. Mas então, lá em 87, esses rapazes morreram. E os palestinos ficaram indignados. "E aí, quem que vai nos dar os nossos direitos? Ninguém!".
Hoje em dia todo mundo está filmando, tudo está sendo gravado, não tem nada escondido e onde que estão os direitos palestinos? Então naquela época não tinha TV palestina, não tinha alguém filmando, então tava muito pior. Você é maltratado e tem que ficar quieto. E amanhã você vai também pagar por levantar sua voz e pedir os seus direitos. Então começou a primeira Intifada, que é o quê? É um levante público em que as pessoas começam a se manifestar em todo lugar. Então na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém, os palestinos se levantaram e começou a guerra das pedras. Começou na Faixa de Gaza, onde tem uma concentração de pessoas altíssima, desde aquela época. A cidade de Gaza, Khan Younes, Rafah, campos de refugiados... começaram a guerra de pedras. É o quê? Você vê um jipe israelense. Você joga pedras nele.
É uma forma de mostrar indignação. E eles começaram a atirar nessas pessoas que estavam jogando pedras. Então a Intifada foi um ano, dois anos, três, quatro, cinco anos… Cerca de 5 mil palestinos morreram. Na primeira Intifada, eu estava lá. Eu sou da região de Ramallah. Eu tinha de 12 a 13 anos, estava começando a enxergar a vida. Já percebia a agressão, a desigualdade, o Apartheid. Hoje em dia a gente tá vendo o que é, mas não começou agora. Sempre foi assim. O colonizador acha que pode fazer o que quiser com você. Se ele te agride, ele te dá um tapa na cara, você tem que ficar quieto, aceita e cala sua boca. Eles pegaram a sua terra, você tem que aceitar.
Então, o povo não aguentou mais, aí começou essa Intifada. A Intifada é o levante público dos palestinos. É uma luta com o que as pessoas têm. Você tá vendo que tem uma desigualdade, uma injustiça, aí você você participa também, entendeu? Então, com 13 anos eu já tava jogando pedras também. Tentando fazer parte do que o povo palestino tá fazendo. Aquela resistência. A resistência começou com pedras. E todos, as crianças até, de 10 anos. É uma forma de você tentar se defender. Pensando: “Quem sabe as colônias israelenses saiam e a gente pega a nossa terra de novo”. – E você sofreu alguma represália? Algum soldado chegou te pegar assim? – Várias vezes. Várias vezes. Uma vez eu tava assim, não tinha nada acontecendo. Eu tava andando na rua com meus primos.
Aí o jipe parou todo mundo, saiu com metralhadora, e mirou para atirar na gente. Balão: – O que é que vocês estão fazendo? Onde é que vocês estão indo? Vocês jogaram pedra? Vocês estão jogando pedra? Vem cá! Aí deu um tapa no meu primo, colocou o outro no jipe, assim do nada, cara. Do nada! E já começaram, prenderam a gente. Aconteceu perto da nossa casa. Então, minha mãe ficou sabendo. Ela veio correndo na rua. Minha mãe é uma brasileira que não tem medo de nada, cara. É corajosa até o máximo. Ela veio correndo, gritando com o soldado. – Eu sou brasileira, aqui tá meu passaporte. O que você tá fazendo com o meu filho? Deixa ele agora; vocês vão deixar aí esses meninos. Aí o soldado não quis confusão. Naquela época, eles ainda não eram tão nojentos como hoje em dia. Hoje em dia, talvez prenderia todo mundo.
