Quando o jornalismo expõe vítimas e reproduz a violência de gênero

Publicizar nomes de vítimas e detalhes sobre suas denúncias revitimiza e pode colocá-las em risco Por Tainá Jara É papel do jornalismo reproduzir violência de gênero? Revitimizar mulheres já feridas no seu íntimo é jornalismo? Podem parecer questionamentos sem cabimento e de respostas óbvias, mas a prática de expor vítimas de feminicídios, estupros, assédios e importunações sexuais é quase naturalizada mesmo em veículos de comunicação em que atuam profissionais com formação na área.  Acompanhamos, desde o mês de setembro, denúncias de assédio moral e sexual contra o então ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, exonerado do cargo à época. Durante o mês de outubro, houve duas novas denúncias. Entre as vítimas, anônimas, o nome de uma ministra de Estado foi revelado pela imprensa. Do lado de lá, silêncio. O que se passa na cabeça da vítima quando uma violência que sofreu é exposta sem seu consentimento? Medo, vergonha, prejuízos físicos, psicológicos e financeiros…  Nome, foto e cargo, além de detalhes íntimos, infelizmente servem de chamariz para cliques. Ao fazer isso, o jornalismo revitimiza, culpabiliza e reproduz a  atmosfera de desconfiança que costuma permear esse tipo de denúncia. Como se colocar tais detalhes ao escrutínio público fossem imprescindíveis para provar o crime.  A Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e tantas outras que vieram depois, ajudaram a repensar muita coisa. São instrumentos importantes de combate à violência. O jornalismo foi/é fundamental na divulgação dessas leis. Mas, há um pé no sensacionalismo e um apego aos valores fundantes da profissão, carentes de serem revistos a partir de uma ótica plural, que nos impedem de ir além, na verdade, de fazer até mesmo o mínimo estabelecido no Código de Ética da profissão, em que o combate às opressões é um compromisso.  O grande desafio talvez seja noticiar sem expor vítimas contra a sua vontade, sem revitimizá-las, sem potencializar violências detalhando-as e contribuindo para satisfazer misóginos e fascistas, infelizmente tão comuns nos dias de hoje. Acabamos fazendo tudo isso, disfarçando a reprodução de violências sob o manto do interesse público.  Prolongamos tais violências quando as compartilhamos em qualquer formato. Nos tornamos criminosos a depender do teor desse compartilhamento. Deixar de informar certamente não é uma opção. Mas saber informar isso de forma realmente útil, com um olhar amplo sobre a sociedade atual e o contexto vigente, ciente ao menos dos impactos mínimos de tal produção, inclusive na vida das envolvidas, é o mais importante. Arte: Norberto Liberator Sabemos que quando se trata de uma mulher, não é necessariamente o criminoso quem vai pagar pela exposição de um caso. Não será ele a “puta”! Não será ele “a que procurou por aquilo”. Sendo um homem na mesma situação, iremos publicar, iremos abordar da mesma forma? As jornalistas Márcia Veiga da Silva e Fabiana Moraes, ao falarem sobre a contribuição do jornalismo para a manutenção do racismo, trazem ao debate crítica que cabe à discriminação de gênero. “A questão é que, blindado por uma suposta neutralidade e uma mal disfarçada posição de superioridade epistêmica, o jornalismo resiste a pensar a si mesmo como difusor e reprodutor de uma lógica racista. O estrago é imenso”. Então, eu me pergunto: a quem o jornalismo quer e deve servir? De que forma o jornalismo pode agir nessa disparidade de forças? Certamente não é expondo vítimas, colocando em xeque o caráter delas ou as culpabilizando. Vivemos tempos muito diferentes de 20 anos atrás em relação ao debate da questão de gênero. O jornalismo tem a obrigação de acompanhar essas mudanças e problematizá-las de forma qualificada. Hoje temos bancos de dados ao alcance das mãos, temos pesquisadoras de renome que estudam o tema de forma aprofundada e podem servir de fontes valiosas, canais de denúncias esperando para serem divulgados. Convido, mais uma vez, com toda disposição ao diálogo, os colegas jornalistas a repensarem tais coberturas. Especialmente as/os reincidentes. Não só porque essas questões podem atingir qualquer mulher pessoalmente, mas, para fazermos valer tantos esforços para avançar nesse debate nos últimos anos, mesmo sob ameaças de retrocesso. O jornalismo vive uma crise de credibilidade e não podemos nós, os próprios profissionais, sermos os responsáveis por terminar de sufocá-lo, junto ao pedido de socorro de inúmeras mulheres.   