Golpe contra Assad não representa libertação, muito menos melhoria para a Síria

Não faltam exemplos históricos de que desestabilizações como a ocorrida na Síria não terminam bem

Por Norberto Liberator
Após mais de uma década de tentativas, enfim o presidente sírio Bashar al-Assad foi derrubado, no dia 8 de dezembro de 2024. Como era de se esperar, o golpe foi celebrado pelas potências imperialistas. A presidenta da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, saudou o fim da “cruel ditadura de Assad”. Já o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que “finalmente o regime de Assad caiu”.
O presidente francês, Emmanuel Macron, também comemorou o golpe. Fala Macron: O estado de barbárie caiu finalmente. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu – que teve prisão decretada por genocídio no Tribunal Penal Internacional –, afirmou que o “eixo do mal” foi desestabilizado, enquanto seu governo iniciou bombardeios em Damasco. Fala Netanyahu: Este colapso é o resultado direto da nossa ação enérgica contra o Hezbollah e o Irã, principais apoiadores de Assad. Isso desencadeou uma reação em cadeia de todos aqueles que querem ser libertados deste regime opressivo e tirânico.
Netanyahu também anunciou a invasão da zona até então não ocupada das Colinas de Golã, região no sul da Síria historicamente reivindicada pelo colonialismo israelense. O principal grupo entre os chamados “rebeldes” é o HTS (em árabe, sigla de “Organização para Libertação do Levante”), remanescente da Al Qaeda e do Daesh (“Estado Islâmico”). O HTS segue uma orientação salafita, com interpretação ultrarreacionária da Lei Islâmica. Seu líder, Abu Mohammed al-Jolani, foi militante de ambos os grupos extremistas. Fala de Al-Jolani: O que Israel fez com o Hezbollah no Líbano nos ajudou muito. Vamos transformar a região, quem sabe com ajuda americana e israelense. (Entrevista para o jornal Times of Israel)
Outra organização que atua na desestabilização da Síria é o autoproclamado Exército Livre da Síria, grupo apoiado pelo governo de Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia. Um dos maiores temores é da comunidade curda, que enfrenta tanto um processo de limpeza étnica por parte do regime turco, quanto é perseguida por grupos salafitas. Siyamend Ali (porta-voz das YPG, grupo combatente curdo): O Estado Islâmico já começou a se movimentar e se desenvolver em vários lugares. Os combatentes curdos foram cercados pela HTS em Aleppo e têm sofrido ataques de grupos apoiados pela Turquia. (Entrevista à Folha de S. Paulo)
Zahraa Dirani (editora da emissora libanesa Al Mayadeen): Os terroristas assumiram o controle de Damasco. Agora o caos começou na Síria. E daí para o resto da região. Não fiquem felizes pela queda de Bashar e seu regime. A Síria entrou no túnel escuro e veremos coisas e cenários perigosos. O mapa do Oriente Médio está mudando, como Netanyahu prometeu. A Síria não será a última parada.

Norberto Liberator

Jornalista, ilustrador e quadrinista. Interessado em política, meio ambiente, artes e esportes.

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