Os soldados israelenses começaram a fazer da vida do palestino um inferno. Às três horas da manhã chegavam em toda vila. "Todo mundo vai sair". Aí pegava todos os homens, colocava eles numa numa área aberta dessa aqui [aponta] e eu passei por essa situação, duas vezes. Você abre ou o cara vai vai explodir a sua porta. Saíram, sentaram numa área aberta, aí veio o comandante. "Hoje à noite sofremos um ataque de coquete de molotov. Foi aqui nessa rua, aqui nessa cidade. Vou falar para vocês, se isso acontecer de novo, eu vou matar, eu vou queimar, eu vou destruir". Esse tipo de conversa, cara. Imagina. Ameaça para todos os homens da vila. Imagina o seu tio de 60, 70 anos, seu avô que mal consegue andar. Tá lá no frio. Palestina faz frio, você pode comparar com o Rio Grande do Sul. Faz frio pra caramba. Tá 5 graus e você tá no seu pijama, porque o cara não te deu a chance de você pegar uma jaqueta.
E um dos rapazes, mais fervoroso, falou: "Ah, o que vocês estão fazendo aqui?". "Cala a boca", aí os soldados começaram a bater. Cara... apanhou pra caramba. Sangrou a boca, cabeça, nariz. Não tem direito de se manifestar, se manifestar você vai ser preso ou agredido. Imagina isso acontecer, cara. Crianças. Eu na primeira vez tinha 13 anos, depois tinha 14, então é assim, cara. A gente não se enxergava como crianças, mas como guerreiros. Imagina uma criança de 12, 13, 14 anos se ver como um combatente achando que vai libertar seu país?
Quando começou a Intifada, cara, todo mundo começou a fazer de tudo para tirar energia e parar essa humilhação que a gente vinha sofrendo. Então meus amigos todos foram presos. Eu perdi um amigo próximo. Foi assassinado. A gente sempre jogava bola, não tinha nada eletrônico. Era bola, era pedra, esconde-esconde, esse tipo de coisa. Eu perguntei pro irmão dele: “Cadê seu irmão? Faz dias que não vejo o Muhammad”. “Meu irmão morreu”. “Como assim?” “Levou um tiro na cabeça”. O soldado israelense mirou na cabeça dele. Foi difícil, até hoje eu me lembro daquele dia.
Outro rapaz da vila, que também era amigo, mas não tão próximo quanto aquele cara lá, foi morto por um colono israelense. O cara estava passando de carro, jogaram pedra no carro, ele parou e começou a atirar. Matou na hora e mais dois foram feridos. – Pode falar mais desses colonos? São bandidos que vêm de outros países invadindo as terras, né? – Vêm de outros países, acham que são os donos da terra, são armados… O regime sionista dá a eles até a água dos palestinos. Os palestinos passam a ter cota semanal de água, porque ficam com o que sobra. Por exemplo, esse bandido que matou meu amigo era tipo o prefeito de uma colônia. Então você vê o tipo de pessoa. Alguém que sai atirando em moleques. O caminho para eles tem que ser sempre aberto, os jipes sempre protegem eles, o palestino que mora lá é obrigado a dar um dar serviço para ele.
Quem podia imaginar que um mé-di-co americano chamado Baruch Goldstein ia entrar na Mesquita do profeta Abraão armado com metralhadoras, bombas e mais munição e matar 24 palestinos enquanto eles estão fazendo a oração? – E só não matou mais porque foi parado a pauladas, né? – Sim, ele tava preparado pra matar mais. Ele é um ídolo para o Ben Gvir*, para a turma do movimento Kach. Depois eles falaram que o cara era maluco para tirar a culpa dele. Os palestinos atacados mataram ele e aí, o que aconteceu? Quem pagou? Os palestinos. Criaram leis contra o movimento dos palestinos para restringir a entrada na Mesquita. Para restringir o movimento dos palestinos em Hebrom porque depois que ele fez essa essa matança aí, cara, ferveu a cidade. Ferveu, ferveu. Imagina que o seu irmão, seu pai, seu amigo é assassinado fazendo oração, você vai ficar quieto? Aí começou a ferver a cidade de Hebrom. *Ministro da Segurança Nacional de Israel
Construíram colônias, quartéis e estradas para cortar as vilas. O nosso caminho para Ramallah era aberto, cara. A gente levava três minutos, sem exagerar, de carro de Betim – o nome da minha vila – até Ramallah. Uma das vilas mais próximas à cidade. Aí fizeram uma rua, era proibido passar. Pra gente passar, fazia uma rota de 30 minutos porque fechou o nosso caminho. Depois de muita dor de cabeça, eles abriram o caminho antigo para passar dessa rua. Aí fizeram um jeito que você tem que passar por uns soldados que vão ver sua carteira, fazer uma vistoria, várias interrogações, parece que você tá indo de um país para outro país, mas é de uma vila para uma cidade.