Referências: VEIGA, Márcia.; MORAES, Fabiana. “Onde está Ruanda no mapa? Decolonialidade, subjetividade e o racismo epistêmico no jornalismo. Pesquisa em Comunicação: Jornalismo, Raça e Gênero. Rio Branco: Nepan Editora, 2021, p. 94-109. Tainá Jara Jornalista e pesquisadora em Comunicação. Interessada em mídia, estudos de gênero e direitos humanos. Na horas vagas vai de cinema, música e, sim, política. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Anatomia de uma Queda: O uso da vida íntima para desqualificar mulheres nos tribunais

Apesar de ficcional, o filme francês “Anatomia de Uma Queda” evidencia infelizes semelhanças com a realidade das mulheres Por Tainá Jara Talvez uma história contada às avessas do usual ajude a comprovar pontos exaustivamente sustentados pelos movimentos feministas. O filme francês “Anatomia de uma Queda”, dirigido por Justine Triet, permite interpretações mais amplas e possibilidades de conclusões muito pessoais de cada apreciador. No entanto, ao ser lido a partir da perspectiva de gênero, é inevitável pensar o uso da vida íntima para desqualificar mulheres no tribunais, sendo elas vítimas ou rés. Na história em questão, Sandra, uma escritora alemã, interpretada por Sandra Huller, se torna a principal suspeita do suposto homicídio do marido. Mesmo sem saber o desfecho da narrativa, o incômodo diante do uso de elementos íntimos para sustentar a tese da acusação, explorados de forma cada vez mais intensa conforme o julgamento avança, é quase permanente.  A presença do filho da ré, de 11 anos, no tribunal não é fator intimidador para quem quer provar uma versão criminosa, mesmo sendo a situação por si só já muito dramática na vida de uma família que acabou de perder o pai. Sandra assiste ao uso de seu filho, sua vida pregressa, sua orientação sexual, seus traumas, desgostos e, até mesmo, sucessos, para desqualificá-la.  Em contraponto, é notório o esforço da personagem principal para preservar a imagem do pai morto diante do filho – esforço que se torna insustentável diante do avanço da estratégia de acusação. O contrário, porém, passa longe de acontecer.  Vasculhar a vida íntima pregressa de mulheres é muito comum em julgamentos de casos de feminicídio, por exemplo. Na posição de defesa, a estratégia é utilizada como tentativa de reduzir a pena dos acusados ou até absolvê-los. Tais passos, porém, trazem prejuízos irreparáveis à memória das vítimas.  Em geral, os argumentos culpabilizam as mulheres, revitimizando-as; usam de sensacionalismo; desconsiderando a memória da própria vítima e seus familiares; como ao abordar aspectos da vida íntima. Estes elementos, somados a outros, ajudam a reforçar estereótipos sobre papeis de gênero e comportamentos socialmente esperados das mulheres.   A gravidade de situações como estas levou o governo Lula, por meio da AGU (Advocacia-Geral da União) a apresentar ao STF (Supremo Tribunal Federal), no início deste ano, manifestação para impedir juízes de avaliarem a vida sexual pregressa de mulheres vítimas de violência sexual. A ação está sob relatoria da ministra Cármen Lúcia e ainda não tem data para ser julgada. Conforme a AGU, apesar do avanço da legislação brasileira, que busca proteger as mulheres de violência, como a Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) e a Lei Mariana Ferrer  (nº 14.245/2021), “os crimes de violência sexual aumentaram nos últimos anos e continuam a ocorrer casos em que acusados de estupro são absolvidos porque as vítimas são desqualificadas por juízes em razão de aspectos alheios ao crime denunciado, o que muitas vezes resulta em humilhação e revitimização de mulheres que sofreram violência sexual.” Se considerada, a iniciativa se tornará um importante mecanismo de combate ao machismo estrutural no sistema judiciário.  