Um breve resumo informativo sobre o Convoy Nuestra América e uma análise política do imperialismo atual
Por Aline Recalcatti*
Arte por Felipe Talles**
Convocado no começo de fevereiro, quando se começou a sentir os efeitos mais fortes do combustível que não chegava a Cuba desde dezembro de 2025, o Convoy Nuestra America foi o primeiro movimento internacional de solidariedade a Cuba contra a política externa dos Estados Unidos. Trata-se de um contexto de intensificação da militarização no Caribe pelos EUA quando, em setembro de 2025, começou a matar pescadores que provinham da Venezuela, Colômbia, Trinidad e Tobago e Vicente e Granadinas.
Nas redes sociais, existem publicações exigindo justiça para os homens bombardeados enquanto estavam em seus navios trabalhando. É difícil chegar a todos os nomes, porque se tratam de pessoas em zonas de pobreza, que aos poucos seus familiares vêm exigindo justiça a seus governos. Alguns desses mortos foram Chad Joseph e Rishi Samaroo. Assim, o fato de Thiago Ávila ter iniciado sua participação pelo Convoy pela Venezuela foi significativo para sinalizar onde exatamente começou essa guerra contra a América Latina.
Após um círculo de intensa pressão política e militar por meses sobre Caracas, os Estados Unidos decidiram, pela primeira vez desde 1989 no Panamá, invadir um território latino-americano. Nesse dia morreram 32 cubanos, considerados atuais heróis da pátria. Alguns nomes: Alfonso Roca Sanchéz, Lázaro Evangelho Rodríguez e Orlando Osoria López.
É difícil encontrar a devida informação de todos os nomes das vítimas do imperialismo nessa guerra, algo para quando construirmos, no futuro, essa história. Mas até agora essas são as baixas mais ou menos oficiais da Guerra entre Estados Unidos e América Latina em plano militar: 120 pessoas, principalmente caribenhos.
É nessa conjuntura que o Convoy-Caravana que ocorreu em 21 de março de 2026 foi exitoso, no sentido de mobilizar forças sociais contra uma ação perpetrada pelos Estados Unidos ao bloquear que cheguem barcos de petróleo a Cuba. Alguns anos atrás, não se imaginava uma cultura geopolítica no qual conhecidos atores políticos, como os organizadores da Internacional Progressista, apertassem a mão de um líder de país comunista — Miguel Diáz-Canel.
Isso seria visto como apoiar uma ditadura sanguinária, violenta, que fuzilava. Apoiar um bárbaro. Mas estiveram presentes nomes de centro progressista como Pablo Iglesias, ex-eurodeputado do Podemos, e o ex-líder do Partido Trabalhista da Inglaterra, Jeremy Corbyn. Mas ao se procurar, no Google, sobre essa aproximação da Europa com Cuba, não se encontra todas as notícias do que aconteceu ali em março e a síntese de todos esses encontros.
A ideologia da pequena burguesia, principalmente a classe média europeia, está sinalizando um distanciamento com sua contínua aceitação das políticas dos Estados Unidos frente às outras regiões. É uma perda de importante parte da hegemonia ideológica do imperialismo.
O que vemos é uma mudança de cenário frente a uma nova conjuntura política que se iniciou com o genocídio dos palestinos em 7 de outubro de 2023. A Palestina foi eixo essencial de luta, cuja solidariedade se desenvolveu a partir de duas missões que ocorreram de ajuda civil humanitária a Gaza através do mar, no qual partem diversos navios europeus de diferentes portos.
Sumud significa, em árabe, “firmeza” e a ideia de uma ação por flotilha surgiu em 2008, com a Freedom Fotilla Organization. A última missão foi em outubro de 2025, antes de abril de 2026, e os barcos foram interceptados, assim como seus tripulantes, pelo Estado ilegítimo de Israel. Tara Badoom, delegada tripulante da Irlanda, me contou que chegaram a avistar as luzes à noite em Gaza, mas que isso foi somente o que conseguiram ver, e logo foram bloqueados.