Em Jerusalém, o Apartheid é o pior que tem. Lá e em Hebrom. Os colonos lá são uns diabos, cara. Eu não acho uma palavra melhor, desculpa, mas são do inferno, cara. Só maltratam os palestinos. Jogam pedras neles, jogam lixo neles, xingam todos os dias. Eu não sei se você viu os rapazes de Jerusalém que saíram das cadeias. Um deles bateu nuns malucos pra defender uma mulher que estava sendo agredida. Pegou três anos de cadeia. Um adolescente de 14 anos. Essa é a vida das pessoas que moram em Jerusalém, tá? Pensa que você mora aqui, tá com seus pais e seus irmãos. Você casou? O seu irmão já casou? Não pode aumentar a casa, cara. Você não pode subir apartamento, não pode estender. Se estender, esses sem-vergonha trazem escavadeiras, destroem e te dão uma multa que aqui seriam uns 100 mil reais.
– E como funciona a prática dos colonos de tomar as casas? – O que esses nojentos fazem? Esperam a família ir para um casamento, ir para a Mesquita, todos os membros da casa se deslocarem para fora, para algum evento social, familiar, e nesse momento eles vêm invadindo a casa. O pessoal volta e fala: “Caramba, foi-se a casa” e eles estão lá com os soldados. Os soldados protegem eles 100%, eles começam a jogar os seus móveis, não pode fazer nada. É caríssimo pagar um advogado israelense, que sabe as leis, e aí ele entra em uma ação contra a ordem do juiz. É juiz, cara! Juiz que dá a eles a permissão de invadir as casas. Aí você paga, sei lá, 10 mil para um advogado israelense, porque ele conhece as leis. Muitas famílias perderam as suas casas. É muito triste isso, muito triste.
Principalmente na Cidade Velha. A Cidade Velha tem muçulmano, cristão e judeu. Tem um bairro de judeus que é bem antigo. Desde criança eu sabia que existia o bairro dos judeus e eles moram lá, não brigam com os palestinos. Eles se chamam de judeus palestinos, não gostam de ser chamados de israelenses. São famílias que estavam lá muito antes da criação do regime de Israel. Esses dias atrás eles colocaram uma bandeira palestina lá. E usar a bandeira palestina em Jerusalém é cadeia. Entraram lá e bateram. Tem vídeo, um soldado de dois metros de altura agredindo um senhor de idade judeu, que apanhou pra caramba.
Não respeitam idoso, mulher, criança… Você viu a fala do Gallant? Que estão lidando com animais? O outro falando em bomba atômica. Cara… isso são mi-nis-tros! Imagina o zé ruela, o soldado que nem patente tem. E sempre foi assim. Agora o povo tá vendo o que é o Netanyahu, mas o Sharon era a mesma coisa. Naftali Bennet, mesma coisa… Mesmo o Rabin, que fez o acordo de paz com os palestinos, na primeira Intifada, deu ordem para os soldados quebrarem os ossos dos palestinos. Rabin foi do mal, Sharon foi do mal, Shamir, Golda Meir, Ehud Olmert, Ehud Barak… o que ganhou Nobel com o Egito… Menachem Begin. Não tem um deles que tenha sido bom para os palestinos. Na segunda Intifada começaram a fechar, colocar mais checkpoints. Governo do Ariel Sharon. Terrorista. Pra mim todos esses caras são terroristas. Então, cara, era… difícil. – Nassim, acho que você deve estar cansado. Deve estar querendo dormir. Muito obrigado, viu? As Salaam Aleikum! – Aleikum Salaam!

Norberto Liberator

Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes.

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