Desta forma, notamos que apesar de ficcional, o filme “Anatomia de Uma Queda” evidencia infelizes semelhanças com a realidade das mulheres. A percepção não se deve por acaso, já que a cineasta Justine Triet é reconhecida pelo olhar feminista em suas produções, cujas personagens fogem de estereótipos e expectativas impostas pela sociedade.  O gênero perpassa sua própria trajetória profissional. Ela venceu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes de 2023 com este último filme, tornando-se a terceira diretora mulher a ganhar o prêmio. No Oscar, foi a nona a vencer na categoria de melhor roteiro original, além de ter sido indicada na de melhor direção. Em quase um século da premiação estadunidense, cineastas mulheres foram indicadas à categoria nove vezes e apenas três levaram a estatueta. Traçar paralelos entre realidade e ficção, buscar formas instigantes, menos óbvias, de narrar e produzir com uma ousadia específica é importante para levar debates relacionados às desigualdade de gênero de maneira quase corriqueira ao público. Quem assiste, se questiona sobre tais pautas, sem sentir o peso incisivo da militância. Só não temos provas se sozinha, a estratégia narrativa das telonas é eficaz.  Referências: JARA, Tainá Mendes. #NenhumaAMenos: Redes sociais e feminismos nos fluxos informativos do caso de feminicídio de Mayara Amaral. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2019. DA REDAÇÃO. Governo Lula defende que vida sexual de vítima não seja avaliada por juiz. PT, 2024. Disponível em <https://pt.org.br/governo-lula-defende-que-vida-sexual-de-vitima-nao-seja-avaliada-por-juiz/>. Acesso em: 07 jan. 2024.  DE ALMEIDA, Fernanda. Justine Triet pode ser a 4ª mulher a receber Oscar de melhor direção. Forbes, 2024. Disponível em <Leia mais em: >. Acesso em: 07 jan. 2024.  Tainá Jara Jornalista e pesquisadora em Comunicação. Interessada em mídia, estudos de gênero e direitos humanos. Na horas vagas vai de cinema, música e, sim, política. Instagram Twitter Youtube Tiktok

Junho de 2013: os rumos que a primavera tomou

10 anos depois, pesquisadores e ativistas ainda tentam entender como manifestações reivindicando direitos humanos básicos agiram junto ao avanço conservador no Brasil  Por Tainá Jara Arte: Norberto Liberator O processo de assimilar momentos históricos fica ainda mais difícil quando os vivemos. Reconhecer a magnitude de tais episódios exige, por si só, tempo e observação dos desdobramentos. No meu caso, foram necessárias menos de três décadas de vida para viver alguns fatos de relevância social. Somam-se a este curto período, contexto mais veloz de análise e conclusões, já que a predominância das redes sociais impregnou o cotidiano e demanda explicações quase simultâneas ao presente dos acontecimentos.  As manifestações de junho de 2013 estão entre os grandes momentos da década passada no Brasil. A série de eventos que as sucedeu agita e se reflete no País até hoje. Não houve calmaria desde então. No entanto, 10 anos depois, pesquisadores e ativistas ainda tentam entender como mobilizações reivindicando direitos humanos básicos agiram junto ao avanço conservador.  Leituras do contexto global no qual as chamadas “Jornadas de Junho” aconteceram são essenciais para entender como eclodiram. Um ciclo de manifestações foi inaugurado no final de 2010 no mundo, a partir de revolta contra ações de representantes do Estado.  A Primavera Árabe foi deflagrada depois que o vendedor ambulante, Mohamed Bouazizi, 26 anos, ateou fogo no próprio corpo, em dezembro de 2010, diante de um prédio do governo para protestar contra o repetido confisco, pela polícia local, de sua banca de frutas e verduras, depois de ele se recusar a pagar propina. O fato ocorreu na cidade Sidi Bouzid, que possui pouco mais de 40 mil habitantes, e foi registrado pelo primo de Mohamed, responsável por distribuir o vídeo na internet. A partir de então, e de outras ações de autoimolação, vários protestos foram deflagrados e tomaram o País, mesmo sob a repressão selvagem da polícia, que matou dezenas de pessoas e deixou centenas feridas. As manifestações ocorridas no chamado “mundo árabe” influenciaram outras, em todo o mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, as referências aos protestos ocorridos na Tunísia foram explícitas. São desta época o Movimento 15M, na Espanha, onde os indignados acamparam nas ruas sob o lema “Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros” e também o Occupy Wall Street, em Nova York, em que os manifestantes entoavam que eram “os 99%”, se referindo ao 1% mais rico do País. Na América Latina, marcaram a mobilização dos estudantes no Chile por ensino gratuito e contra a lógica neoliberal de gerir a educação.  