Em Cuba, trata-se de um contexto completamente diferente: para chegar na ilha por via aérea é muito fácil; não existem limitações por parte do governo, além de um visto de turismo. Assim, o Convoy Nuestra America conseguiu ser bem sucedido na sua intenção de melhorar um pouco a situação da ilha, entregando medicamentos para hospitais como o Hospital do Câncer, a Escola Latino Americana de Medicina (ELAM), o Centro Cardíaco, o Centro Martin Luther King e a Casa de Las Américas. Tratam-se de trabalhadores que tiveram um pequeno alívio de algum remédio que faltava, alguma comida extra, talvez até um painel solar portátil para carregar seus telefones.
Estima-se que foram cerca de 600 delegados que chegaram por via aérea e marítima. Por barco, os delegados saíram de Isla Mujeres e Puerto Progreso, no México. Um grande número de pessoas eram dos Estados Unidos, de grupos como o Code Pink, Let Cuba Breath, este último criado como brigada exclusiva em Cuba. Também havia o Nola To Cuba e a mídia Belly Of the Beast.
Outros nomes de influencers de esquerda participaram no evento, como Manolo Santos (EUA) e Gresa Guevara (Argentina). Também é interessante citar a força da delegação de Porto Rico, estado neocolonial dos Estados Unidos, que possui solidariedade de país irmão à Cuba. A maioria vieram por brigadas organizadas, mas houve outra estadunidense que escutou sobre o envio de ajuda a Cuba e também participou por conta própria.
De demais pessoas latino-americanas haviam de El Salvador e Nicarágua, quatro argentinos e 32 da Colômbia. Do Chile havia uma grande delegação de mais de 20 chilenos, a maioria deles pessoas mais velhas que atuam continuamente com escolas em Havana. Do México havia uma grande delegação em que uma parte foi em barco, alguns fizeram campanhas específicas como a “Salud Menstrual” da Horta Roma, além de outros viajantes e acompanhantes que somavam mais de 50 pessoas.
Do Brasil, foi a atual presidente da UNE, Bianca Borges, que inclusive fez uma fala no evento do dia 21-03. Havia, do Brasil, correntes do PSOL, Sindicato dos petroleiros e MST. Provavelmente, brasileiros tinham umas 15 pessoas como delegados. Também a delegação da Europa era grande e foi organizada como “Cuba no Está Sola”. A maioria das pessoas eram da Itália, mas havia dois da Áustria, alguns da Espanha, França e Irlanda.
Esses são apenas alguns dos dados do Convoy Nuestra América compilados até começo de abril de 2026, poucas semanas depois do evento. Sem embargo, enquanto esse movimento ocorria em Havana, em diversas outras cidades, os grupos que estavam articulados com a solidariedade de Cuba também se mobilizaram. No México houve protestos na frente da antiga embaixada dos Estados Unidos. No Chile, houve os primeiros reclamos intensos contra o presidente de extrema direita José Antonio Kast. No Equador, as pessoas que eram próximas da embaixada de cubanos, ali expulsa, foram ao aeroporto se despedir em agradecimento a Cuba.
Mas para quem acha que isso tudo está ocorrendo sem resposta dos Estados Unidos está enganado. Desde que os militantes começaram a sair da ilha iniciou-se problemas como o interrogatório de horas de Thiago Ávila no aeroporto do Panamá; assim como os 20 estadunidenses que passaram horas sob assédio quando chegaram a seus próprios países, perdendo seu direito ao próprio telefone; Ávila voltou a ser interrogado posteriormente quando tentou entrar na Argentina, para uma divulgação da Flotilha em Gaza e teve negado o acesso ao país.
No meu próprio caso, tive o acesso à minha própria conta do banco inglês WISE, com os donos eslovenos, negado. Porque abri o aplicativo em Cuba usando VPN, eles exigiram um comprovante de onde eu vivia. Neguei e cancelaram minha conta, por no momento que escrevo (14-04-2026) estou esperando me restituam meu dinheiro que contava para meus dias no México.
Em relação às brigadas de solidariedades, a próxima convocada pelo Convoy é dia 1 de maio, Dia do Trabalhador. Trata-se de uma época em que muitos se interessam em conhecer a ilha. Depois disso, a mais importante data é o Centenário de Fidel Castro, que ocorre no dia 13 de maio de 2026.
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*Aline Recalcatti é mestre em Relações Internacionais (Unila), doutoranda em Ciências Sociais (Unesp) e integrante do Convoy Nuestra América.
** Felipe Talles é publicitário, designer, militante comunista, vegano e interessado em pautas sociais.