Sintonia global, reivindicações difusas    No Brasil, a primavera chegou através de diversos protestos, sendo o ápice em junho de 2013. Os manifestantes reivindicavam a redução do preço das passagens no transporte público e a mobilização era, ao menos inicialmente, chamada pelo Movimento Passe Livre (MPL). Em 20 de junho daquele ano ocorreu o auge das manifestações, quando 1,4 milhão de pessoas ocuparam 130 cidades no País. Três dias antes, o número de participantes tinha sido de 270 mil pessoas que saíram às ruas em 30 cidades.  Ao longo dos protestos, as reivindicações se ampliaram e ficaram cada vez mais difusas. O uso intensivo das redes sociais da internet para mobilizar os participantes não era o único aspecto novo, em relação às mobilizações anteriores da mesma magnitude.  Sem lideranças, a coletividade se sobrepunha às ações individuais, e a autonomia dos participantes, que agiam sem mediação de representantes políticos e até com alguma aversão a estes, também era novidade, assim como o caráter performático, marcado principalmente pelos Black Blocs, que escondiam o rosto e adotavam táticas de ação direta.   A proporção dos protestos, ataques a prédios de empresas-símbolo do capitalismo e táticas de autodefesa praticadas por estes grupos testaram e, em alguma medida, expuseram o despreparo das forças policiais. Embates violentos foram travados e prisões arbitrárias foram efetuadas. Passados os anos, uso de provas ilegais e mesmo a inexistência delas levaram a absolvições ou processos parados na Justiça. Porém, tal ponto é importante para ajudar a entender a disputa de narrativa entre direita e esquerda travada no calor dos protestos e que, de certa forma, ainda está presente uma década depois. As manifestações, mesmo ocorrendo sob o governo de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, abriram espaço para um fortalecimento estrutural das polícias, grupo que posteriormente se mostrou base para o avanço conservador, juntamente com os lava-jatistas, através do apoio às eleições de Jair Bolsonaro, em 2018.  “Junho mora onde?” Para o pesquisador Roberto Andrés, professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais e autor do livro “A Razão dos Centavos: crise urbana, vida democrática e as revoltadas de 2013”, o discurso extremista não predominou nas manifestações, que seguiram reivindicando o espaço urbano com o fortalecimento de movimentos como do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e contra as intervenções para Copa de 2014. Somente naquele ano, por exemplo, foram registradas mais de 2 mil greves no País. Além disso, ele aponta para o salto na adoção da tarifa zero no País. Até as manifestações, cerca de 10 cidades praticavam o passe livre. Atualmente, mais de 70 cidades incorporam políticas de gratuidade no transporte público. A principal bandeira dos movimentos, portanto, foi colocada em prática. Andrés aponta o avanço dos movimentos conservadores, após o 2º turno das eleições realizadas no ano seguinte.  Ainda assim, jornalistas e a própria esquerda associam as mobilizações de Junho de 2013 diretamente ao golpe contra a presidenta Dilma, em 2016. A hipótese de sequestro das mobilizações foi defendida pela filósofa Marilena Chauí, que classificou o episódio como o “ovo da serpente” da extrema-direita. A própria ex-presidente endossa a tese em prólogo da coletânea “Junho de 2013: a rebelião fantasma”, que acaba de sair pela Boitempo.  Para a socióloga Angela Alonso, autora do livro “Treze: a política de rua de Lula e Dilma”, tal explicação não se sustenta sozinha, mas deve somar-se a uma crise de representação e reação contra o sistema político iniciada ainda com o escândalo do “Mensalão”, em 2005, durante

Não acabamos no #EleNão e o número expressivo de ministras é prova da resistência

Organização permanente das mulheres pode ser determinante na retomada da democracia em situações de fortalecimento do autoritarismo  Por Tainá JaraArte: Marina Duarte O grito de #EleNão, ecoado nas ruas durante as eleições de 2018, era o auge do desespero de um capítulo inaugurado com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Depois de quase cinco anos marcados pelo desmonte e enfraquecimento de políticas públicas, iniciamos um novo governo com um número recorde de mulheres chefiando ministérios. Prova de que resistência nunca é demais, apesar do aparente fracasso. Apontado por alguns como fator determinante na vitória de Jair Bolsonaro, o movimento foi sem dúvidas mais uma demonstração de resistência das mulheres. Nas últimas duas décadas, intensificamos as mobilizações de rua, reivindicando direitos mesmo sob governos progressistas. Seguimos um fenômeno local-global de mobilizações, em que reivindicações ecoam mais longe mesmo aglutinando características locais.  Além disso, a crítica à mobilização às vésperas da população ir às urnas coloca no nosso colo a responsabilidade pelos retrocessos do País, quando na verdade a escalada do autoritarismo é consequência de uma série de outros fatores, tanto em nível local, como em escala mundial. Não havia muito o que fazer naquelas circunstâncias. Ir às ruas era uma das poucas alternativas. Além disso, não precisamos carregar mais culpa nessa vida.  A resistência não impediu os retrocessos, entretanto, deixou um núcleo articulado de mulheres a postos para reconstruir políticas públicas e avançar na conquista de direitos. Talvez até assimilamos mais o valor de estarmos organizadas agora.  Conquistamos no governo do Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito para o terceiro mandato, a chefia de 11 dos 26 ministérios criados. O número está longe do ideal, porém, nunca foi tão significativo.  Aparentemente, aumentamos nosso poder de barganha ao sermos decisivas no resultado das eleições. Portanto, nem mesmo a efemeridade característica das atuais mobilizações de rua são de eficácia nula. Revisitar reivindicações de séculos e mostrar que continuamos em luta são exercícios muito potentes e necessários.   Diversidade, militância pé no barro e alta formação técnica O fato é que, apesar das intempéries, não deixamos de produzir grandes e inesperadas lideranças, nos 4 anos de governo Bolsonaro. Exemplo disso é a ascensão da professora e ativista Anielle Franco, irmã da ex-vereadora carioca, Marielle Franco, assassinada a tiros junto de seu motorista, Anderson Pedro Mathias Gomes, Rio de Janeiro. Em janeiro de 2023, ela foi nomeada Ministra da Igualdade Racial. A nomeação de Anielle é a concretização da frase “Quiseram nos enterrar, não sabiam que éramos semente”, estampada em muros e que circulou nas redes sociais na época do assassinato, em doce tom de ameaça aos conservadores. A repercussão do caso certamente influenciou na nomeação, no entanto, não queremos que alguém precise morrer para que nossa luta seja reconhecida.  Mas a articulação entre as mulheres ligadas à vereadora, após o fato, foi decisiva para colocar a pauta racial como prioridade no novo governo e levar a ascensão meteórica da ativista. Uma legítima representante da sociedade civil e, de alguma forma, um exemplo de como novas mobilizações sociais podem operar na criação de lideranças.  O lastro com a sociedade civil também é uma característica da ministras da Cultura, Margareth Menezes, artista de renome internacional e com atuação social no terceiro setor; Sônia Guajajara, do inédito Ministério dos Povos Indígenas; e da própria ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, que, apesar de ter sua trajetória ligada a criação de políticas públicas em favor das mulheres em governos estadual e federal, foi responsável pela fundação da Central dos Movimentos Populares no Brasil, além de ser escuta ativa de movimentos feministas tradicionais como a Marcha Mundial de Mulheres e das trabalhadoras do MST (Movimento Sem Terra).  Apesar de já ter sido ministra do Meio Ambiente anteriormente, candidata à presidência em três eleições e hoje ser referência internacional em ativismo ambiental, Marina Silva, tem origem na militância dos povos da floresta e ajudou a liderar o movimento sindical no Acre, juntamente com Chico Mendes. Neste governo, ampliou a relevância de atuação ao expandir o ministério também para área da Mudança Climática. Articulações de caráter político e formação técnica também renderam espaço às mulheres. Nísia Trindade, presidiu a Fundação Oswaldo Cruz, entre 2017 e 2022. Estar à frente da instituição durante a pandemia deu visibilidade ao seu trabalho, que já contava com impecável trajetória acadêmica como cientista social, e a tornou a primeira mulher a assumir o cargo mais alto do Ministério da Saúde.  Mesmo pioneirismo foi alcançado pela ex-voleibolista e medalhista olímpica Ana Moser, cuja fundação da ONG Instituto Esporte e Educação inaugurou uma fase de caráter social na carreira de sucesso como atleta; e pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, a engenheira Luciana Santos.  Assim como Guajajara, a economista Esther Dweck recebeu o desafio de chefiar uma nova pasta; O Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos é responsável pelas ações de reforma da máquina pública e pelo fomento à eficiência governamental. A representatividade feminina não ficou imune às negociações de caráter meramente políticos. Simone Tebet assumiu o Ministério do Planejamento e Orçamento, após ficar em terceiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais e declarar apoio a Lula no segundo turno das eleições.  O comando da pasta é espécie de retribuição, embora a capacidade técnica da ex-senadora seja notória. Já a nomeação de Daniela Carneiro, a Daniela do Waguinho, no comando do Ministério do Turismo, tem como objetivo maior aumentar a composição do governo no parlamento. Filiada ao União Brasil, a pedagoga é uma caminho para atrair os votos de um dos maiores partidos do Congresso Nacional.  A relação entre movimentos de rua, como #EleNão, e a representatividade das mulheres em cargos de decisão pode não ser imediata e nem de ritmo diretamente proporcional. Conforme cálculo realizado pela professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Hannah Maruci, o Brasil pode levar 120 anos para ter equilíbrio entre homens e mulheres na política. A rua, no entanto, é o que retroalimenta nossa organização e é instrumento inquestionável de pressão a

Mulheres na política: representatividade é suficiente?

Paralela à disputa por cargos políticos, há uma luta pelo rumo das reivindicações que realmente combatem a opressão de gênero  Por Tainá JaraArte por Adrian Albuquerque Somos a maioria do eleitorado, os partidos estão obrigados a destinar 30% dos recursos eleitorais às candidaturas femininas, há recorde de mulheres concorrendo a cargos, inclusive à Presidência. As eleições de 2022 trazem um cenário inédito relativo à participação das mulheres no processo democrático. Paralela à luta por mais postos no Legislativo e Executivo, corre uma disputa por reivindicações que realmente impactam nas vidas das eleitoras.   As condições na disputa ainda são mínimas, mas nunca foram tão favoráveis. Nada veio de graça. Lutas e vigília constantes são as responsáveis pelas transformações, mesmo em tempos de retrocesso. Embora a representatividade seja um grande desafio, a cada dia se torna necessário pensar não só a garantia dos direitos já conquistados, mas o futuro dos movimentos feministas. Servir de instrumento para pautas que prejudicam outras mulheres é um perigo de crescimento proporcional, ou maior ao da própria representatividade feminina. A misoginia, junto ao racismo e a discriminação por classe, operam nas mais diferentes e sutis camadas da sociedade, por isso, as candidatas estão sujeitas a aderir a propostas e ideias de pouca ou nenhuma mudança real nas vidas das mulheres.  De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres compõem 53% do eleitorado. No pleito deste ano, as candidaturas femininas representam 33% do total de 28.641 concorrentes. Apesar de o Congresso Nacional promulgar a Emenda Constitucional 117, que obriga os partidos políticos a destinar no mínimo 30% dos recursos públicos para campanha eleitoral às candidaturas femininas, o número é apenas 1% maior do que o pleito de 2018, quando a o financiamento valia apenas por meio de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2014, o número era de 31%, um salto em relação aos pleitos presidenciais dos anos anteriores. Em 2010, a participação foi de 22% e, em 2006, 14%. Os diferentes perfis das candidatas concorrentes à presidência nos apresentam um panorama de possibilidades, mas ao mesmo tempo de questionamentos. Há recorde de concorrentes, embora as chapas encabeçadas por homens sejam as favoritas.  São quatro mulheres concorrendo ao posto mais alto do País: Vera Lúcia (PSTU), Simone Tebet (MDB), Soraya Thronicke (União Brasil) e Sofia Manzano (PCB). Além de quatro mulheres concorrendo ao cargo de vice: Raquel Tremembé (PSTU), Mara Gabrilli (PSDB), Ana Paula Matos (PDT) e Samara Martins (UP).  Há mulheres negras, com deficiência, indígenas e periféricas concorrendo. Uma diversidade muito maior se comparada aos candidatos homens. Porém, é nítido o recorte de raça e classe. As mulheres brancas e de classe média são as mais bem posicionadas, mesmo com a maioria da população se declarando negra. Nenhuma candidatura chega a 10% nas pesquisas. A maioria nem sequer a 1%.  A disputa paralela A verdade é que a atual situação é nada menos do que um sintoma da forma como o próprio feminismo se popularizou ao longo dos anos: a partir da visão das mulheres brancas de classe média e alta, em detrimento das vozes de indígenas, negras, imigrantes, latino-americana. Hora ou outra o problema deverá ser superado. Por que não começar a pensar nisso agora? Um mundo com “mulheres no topo” não necessariamente significa um mundo de superação das opressões por gênero. Bell hooks, no livro “O feminismo é para todo mundo – políticas arrebatadoras”, problematiza a questão a partir da forma como o movimento se desenvolveu nos Estados Unidos: “O pensamento feminista reformista, focado primordialmente na igualdade em relação aos homens no mercado de trabalho, ofuscou as origens radicais do feminismo contemporâneo que pedia reforma e reestruturação geral da sociedade, para que nossa nação fosse fundamentalmente antissexista”. Segundo a pesquisadora, diante da realidade do racismo, fazia sentido que homens brancos estivessem mais dispostos a levar em consideração os direitos das mulheres, quando a garantia desses direitos pudesse servir à manutenção da supremacia branca.  Devido a isso, o movimento feminista acabou crescendo limitado em suas possibilidades. As reivindicações relativas, por exemplo, à licença maternidade ou igualdade salarial, embora ainda sejam desafios em países do sul global, são discursos mais facilmente aceitos e apreendidos pela lógica neoliberal. Desafios como a superação da pobreza, por exemplo, atingem diretamente as mulheres e não são prioridade de muitos governos. Ainda conforme a teórica feminista: “Um homem despojado de privilégios masculinos, que aderiu às políticas feministas, é um companheiro valioso de luta, e de maneira alguma é ameaça ao feminismo; enquanto uma mulher que se mantém apegada ao pensamento e comportamento sexistas, infiltrando o movimento feminista, é uma perigosa ameaça”.  São inegáveis os ganhos e a mudança de pensamento proporcionados pela luta das mulheres nos mais diversos âmbitos, além das contribuições que uma representatividade comprometida traz. Porém, não basta apenas votar em mulheres, é preciso apostar num projeto político realmente comprometido com a superação das opressões de gênero.  Referências HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. 1 ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018. E-book. Tainá Jara Jornalista e pesquisadora em Comunicação. Interessada em mídia, estudos de gênero e direitos humanos. Na horas vagas vai de cinema, música e, sim, política. Adrian Albuquerque Jornalista, editor de vídeo, sucinto e entusiasta de alguns filmes. Interessado em artes, cultura e política. Diretor do documentário “Isto não é uma entrevista”. Twitter Youtube Facebook Instagram